Relatório do Banco Mundial compara alhos com bugalhos no ensino superior

Estudo faz comparação simplista e enganosa entre despesas de universidades com infraestruturas completamente diferentes


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Se analisou em saúde, assistência social e em outras áreas como fez com a educação superior brasileira, o relatório do Banco Mundial que teve ampla repercussão na semana passada não merece credibilidade. Encomendado pelo governo, o documento “Um ajuste justo: análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil” faz comparações simplistas e enganosas entre universidades públicas e privadas e propõe cortes de até 0,5% nas despesas federais com ensino superior.

Um dos piores usos de dados apresentados no relatório, que foi divulgado no dia 21 em evento no Ministério da Fazenda, está na conclusão de que “alunos nas universidades públicas brasileiras em média custam de duas a três vezes mais do que alunos matriculados em universidades privadas” (pág. 123).

Essa comparação desconsidera diferenças gritantes entre as duas categorias de instituições de ensino superior, a começar pelo fato de que muitas das públicas possuem instalações praticamente inexistentes na maioria das particulares, abrangendo hospitais, clínicas veterinárias, fazendas experimentais e laboratórios de alta complexidade, inclusive de sequenciamento genético, observatórios astronômicos, aceleradores de partículas. Sem falar em pesquisadores e técnicos que trabalham nesses laboratórios.

Não bastasse comparar indevidamente alhos com bugalhos, o relatório também mostra claramente uma forma desastrada de lidar com indicadores de dispêndios na área do ensino superior. Após apontar que “o gasto médio por aluno no ensino superior não é alto, mas é consideravelmente elevado nas universidades e institutos federais”, o documento afirma

Se considerarmos somente as instituições públicas, no entanto, o nível de gasto por aluno é próximo ao verificado em países que possuem o dobro do PIB per capita do Brasil, e muito superior ao de vários países da OCDE, tais como Itália e Espanha.

Em primeiro lugar, diferentemente dessa afirmação, a Espanha aparece em nível de gasto com alunos no ensino superior público equivalente ao do Brasil, e não inferior, como mostram os gráficos a seguir, copiados do próprio documento (pág. 124) e baseados em dados do Instituto de Estatísticas da Unesco.

Quadros comparativos do relatório "Um ajuste justo : análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil", do banco Mundial (pág. 124).

Quadros comparativos do relatório “Um ajuste justo: análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil”, do Banco Mundial (pág. 124). Clique na imagem para ampliá-la em outra janela ou aba.

Mas o estranho é o relatório propor a redução de recursos públicos no ensino superior com base, entre outros motivos, na constatação de que o Brasil gasta em média por aluno mais que países em desenvolvimento como México, Colômbia e Honduras, mas menos que França, Canadá, Estados Unidos e outros desenvolvidos.

Em outras palavras, o Banco Mundial propõe para o Brasil ir na contramão das recomendações por mais investimentos no ensino da própria Unesco, que é a fonte dos dados do documento encomendado pelo governo brasileiro.

Nada contra discutir a proposta de cobrança dos alunos de maiores níveis de renda familiar, como propõe o relatório. Mas se for para partir de premissas distorcidas, qualquer debate será desmoralizado.

Curiosamente, o relatório do “ajuste justo” afirma que sua principal conclusão é a de que “o Governo Brasileiro gasta mais do que pode e, além disso, gasta mal”. Qualquer que tenha sido o valor pago por esse estudo, o país realmente gasta muito mal.

Leia também:

Na imagem acima, adaptação a partir do gráfico sobre o custo médio por aluno da educação superior entre 2013 e 2015, apresentado no relatório “Um Ajuste Justo: Análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil”, do Banco Mundial (21/nov/2017).

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5 Comentários

  1. Pingback: Dá para pagar a universidade publica? – Observatório da Comunicação Pública da Ciência

  2. jean guimaraes said:

    O Banco Mundial agiu aqui como lobista do mercado da educacao privada, dando belo exemplo de deseducacao e manipulacao. Obrigado pela oportuna analise!

  3. Pingback: Educação em Debate, edição 185. – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  4. Pingback: Uenf sobrevive ao desmonte - Portal Viu

  5. Paulo E. Trani said:

    O artigo comenta com clareza o “engano” do Banco Mundial. Porém é também preciso lembrar que o número maior de estabelecimentos de Ensino Universitário não tem mantido o mesmo nível das décadas de 70 É 80. Isso eu tenho convicção para as Faculdades de Agronomia. Bom atentar para o pedido dos Conselhos de Medicina no sentido do Governo parar por alguns anos a autorização de abertura de novos cursos
    Tente acessar o programa Record Espetacular deste domingo onde mostra a questão dos erros medico- hospitalares e sua relação com a pior qualidade de Ensino em anos recentes.
    Que a qualidade de ensino e pés
    nos últimos caiu isso é um fato!
    A pergunta é o que fazer? A resposta é investir mais porém com melhor aplicação dos recursos públicos!
    Atenciosamente
    Paulo E.Trani.

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