Uma saída para pesquisadores vítimas de periódicos predatórios




Em alguns casos, é possível publicar novamente artigo usado por editores fraudulentos, segundo comitê de publishers acadêmicos


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O fato não é recente, mas certamente é novidade para muitos pesquisadores. E é uma boa notícia para autores que alegam que não sabiam que estavam lidando com periódicos predatórios ao enviar um artigo para publicação. É possível, dentro de determinadas condições, publicar novamente o trabalho em outra revista, mesmo que a predatória se recuse a retirá-lo, segundo orientação do Comitê de Ética da Publicação (Cope).

O assunto veio à baila na segunda-feira (11) no artigo “When Authors Get Caught in the Predatory (Illegitimate Publishing) Net”, publicado no site The Scholarly Kitchen por Phaedra Cress, editora-executiva do Aesthetic Surgery Journal.

Cress relata um caso do ano passado, quando o Cope foi consultado por um pesquisador que afirmou que não conhecia a má reputação de um periódico que lhe enviou um convite para envio de artigos e para o qual encaminhou um manuscrito para avaliação. O autor afirmou que se surpreendeu com a publicação do trabalho sem qualquer evidência de ter sido realizada a revisão por pares e que solicitou a remoção do artigo por e-mail e correspondência registrada, mas que não foi atendido.

O pesquisador enviou o mesmo trabalho para avaliação de outro periódico, explicando o que aconteceu. O editor-chefe entendeu que poderia publicar o artigo, pois o autor nem sequer havia assinado cessão de direitos autorais para o periódico predatório. O Cope concordou e publicou sua recomendação sobre o caso (“Withdrawal of accepted manuscript from predatory journal”).

 

Pagou, publicou

Jornalista especializada em publicações na área de ciências da saúde, Cress já foi diretora da Associação Mundial de Médicos Editores (Wame), entidade que em fevereiro deste ano conclamou publicamente as instituições acadêmicas a conter o avanço dos periódicos predatórios, recomendando-as a identificar integrantes seus listados como editores ou membros do corpo editorial dessas publicações e exigir sua desfiliação (“Pesquisador que publica em periódico predatório nem sempre é vítima”).

Os periódicos predatórios são revistas editadas por empresas que exploram sem rigor científico o modelo de publicação de artigos acadêmicos em acesso aberto, que é mantido por meio da cobrança de taxas de autores ou pelo custeio por parte de instituições científicas.

Tanto no acesso aberto como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos considerados “legítimos” chegam a demorar meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas e até mesmo a poucos dias o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também deixam de seguir nesse processo os padrões de seleção e rigor científico da publicação acadêmica. É o “pagou, publicou”.

 

Proliferação

O número de artigos dos periódicos publicados por publishers predatórios cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014, ou seja, cresceu sete vezes  em quatro anos, segundo estudo de Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, publicado em outubro de 2015 pela revista BMC Medicine.

Neste ano, dez dias após o citado comunicado da Wame com sua recomendação às instituições acadêmicas (“Identifying Predatory or Pseudo-Journals”), David Crotty, diretor editorial da Oxford University Press,  em seu artigo “Predatory Publishing as a Rational Response to Poorly Governed Academic Incentives”, reiterou que está se tornando cada vez mais claro que não só muitos acadêmicos sabem o que estão fazendo ao enviar artigos para periódicos predatórios, mas também que universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento estão assistindo ao crescimento dessas publicações sem tomar nenhuma atitude.

A notícia do cerco aos periódicos predatórios chegou ao New York Times em 30 de outubro deste ano com a reportagem “Many Academics Are Eager to Publish in Worthless Journals”, que foi reproduzida em português no site da Folha de S.Paulo com o título “Para inflar currículos, pesquisadores publicam em revistas caça-niqueis”. No texto, a jornalista Gina Kolata ressaltou que muitos dos autores  que publicam nesse tipo de revista muitas vezes são cúmplices, e não vítimas.

 

Predatórios no Qualis

No Brasil, pelo menos 485 periódicos acusados de recorrer a más práticas editoriais são usados por professores, pesquisadores e pós-graduandos, segundo o site Preda Qualis, lançado em novembro por três docentes da USP, Unesp e UFABC. Essas publicações estão na plataforma de dados online Qualis Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que reúne e classifica cerca de 26,5 mil títulos e serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher de revistas acadêmicas para publicar seus trabalhos.

Dos 485 periódicos “potencialmente predatórios”, 67% foram classificados nos estratos A e B do Qualis, em vez de serem listados no nível C, destinado a publicações consideradas inadequadas, afirmam os autores da iniciativa, Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biociências da USP, Roberto André Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp, e Renato Mendes Coutinho, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC.

Embora considerem “baixa” a proporção de periódicos predatórios do Qualis – os 485 títulos detectados correspondem a 1,8% dos 26.477 registrados na plataforma –, os criadores do novo site entendem que “há uma grande vulnerabilidade do sistema de avaliação da CAPES à invasão por este tipo de publicação”.

Na imagem acima, armadilha em fotografia de Robert Lawton, de 2009, com licença Creative Commons Attribution-Share Alike 2.5 Generic, via Wikimedia Commons.

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2 Comentários

  1. Pingback: Ciência & Tecnologia, edição 187 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  2. Marcelo S. Perlin said:

    PArabéns pelo trabalho! Tenho assinado o newsletter com muito interesse neste tópico de revistas predatórios. Temos que discutir esta questão.

    Eu e dois colegas de universidade fizemos um trabalho relacionado com este tópico, olhando todas publicações predatórias encontradas no Lattes desde 1990. Ainda é um working paper, em fase de apreciação por uma revista da área, mas os resultados são muito interessantes, em linha com o trabalho dos professores Paulo, Roberto e Renato. Investigamos mais fundo a questão do Qualis mostrando que, na medida que um journal predatório entra no Qualis, ele recebe mais publicação que um journal não-predatório.

    Eu encaminhei o link do trabalho pela página de contato do blog, porém talvez não tenhas recebido (não tive retorno algum). Segue abaixo:

    https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3067958

    Acho que vale a pena dar uma olhada.

Comentários encerrados.

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