New York Times destaca fraude e ‘simbiose acadêmica’ com periódicos predatórios

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O cerco aos periódicos predatórios ganhou um importante reforço nesta semana em um dos mais influentes jornais do mundo. Publicada on-line na segunda-feira (30/out), a reportagem “Many Academics Are Eager to Publish in Worthless Journals”, do New York Times, foi reproduzida ontem em português no site da Folha de S.Paulo com o título “Para inflar currículos, pesquisadores publicam em revistas caça-niqueis”.

A novidade e a importância da reportagem não estão em abordar o tema das publicações acadêmicas que aceitam publicar artigos em troca de dinheiro e sem submetê-los previamente a uma verdadeira revisão por pares (“peer review’). O mérito do texto da jornalista Gina Kolata está em mostrar que os muitos dos autores – e ela não disse “todos” – que publicam nesse tipo de revista muitas vezes são cúmplices, e não vítimas. Segue a transcrição de um trecho de sua matéria na versão publicada pela Folha.

Mas está se tornando cada vez mais claro que muitos acadêmicos sabem exatamente o que estão fazendo, o que explica a proliferação desse tipo de publicação apesar das críticas generalizadas que elas recebem. Alguns especialistas afirmam que o relacionamento não deveria ser comparado ao que existe entre predador e presa, mas sim a uma nova e feia simbiose.
Muitos professores universitários – especialmente em instituições nas quais as horas de ensino são longas e os recursos escassos – se tornaram participantes ávidos de algo que os especialistas definem como fraude acadêmica, e o processo causa desperdício de dinheiro dos contribuintes, mina a credibilidade científica e serve para turvar pesquisas importantes.

 

‘Lixo acadêmico’

O fato de um trabalho científico ser publicado em um periódico predatório não implica que ele seja de má qualidade. Bons estudos também têm sido publicados em revistas desse tipo. No entanto, isso torna o problema ainda mais grave, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram relegados a publicações que são desprestigiadas pela comunidade científica internacional e também consideradas depósitos de “lixo acadêmico”.

As publicações predatórias podem ser distinguidas das que são presumidamente legítimas com base em 13 critérios apontados em um estudo publicado na revista BMC Medicine em março por dez pesquisadores que se basearam na análise de cerca de 300 revistas da área de ciências biomédicas.

“Estas [características] podem ser úteis para autores que estão avaliando periódicos para possível submissão ou para outros [interessados], como universidades na avaliação das publicações dos candidatos como parte do processo de contratação”, afirmam os pesquisadores na conclusão de seu estudo “Potential predatory and legitimate biomedical journals: can you tell the difference? A cross-sectional comparison”.

Apesar de a pesquisa ter sido focada em uma área específica, os critérios apontados podem ser aplicados com discernimento para todos os campos da ciência. Direto da Ciência reportou o estudo em março. (Confira em “13 critérios para saber se um periódico de biomédicas é predatório”.)

 

Proliferação

Um dos mais importantes alertas acadêmicos para o crescimento dos publishers predatórios e de periódicos editados por eles já havia sido divulgado em outubro de 2015 pela revista BMC Medicine. Segundo o estudo publicado por Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, o número de artigos dos periódicos publicados por publishers predatórios cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 – ou seja, se tornou sete vezes maior em quatro anos.

Em 18 de fevereiro deste ano, a Associação Mundial de Editores Acadêmicos (Wame) afirmou que instituições acadêmicas devem identificar integrantes seus listados como editores ou membros do corpo editorial dessas publicações e exigir sua desfiliação (“Identifying Predatory or Pseudo-Journals”). Opinião semelhante foi publicada por David Crotty, diretor editorial da Oxford University Press, dez dias após o alerta da Wame, em seu artigo “Predatory Publishing as a Rational Response to Poorly Governed Academic Incentives”.

Em outras palavras, e em termos mais incisivos do que os da reportagem do New York Times, os alertas da Wame e de Crotty mostram que está se tornando cada vez mais claro que não só muitos acadêmicos sabem o que estão fazendo, mas também que universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento estão assistindo ao crescimento dessa pilantragem – que muitas vezes acontece fazendo vítimas – sem tomar nenhuma atitude.

Para saber mais sobre os periódicos predatórios e os editores que exploram indevidamente o modelo de publicações em acesso aberto pela internet, leia artigos e reportagens de Direto da Ciência com a etiqueta (tag) periódicos predatórios.

Na imagem acima, diagrama de fluxo de identificação, seleção e inclusão de periódicos nos grupos de estudo de publicações predatórias (culpa esquerda), revistas legítimas em Open Access (meio) e de acesso por assinaturas, publicado pela Associação Mundial de Editores Acadêmicos (Wame) em seu comunicado “Identifying Predatory or Pseudo-Journals”. Imagem: Larissa Shamseer et al./Reprodução..

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Um comentários;

  1. Antonio Carlos Soares said:

    Existem algumas revistas “open access” que são um pouco melhores, como as do grupo PLoS e Scientific Reports, para citar só 2 exemplos. Mas a grande maioria é um lixo mesmo.

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