Recorde de emissões de carbono desmente avanço ambiental alardeado por Temer

Maior aumento anual de gases de efeito estufa desde 2004 desmoraliza propaganda governamental


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Já estava claro, para qualquer pessoa bem informada sobre a política ambiental brasileira, que não passavam de conversa fiada os supostos avanços ambientais divulgados no sábado (21) pelo governo por meio da nota “Brasil mais verde: confira as conquistas do governo na gestão do meio ambiente”. A surpresa foi toda essa argumentação ter sido desmoralizada em poucos dias por um único e novo fato: a divulgação das emissões de gases de efeito estufa pelo país em 2016, com aumento de 9% em relação a 2015, a maior elevação anual desde 2004.

As alegações enganosas da nota divulgada no sábado pelo Planalto foram quase que integralmente repetidas na segunda-feira (23) no artigo “Riqueza ambiental”, assinado pelo próprio presidente Michel Temer na Folha de S.Paulo. No mesmo dia, os argumentos desse texto foram bem-humoradamente desconstruídos ponto a ponto pelo jornalista Claudio Angelo, do Observatório do Clima, no post “Homem-legenda lê o artigo de Temer”, em seu impagável blog pessoal Curupira.

Não ocuparei o precioso tempo dos leitores com os pontos já demolidos pelo citado post, que “fez barba, cabelo e bigode”, ou seja, serviço completo com a temerária propaganda ambiental. Retomarei apenas um ponto, a seguinte afirmação do presidente.

Estamos honrando os compromissos firmados no Acordo de Paris, cujas metas são observadas em nossas políticas públicas.

Essa afirmação foi reduzida a pó na quarta-feira (24) com a divulgação da 5ª edição do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Na nota “Emissões do Brasil sobem 9% em 2016”, o Observatório do Clima afirmou:

As emissões nacionais de gases de efeito estufa subiram 8,9% em 2016 em comparação com o ano anterior. É o nível mais alto desde 2008 e a maior elevação vista desde 2004.
O país emitiu no ano passado 2,278 bilhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e), contra 2,091 bilhões em 2015. Trata-se de 3,4% do total mundial, o que mantém o Brasil como sétimo maior poluidor do planeta.

A contundência da nota foi ainda maior ao destacar que esse aumento aconteceu durante grave recessão da economia nacional, concluindo que

O Brasil se torna, assim, a única grande economia do mundo a aumentar a poluição sem gerar riqueza para sua sociedade.

Embora a nota expedida pelo Planalto no sábado e o artigo de Temer publicado na segunda-feira tenham tratado de diversos outros temas ambientais, as estimativas específicas sobre lançamento de gases de efeito estufa na atmosfera têm um efeito desmoralizador da política ambiental em seu conjunto. Elas refletem não só as emissões de GEE pela mudança de uso da terra – ou seja, desmatamento –, mas também pela pecuária, transporte de carga, geração de energia termelétrica e resíduos.

“A única boa notícia é o aumento de eólicas e biomassa no setor de energia. Porque o resto da queda nos outros setores veio da crise econômica e não porque estamos fazendo a lição de casa”, afirmou Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, para a jornalista Giovana Girardi em sua reportagem no Estadão.

 

Corte de recursos

Com seu governo, Temer não foi o único responsável por esse aumento de emissões em 2016, que se devem também a sua antecessora Dilma Rousseff, afastada da Presidência em maio. Não só por ter governado durante quase dois terços do ano passado, mas sobretudo pelo corte de recursos para o MMA neste ano e por todos os sinais positivos dados a iniciativas antiambientais de setores mais retrógrados da indústria e do agronegócio.

Como bem disse Claudio Angelo em seu post, o governo Temer – “o presidente que patrocina o maior ataque ao meio ambiente da história da redemocratização (e isso concorrendo com um páreo duríssimo, Dilma Rousseff)” – tem daqui a duas semanas a Conferência do Clima em Bonn, na Alemanha, sob a presidência de Fiji. Junto com a votação na Câmara que barrou o pedido de abertura processo contra ele no STF, esse foi um dos principais motivos da enganosa estratégia de divulgação dos avanços ambientais.

As negociações para proteger Temer da segunda denúncia envolveram pelo menos R$ 12 bilhões, como informou reportagem de O Globo. O orçamento previsto para o Ministério do Meio Ambiente em 2018 é de R$ 3,278 bilhões, cerca de meio bilhão a menos do que em 2017 e 29% menor do que a média da última década, segundo estudo da WWF-Brasil e da Associação Contas Abertas sobre os projetos de lei do orçamento de 2017 e de 2018 (“Temer pode cortar 50% de verba para unidades de conservação, diz estudo”, Folha).

Nenhuma maquiagem de comunicação conseguirá mascarar as consequências dessa hedionda prioridade orçamentária.

Em tempo: vale a pena assistir na página do Observatório do Clima no Facebook aos debates e apresentações do 5º Seminário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa.

Na imagem acima, o presidente Michel Temer assina decreto de conversão de multas ambientais em ações de recuperação de áreas degradadas, em 21/out/2017, em Miranda (MS). Foto: Beto Barata/PR.

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