Cientistas chefes assediam colegas e alunos, diz viúva de geneticista suicida

Depoimento sobre má conduta e morte destaca abusos de pesquisadores sêniores a pós-graduandos e pós-doutorandos nos EUA


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A edição desta sexta-feira da Folha de S.Paulo traz um texto que certamente já deve estar provocando importantes análises e reflexões sobre o estresse enfrentado por estudantes que cursam pós-graduação para seguir a carreira acadêmica. Prazos apertados, pressões para publicar artigos, carga de trabalho excessiva, entre outros fatores, “podem gerar consequências graves, como níveis altos de estresse, depressão, ansiedade e outros transtornos”, afirma o jornalista Fernando Tadeu de Moraes logo no início de sua reportagem “Suicídio de doutorando da USP levanta questões sobre saúde mental na pós”.

Embasada em casos reais e fundamentada com opiniões de pesquisadores dedicados ao tema, a reportagem mostra que essa combinação de fatores “pode levar a atos extremos”, como o suicídio, há dois meses, de um aluno de doutorado do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, no próprio laboratório em que trabalhava.

O tema da matéria pode ser relacionado a outro problema crescente no meio acadêmico e que pode gerar também atos extremos no plano individual e prejudiciais também para a produção científica. As mesmas pressões com prazos, cobranças para publicações e outras formas de constrangimento podem não só ser exercidas por meio de assédio por parte pesquisadores e professores em funções de chefia, mas também levar pós-graduandos e até mesmo pós-doutorandos a cometer fraudes. E, além disso, com desfechos trágicos.

No início de setembro, a Times Higher Education, conceituada revista britânica sobre ensino superior, publicou um depoimento sob anonimato da viúva de um geneticista que, por não ter aguentado a pressão de seu superior para apresentar resultados, publicou um trabalho com dados fraudulentos e se suicidou.

“Meu marido era um cientista brilhante que cometeu suicídio alguns anos atrás”, diz a viúva ao iniciar seu depoimento, do qual destaco o trecho transcrito a seguir.

O que aconteceu com ele revela verdades feias e, expondo-as, espero concentrar alguma atenção sobre como abordá-las.
Nos ambientes hipercompetitivos e não gerenciados dos laboratórios de grande destaque, cientistas sêniores são livres para intimidar, pressionar e até atormentar seus estudantes de pós-graduação e pesquisadores pós-doutorandos sem qualquer conseqüência – tudo apenas para obter resultados que os ajudarão a ganhar subsídios de pesquisa, publicar documentos e acumular elogios. Nos Estados Unidos, esses cientistas são titulares e, portanto, são responsáveis ​​por suas ações, como era para seus escravos qualquer plantador do sul do século 18.
(…)
No caso de meu marido, ele foi submetido a tantas pressões abusivas de um cruel cientista sênior da Ivy League que ele recorreu a um desesperado ato de má conduta científica que lhe custou sua carreira. Sei que algumas pessoas vão dizer que ele conseguiu o que merecia. Mas isso só servirá para ilustrar a falta de compaixão que é o cerne do que está errado com a academia e que levou, direta ou indiretamente, à morte de um homem gentil e reflexivo que amava a ciência mais do que qualquer coisa no mundo.

 

Células-tronco fraudulentas

Um suicídio de ampla repercussão ligado a fraude científica aconteceu em agosto de 2014 no Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, em Kobe, no Japão. Yoshiki Sasai, de 52 anos, vice-diretor do centro, foi encontrado enforcado na escada do prédio da instituição, onde foi realizada grande parte de dois estudos sobre células-tronco retratados por “má conduta” no mês anterior pela revista científica britânica Nature, que os publicara em janeiro.

Sasai era supervisor de Obokata, que se tornou celebridade mundial em poucos dias após a publicação dos artigos, que anunciavam a reversão, por meio de um simples banho ácido, de células adultas de diversos tecidos de camundongos para seu estágio embrionário.

Após a publicação dos dois artigos, outros laboratórios tentaram reproduzir os resultados anunciados por Obokata e seus colegas. Nos dias seguintes, blogs de pesquisadores começaram a levantar a suspeita de adulteração de imagens de células usadas no estudo. (“Co-autor se suicida após retratação de fraude”, blog Maurício Tuffani, Folha, 5/ago/2014).

Confira o depoimento “Poisonous science: the dark side of the lab”, na Times Higher Education.

Na imagem acima, cabeçalho original do artigo “Poisonous science: the dark side of the lab”, publicado na revista Times Higher Education em 7/set. Imagem: reprodução ().

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4 Comentários

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  2. Antonio Carlos Soares said:

    Na verdade estes exemplos são apenas o topo do iceberg. A comunidade acadêmica é extremamente corporativista para expor suas mazelas e enfrentar seus fantasmas. Falando de casos concretos, a demissão de Andreimar Soares da USP foi uma vergonha. Tinham que encontrar um bode expiatório rapidamente para baixar a poeira de um caso de fraude em época de eleições para reitor.
    Bullying, assédio moral, assédio sexual, fraudes, plágio no meio acadêmico são muito mais comuns do que se imagina.

  3. Milene Martins said:

    Maurício, me desculpe se eu estiver errada, mas não há um certo viés nessa matéria? Em todos os setores da sociedade encontramos casos de suicídios e no meio acadêmico não seria diferente. Existe sim muita tirania e abuso de poder em algumas relações entre pós-graduandos e orientadores, mas também existem pessoas que já ingressam na pós-graduação vitimadas por psicopatologias. A autocobrança e as frustrações inerentes às atividades na pós-graduação são apenas ingredientes a mais que levam a pessoa a cometer um ato extremo. Um ex-colega meu de pós-graduação na USP se matou durante um final de semana, causando muita dor ao orientador, um profissional humilde e íntegro. Esse caso isolado relatado na reportagem e esse que eu descrevo aqui são dois exemplos que não servem para tecermos generalizações sobre o meio acadêmico ser mais propenso a gerar mais suicídios do que outros campos de trabalho.

    • Maurício Tuffani said:

      Olá Milene. Eu não entendi que a reportagem da Folha e o depoimento à Times Higher Education proponham generalizações a partir dos exemplos indicados, nem pretendi isso para meu artigo apontando esses dois textos. Apenas se mostra que o problema existe. Eu inclusive afirmo logo de início que a reportagem da Folha já deve estar “provocando importantes análises e reflexões sobre o estresse enfrentado por estudantes que cursam pós-graduação para seguir a carreira acadêmica”.

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