Agro é ‘tech’ e ‘pop’, mas ainda quer avançar sobre o Cerrado




Formadores de opinião do agronegócio desconsideram devastação ambiental e mascaram interesse de ampliá-la


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em 2017, uma intensa e eficiente campanha publicitária da TV Globo, com o bordão “Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo”, consolidou uma imagem mais positiva para a atividade agropecuária brasileira. No entanto, não é apenas uma reputação melhor o que busca o agronegócio.

Em outra frente de comunicação, cada vez mais porta-vozes dessa atividade mandam também a mensagem de que a área ocupada pela produção de alimentos no Brasil é proporcionalmente pequena comparada à de outros países. Por trás de toda essa retórica na imprensa e nas redes sociais, articula-se dissimuladamente a ideia de que é necessário avançar ainda mais a produção de alimentos sobre áreas de vegetação nativa.

Em meio às pressões nacionais e internacionais pela redução do desmatamento e até mesmo pelo desmatamento zero na Amazônia, o agronegócio volta sua atenção para o Cerrado. Mas sem abrir o jogo. Não se fala diretamente em ampliar a ocupação da savana brasileira. Mas se insiste em dizer que as culturas agrícolas estão ocupando pouca área.

O problema é que o Cerrado não é mais visto como aquele enorme sertão sem nenhuma importância ambiental e no qual foi estimulada pelo governo federal a expansão agropecuária desenfreada nos anos 1970. Trabalhos científicos cada vez mais mostram a enorme riqueza da diversidade biológica desse bioma, que, por seu elevado grau de devastação, passou a ser considerado como um dos principais hotspots do planeta.

‘Novidade’ enganosa

Afirmando sua determinação para fazer o Brasil em cinco anos, ampliar os 7% da participação brasileira no mercado internacional para 10%, o Ministério da Agricultura tem reiterado que o país cumprirá a legislação ambiental e que não será necessário ampliar as áreas desmatadas para ampliar a produção de alimentos.

Apesar disso, o próprio ministério tem engrossado a cantilena do uso de pouca área dos formadores de opinião do agronegócio. Em dezembro, ao divulgar como novidade dados de setembro do U.S. Geological Survey e da Nasa para afirmar que o Brasil protege e preserva a vegetação nativa em mais de 66% de seu território e cultiva apenas 7,6% das terras, o ministro Blairo Maggi nada mais fez do que requentar com ampla repercussão informações que já haviam sido anunciados no início de 2017 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Além disso, a área apontada nessa divulgação se limita à agricultura e não inclui a pecuária. Como bem mostrou Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, em seu artigo “Sem exagero”, no Globo, “o país ocupa 33% do território com atividade agropecuária, e não 7,6%, que correspondem apenas à área de cultivos agrícolas, sem contar a pecuária” (Blog do Tasso Azevedo e O Globo).

Choradeira na imprensa

Nos últimos meses, o jornal O Estado de S. Paulo se transformou em um baluarte desse esforço do agronegócio para conquistar corações e mentes, especialmente dos formadores de opinião. Avesso a posições divergentes, diferentemente de seus concorrentes Folha e O Globo, o espaço opinativo do centenário diário paulistano tem martelado por meio de artigos de diferentes autores a mesma ladainha da pouca área para a agricultura.

Nesta semana, na terça-feira (8), em mais um capítulo desse repetitivo esforço, o Estadão exagerou em editorial “Brasil, país poupador de terras”, com seu título que, à primeira vista, parece ser uma ironia. Afinal, em cobertura vegetal nativa, já se foram 19,7% da Floresta Amazônica, cerca de 50% do Cerrado e 88% da Mata Atlântica.

Nem parece se tratar do mesmo país sobre o qual se referiu o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu livro “Raízes do Brasil” (1936) ao caracterizar a “persistência da lavoura de tipo predatório”. Essa interpretação inspirou outra obra 60 anos depois, que explicou mais a fundo a forma como a fronteira agropecuária se expandiu sobre a grande floresta que se estendia de norte a sul paralelamente à costa atlântica brasileira. Nas palavras do brazilianist Warren Dean (1932-1994),

Durante quinhentos anos, a Mata Atlântica propiciou lucros fáceis: papagaios, corantes, escravos, ouro, ipecacuanha, orquídeas e madeira para o proveito de seus senhores coloniais e, queimada e devastada, uma camada imensamente fértil de cinzas que possibilitava uma agricultura passiva, imprudente e insustentável. A população crescia cada vez mais, o capital ‘se acumulava’, enquanto as florestas desapareciam.
(“A Ferro e Fogo”, Companhia das Letras, São Paulo, 1996, pág. 380.)

Devastação desenfreada

A agricultura brasileira não é mais assim. De fato, cada vez mais o “agro é tech”, como diz a propaganda da Globo. Essa atividade incorporou muitos dos avanços da inovação tecnológica, proporcionando aumentos crescentes de produtividade, reduzindo a necessidade de expansão para novas áreas. Além disso, a produção agrícola levou o Brasil a uma posição de destaque entre os maiores fornecedores mundiais de diferentes alimentos. Na economia, o aumento da importância do agronegócio se reflete não só na geração de superávits comerciais, mas também no recuo da inflação em grande parte pela redução dos preços de alimentos.

No entanto, a devastação de biomas prosseguiu nesse mesmo período de expansão e inovação. Na Floresta Amazônica, o corte raso saltou de 9,5% em 1988 para 19,7% em 2017, ou seja, mais que dobrou, alcançando uma área equivalente à metade do estado do Amazonas ou ao triplo da do Reino Unido, como mostrei em uma escandalosa tabela. De 2001 a 2015, o Cerrado teve perdas proporcionalmente três vezes maiores do que a Amazônia, como mostra o Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil (MapBiomas).

Não bastassem os formadores de opinião do agronegócio desconsiderarem essas informações, existem ainda representantes truculentos desse setor no Legislativo lutando por retrocessos também em outras frentes. Na Câmara dos Deputados, entre outras iniciativas contrárias à legislação ambiental vigente, a última versão do projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental ameaça dispensar de licenciamento toda a atividade agrícola, pecuária extensiva e silvicultura.

Inovação e mudanças

“Não é preciso desmatar mais nenhum hectare de Cerrado, e sim implementar políticas de inteligência territorial para evitar o desperdício”, afirmou o pesquisador Tiago Reis, ao apresentar estudo estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), durante o Seminário Nacional do Cerrado, em Brasília, em 5 de dezembro.

De acordo com o estudo do Ipam, grande parte da agricultura praticada no Cerrado não só estimula a devastação, mas também traz alto risco para o agronegócio por estar localizada em áreas de médio ou alto risco produtivo, com clima e solo desfavoráveis à atividade. “A agricultura deve se reorientar para ocupar áreas de pastagens com baixa produtividade e rentabilidade”, esclareceu o pesquisador.

Nesse ponto, também está de acordo, apesar de achar que ainda é possível “utilizar parte do Cerrado, onde há alta aptidão agrícola”, Roberto Rodrigues, professor da FGV e ex-ministro da Agricultura. Mais que isso, em sua recente entrevista para o Instituto escolhas, ele tocou o dedo na ferida do agronegócio ao afirmar que “o desmatamento não é estancado por causa do seu caráter econômico. Hoje é mais barato desmatar o Cerrado do que comprar tecnologias disponíveis”.

Para enfrentar o desafio de ampliar a produção brasileira de alimentos, aumentar as exportações e também ajudar a erradicar a miséria no país, mas sem comprometer seus recursos naturais, inclusive pondo em risco o futuro dessa produção, o caminho não é aumentar a devastação e fazer o Brasil perder remanescentes dos mais ricos ecossistemas do planeta, ricos também na cobiçadíssima diversidade genética.

Se o agro quiser mostrar que é realmente “tech” e “pop”, o caminho está em ouvir o que diz a ciência e investir em inovação.

Na imagem acima, área do Cerrado ocupada por cultura agrícola em Goiás. Foto: Nivaldo Ferri/Emater/GO.

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2 Comentários

  1. Alfredo Pereira said:

    Um alerta adicional quanto ao trabalho do EMBRAPA. O autor, Sr. Evaristo Miranda, é conhecido há muito tempo por realizar trabalhos em rigor técnico-científico, tendenciosos, para não dizer de má-fé. Nesse estudo, fora outros problemas, com certeza há sobreposição dos diversos tipos de áreas de vegetação nativa: vegetação nativa em propriedades rurais, reserva legal (RL), proteção permanente (APP), vegetação nativa em unidades de conservação; vegetação nativa em terras indígenas e vegetação nativa em terras devolutas, relevos, águas interiores, etc. Isso aumentou bastante a área de vegetação nativa.

  2. Marcos Barbosa de Oliveira said:

    Parabéns pela excelente matéria, bem informativa – e devidamente crítica das presentes manobras ruralistas. Não era o objetivo do artigo, mas é bom lembrar outra consequência nefasta do agronegócio, os problemas ambientais causados pelo complexo transgênicos/agrotóxicos. E, de um outro ponto de vista, vale a pena lembrar também que, em sua luta contra os cortes de verbas para a pesquisa (cuja legitimidade não se contesta), as sociedades científicas brasileiras, em particular a SBPC, vêm apresentando a contribuição que a pesquisa dá para o agronegócio como um de seus benefícios para a sociedade. Não seria melhor abrir mão desse argumento, limitando a defesa aos reais benefícios da pesquisa científica, que sem dúvida existem?

Comentários encerrados.

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