Embrapa aponta artigo de pesquisador como ato de indisciplina, e o demite

O sociólogo Zander Navarro, demitido da Embrapa em 8 de janeiro. Foto: Pedro França/Agência Senado/Wikimedia/Commons.




Ambiente da empresa do Ministério da Agricultura é autoritário e não permite discussões, afirmou o sociólogo Zander Navarro


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Um artigo publicado no Estadão na sexta-feira (5) custou a seu autor, o sociólogo Zander Navarro, a demissão de seu cargo de pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal vinculada ao Ministério da Agricultura. Ontem, segunda-feira (8), ele recebeu da administração um documento comunicando seu desligamento.

Questionada por meio de sua Secretaria de Comunicação no início da tarde desta terça-feira, a Embrapa afirmou por telefone que Navarro foi demitido por ter sucessivamente infringido o código de ética da empresa. Direto da Ciência em seguida questionou quais disposições do citado código teriam sido desrespeitadas pelo pesquisador. A pergunta foi enviada também por e-mail.

Na sequência, a reportagem entrou em contato com Navarro, que estava na Embrapa, em Brasília, às voltas com a retirada de seus objetos pessoais. Ele afirmou que no comunicado que recebera constava que sua demissão havia sido decidida pela presidência da estatal, que considerou terem sido cometidas por ele transgressões disciplinares que culminaram no texto publicado no centenário jornal paulistano.

Intitulado “Por favor, Embrapa: acorde!”, e com o subtítulo “Concorrentes correm à nossa frente e a estatal dorme embalada pelos sonhos do passado”, o artigo de Navarro afirmou:

O ano entrante é decisivo para a Embrapa. Seu atual presidente será provavelmente substituído. Não poderia estatutariamente ser reconduzido. Haverá também a substituição do atual titular do Ministério da Agricultura, onde está alocada a empresa. E teremos eleições presidenciais. Qual será o futuro da Embrapa? É um cenário imprevisível, para o qual a organização está despreparada. Seu funcionamento interno é autoritário e não permite debater a situação e a construção de cenários plausíveis. E existe enorme resistência da direção em promover as mudanças urgentes e necessárias.

Ao final desse texto, Navarro se identifica como “Sociólogo e pesquisador em ciências sociais”, e não como pesquisador da Embrapa. Ele afirmou à reportagem que em todos os seus artigos, palestras e apresentações sempre explicitou que se pronunciava apenas em seu nome, a fim de evitar problemas com a estatal.

 

Polêmicas

Navarro graduou-se em agronomia pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, em 1972 e concluiu mestrado em sociologia rural em 1975 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi docente até se aposentar em 2011. Em 1981 obteve seu título de doutor em sociologia pela Universidade de Sussex, no Reino Unido. E concluiu seu pós-doutorado em 1992 no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

Em 2011, Navarro ingressou na Embrapa Estudos Estratégicos e Capacitação, em Brasília. Ao ser demitido, estava lotado na Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da empresa.

Polêmico, o sociólogo sustenta que a reforma agrária não tem futuro e afirma que a agroecologia não tem fundamentação científica. Em 2015, foi co-autor do livro “Novo mundo rural: A antiga questão agrária e os caminhos futuros da agropecuária no Brasil” (Editora Unesp), com Xico Graziano, que foi deputado federal pelo PSDB e secretário da Agricultura e do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Graziano foi quem ainda ontem, no mesmo dia, divulgou a demissão de Navarro, com um post no Twitter.

Até o fechamento desta reportagem, a Embrapa não respondeu à pergunta sobre quais dispositivos do código de ética da empresa teriam sido considerados como infringidos por Zander Navarro.


Leia também

Após a reportagem acima, Direto da Ciência publicou

Na imagem acima, o sociólogo Zander Navarro, demitido da Embrapa em 8 de janeiro. Foto: Pedro França/Agência Senado/Wikimedia/Commons.

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6 Comentários

  1. Antonio Junior said:

    Em particular, concordo com a opinião de Zander. Realmente a Embrapa está muito aquém do que deveria ser, ainda mais pelo montante de recursos “investido” (GASTO). Hoje o que se nota é um quadro de funcionários com mais de 35% de aposentados e recebendo salários quase o Teto e a maioria são pouco produtivos ou nada fazem a não ser cumprir o horário para bater o ponto. Falta, acredito eu, todos terem metas a curto, médio e longo prazo. Mas, infelizmente o que vemos é quando o Chefe imediato exige resultados, logo tal atitude é vista como assedio. E, e por isto já tem vários processos em andamento. Ou seja, continuam sem produzir e ganhando altos salários.

  2. Adeli Sell said:

    Uma lástima.
    Quem conhece o Zander, sabe bem que ele sempre falou o que pensa.
    E pensar está sendo proibido.

  3. Marcos Andrade Moraes said:

    O estado brasileiro tem que ser queimado em praça pública.

    MAM

  4. Sérgio Ferraz said:

    Um tanto reaça esse Zander Navarro, mas sua ridícula demissão revela um ranço anacrônico e medieval da EMBRAPA. E acabou dando para o artigo dele um destaque maior ainda.

  5. Gildasio Mendes Lima said:

    Olhando o curriculum do Dr. Navarro, possui autoridade para expressar sua visão futurista, sem denigrir a imagem da mais renomada instituição de pesquisas do setor agropecuária, recentemente, eleita como uma das melhores do mundo.
    Este titulo credencia à Embrapa, no minimo debater , em alto nivel, as idéias do seu exímio pesquisador.
    A ciência desenvolve porque há investigação de questionamentos e os resultados aparecem porque os dasafios são encarados de frente, e não, fazendo calar a boca de quem sabe o que fala.
    Ja vimos esse filme em outras épocas, o Brasil perder cientistas renomados por existir diretores de tão vil visão futurista.
    Ao Dr. Navarro, eu como extensionista praticante, sinto na pele esta vulnerabilidade de faz de conta.

  6. Roger Guimarães said:

    Pessoalmente discordo das ideias de Zander Navarro, mas deploro a forma como a EMBRAPA procedeu com ele, retrógrada, autoritária e incompatível com uma instituição de pesquisa. Maurício Tuffani fez bem em questionar o que a Presidênci da Instituição considerou desrespeito ao Código de Ética. Cadê a resposta?

Comentários encerrados.

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