Falácias de Moro: entre paralogismos e sofismas




Pesquisadores de lógica comentam livro sobre sentença contra Lula e criticam argumentos do juiz.

Abílio Rodrigues Filho, Adolfo Gustavo Serra Seca Neto, Alexandre Costa-Leite, Alexandre Noronha, André Leclerc, Andréa Maria Altino de Campos Loparic, Arley Ramos Moreno, Arthur Ronald de Vallauris Buchsbaum, Bento Prado de Almeida Ferraz Neto, Cezar Mortari, Giovanni Queiroz, Gisele Dalva Secco, Hércules de Araujo Feitosa, Iole de Freitas Druck, Itala Maria Loffredo D’Ottaviano, João Vergílio Gallerani Cuter, Juliana Bueno-Soler, Leandro Oliva Suguitani, Luiz Carlos Pinheiro Dias Pereira, Marcelo Esteban Coniglio, Marcos Antonio Silva Filho, Raul Ferreira Landin Filho, Renato Mendes Rocha, Ricardo Pereira Tassinari, Samuel Gomes da Silva, Tiago Falkenbach, Valéria de Paiva, Wagner de Campos Sanz, Walter Alexandre Carnielli

Está para ser lançado o livro “Falácias de Moro: Análise Lógica da Sentença Condenatória de Luiz Inácio Lula da Silva”, de autoria de Euclides Mance, filósofo, professor de Filosofia do Método Científico e de Lógica, ex-docente da Universidade Federal do Paraná e atualmente integrante da coordenação geral do Instituto de Filosofia da Libertação.

O livro, com 276 páginas, será lançado nos próximos dias pela Editora IFIBE, e já está disponível para acesso em

https://drive.google.com/file/d/1BsSkXPLZltZBe3dnNsmMJZyoanfxPwy7/view.

A Lógica é a ciência que estuda a relação de consequência entre proposições, respondendo, assim também, por teorias da argumentação correta nos domínios da linguagem comum e científica. Ciências particulares terão seus conceitos próprios e regras para seus empregos adequados; mas, assim como seus cálculos têm de ser feitos com as regras da aritmética, seus argumentos precisam espelhar relações de consequência válidas, caso contrário serão apenas instrumentos de uma retórica carente de racionalidade. Uma sentença jurídica, que pretenda ser justa, não pode ignorar, assim, os requisitos da inferência válida e correta, seja ela de natureza abdutiva, indutiva ou dedutiva.

Em seu livro, o Prof. Mance apresenta uma análise lógica, bem feita, sobre raciocínios e argumentos utilizados pelo juiz Sérgio Moro no corpo da sentença por ele emitida, relativa ao processo em que o ex-Presidente Lula figura como réu, no caso do apartamento tríplex do Guarujá. O filósofo estuda, detalhadamente, a longa sentença – que pretende provar a culpa do réu e justificar sua condenação – mostrando que o emprego de diversas inferências falaciosas desqualifica as conclusões obtidas.

Nas Considerações Iniciais, o autor, de forma didática, apresenta a definição do conceito de falácia – erro de raciocínio, argumento sem garantia formal de que a conclusão decorre das premissas; e apresenta algumas noções lógicas básicas, como a de condicional e bicondicional, discutindo quando uma condição é necessária, quando é suficiente, e quando é necessária e suficiente. O domínio do significado destas noções, entre outras, é fundamental, para quem pretende derivar corretamente conclusões a partir de hipóteses ou de premissas verdadeiras.

Mance lembra ainda que, quando cometida de forma involuntária, a falácia se classifica como “paralogismo”, mas quando implantada de forma proposital em um raciocínio, visando confundir o interlocutor, é dita um “sofisma”. Os sofistas eram professores e intelectuais itinerantes que frequentavam Atenas e outras cidades gregas na segunda metade do século V a.C., ensinando a arte de influenciar pessoas através da persuasão retórica. A partir daí, há 25 séculos, sofismar tem sido entendido como procurar influenciar cidadãos, na política e em outras áreas, através de persuasão enganosa.

Na sequência, o livro se divide em duas partes. Na primeira parte, são discutidos dez trechos da sentença condenatória, onde o autor encontra, e analisa com propriedade, falácias de vários tipos: Apelo à Crença Comum, Circularidade, Argumentum ad Hominem, Non Sequitur, Apelo à Presciência ou Falácia dos Mundos Possíveis, Apelo à Possibilidade, Equivocação e Inversão do Ônus da Prova.

Na segunda parte, o filósofo aprofunda sua análise sobre as implicações das falácias discutidas e sobre como elas se articulam na argumentação do juiz para justificar a condenação.

Professores universitários e pesquisadores na área de Lógica, decidimos manifestar publicamente nosso apoio e concordância com a análise e conclusões do colega Euclides Mance. Com efeito, estamos convencidos de que Mance demonstra, com perspicácia e competência, que o juiz Sérgio Moro incorreu em inúmeros erros lógicos no conjunto de raciocínios e argumentações, cometeu equívocos em aplicações de regras de inferência lógica, além de ter várias vezes assumido hipóteses e premissas sem critério de veracidade. Em suma, a sentença do juiz nos surpreende e nos assombra, enquanto profissionais, com a série de argumentos inaceitáveis que apresenta.

É na condição de membros da comunidade de uma área do conhecimento em que o Brasil se destaca no cenário acadêmico internacional que acreditamos ser dever nosso, como cidadãos e profissionais, contribuir com a Justiça de nosso país, visando prevenir que quaisquer réus venham a sofrer condenações injustas, baseadas em conclusões de argumentos, cuja fragilidade, fartamente denunciada desde a antiguidade grega, é amplamente conhecida.

(Traduzido pelos autores, o artigo acima está disponível também em espanhol, francês e inglês.)

Abílio Rodrigues Filho
Doutor em Filosofia, UFMG
Professor de Lógica, Departamento de Filosofia, UFMG

Adolfo Gustavo Serra Seca Neto
Doutor em Ciência da Computação, USP
Professor Associado, Departamento Acadêmico de Informática, UTFPR

Alexandre Costa-Leite
Doutor em Filosofia, Université de Neuchâtel, Suíça
Professor Adjunto de Lógica e Filosofia, UnB

Alexandre Noronha
Doutor em Filosofia, UFRGS
Professor Adjunto, Departamento de Filosofia, UFPR

André Leclerc
Doutor em Filosofia, Universidade do Quebec, Canadá
Professor Associado, Departamento de Filosofia, UnB

Andréa Maria Altino de Campos Loparic
Doutora em Lógica e Filosofia da Ciência, Unicamp
Professora Senior, Departamento de Filosofia, FFLCH-USP
Membro fundador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Unicamp

Arley Ramos Moreno
Doutor em Logica e Filosofia da Ciência, Université Aix-en-Provence, França
Professor Titular em Filosofia da Linguagem (Colaborador), Unicamp
Membro do Centro de Lógica, Epistemologia e História de Ciência (CLE), Unicamp

Arthur Ronald de Vallauris Buchsbaum
Doutor em Informática – Área de Lógica, PUC-Rio
Professor Adjunto de Lógica e Matemática Discreta, Departamento de Informática e Estatística, CC-UFSC

Bento Prado de Almeida Ferraz Neto
Doutor em Filosofia, USP
Professor Associado do Departamento de Filosofia, UFSCar

Cezar Mortari
Doutor em Filosofia – Área de Lógica, Eberhard-Karls-Universität, Alemanha
Professor Associado, Núcleo de Epistemologia e Lógica, e Departamento de Filosofia, UFSC
Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL)

Giovanni Queiroz
Doutor em Lógica e Filosofia da Ciência, UNICAMP
Professor Associado, Departamento de Filosofia, UFPB

Gisele Dalva Secco
Doutora em Filosofia, PUC-Rio
Professora Adjunta, Departamento de Filosofia, UFRGS

Hércules de Araujo Feitosa
Doutor em Lógica e Filosofia da Ciência, UNICAMP
Professor Adjunto, Departamento de Matemática, FC-Unesp/Bauru

Iole de Freitas Druck
PhD em Lógica, Universidade de Montreal, Canadá
Professora Senior, Departamento de Matemática, IME-USP

Itala Maria Loffredo D’Ottaviano
Doutora em Matemática, Unicamp
Professora Titular em Lógica e Fundamentos da Matemática (Colaborador), Departamento de Filosofia, IFCH-Unicamp
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL)
Membro fundador e ex-Diretora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Unicamp
Ex-Pró-Reitora de Pós-Graduação da Unicamp

João Vergílio Gallerani Cuter
Doutor em Filosofia, USP
Professor Livre Docente, Departamento de Filosofia, FFLCH-USP

Juliana Bueno-Soler
Doutora em Filosofia – Área de Lógica, UNICAMP
Professora Doutora da Faculdade de Tecnologia, FT-Unicamp
Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL)

Leandro Oliva Suguitani
Doutor em Filosofia – Área de Lógica, Unicamp
Professor Adjunto, Departamento de Matemática, UFBA

Luciano Vicente
Doutor em Filosofia, USP
Professor Adjunto de Lógica e Filosofia Analítica, Departamento de Filosofia, UFJF

Luiz Carlos Pinheiro Dias Pereira
Doutor em Filosofia, Universidade de Estocolmo, Suécia
Professor Titular, Departamento de Filosofia, PUC-Rio
Professor Adjunto, Departamento de Filosofia, UERJ
Membro do Centro de Lógica, Epistemologia e História de Ciência (CLE), Unicamp

Marcelo Esteban Coniglio
Doutor em Matemática, USP
Professor Titular em Lógica e Fundamentos da Matemática, Departamento de Filosofia, IFCH-Unicamp
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL)
Diretor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Unicamp

Marcos Antonio Silva Filho
Doutor em Filosofia, PUCRio
Professor Adjunto, Departamento de Filosofia, UFAL

Matias Francisco Dias
Doutor em Filosofia, USP
Professor Titular (Colaborador), Departamento de Filosofia, UFPB

Raul Ferreira Landin Filho
Doutor em Filosofia, Université Catholique de Louvain, Bélgica
Professor Titular Aposentado, Departamento de Filosofia, UFRJ

Renato Mendes Rocha
Doutor em Filosofia, UFSC
Professor Adjunto, Departamento de Filosofia, UFS

Ricardo Pereira Tassinari
Doutor em Filosofia – Área de Lógica, Unicamp
Professor Livre-Docente em Lógica, Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência, Departamento de Filosofia, Unesp/Marília

Samuel Gomes da Silva
Doutor em Matemática – Área de Teoria de Conjuntos, USP
Professor Associado, Departamento de Matemática, UFBA

Tiago Falkenbach
Doutor em Filosofia, UFRGS
Professor Adjunto de Lógica, Departamento de Filosofia, UFPR

Valéria de Paiva
Doutora em Matemática, Universidade de Cambridge, Inglaterra
Honorary Research Fellow, School of Computer Science, Universidade de Birmingham, Inglaterra

Wagner de Campos Sanz
Doutor em Filosofia – Área de Lógica, Unicamp
Professor Adjunto, Faculdade de Filosofia, UFG

Walter Alexandre Carnielli
Doutor em Matemática, Unicamp
Professor Titular em Lógica e Fundamentos da Matemática, Departamento de Filosofia, IFCH-Unicamp
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL)
Ex-Diretor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), UNICAMP.

Na imagem acima, o juiz federal Sergio Moro, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, em 09/set/2015. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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14 Comentários

  1. Antonio Luiz said:

    “Lula é ladrão. Roubou meu coração”.
    De resto, o que se lê acima trata-se apenas do rosnar de cães mordedores. Bem representativos da tucanagem que vilipendia o País.
    E afinal, Maurício, Lula é culpado pelo quê?

  2. Ad Astra said:

    Quanta coincidência esse lançamento nos próximos dias! Há muitos interesses escusos de todas essas pessoas, tanto do autor como dos que suportam.

  3. Celina Xavier de Mendonça said:

    Não sou filósofa e não entendo NADA do assunto tratado no livro. Mas entendo um pouco de método científico e pergunto: Se o que conta é a análise científica da sentença, por que não fazer a mesma análise científica das alegações da defesa? Caso o autor se disponha a fazer isso, terá aumentada a sua credibilidade, na minha opinião…..

    • Maurício Tuffani said:

      Olá Celina.
      Antes de mais nada, não se trata de filosofia, mas de lógica.
      O que está em questão não é exatamente uma análise científica da sentença, mas uma análise lógica de argumentos – e não todos – usados pelo juiz. Espera-se que um juiz não use falácias lógicas em seus argumentos. (Mas mesmo que a sentença tenha falácias, não significa necessariamente que ela é completamente falaciosa.)
      No caso da defesa, o problema é que vale tudo para defender, e o que colar, colou. Não vale a pena perder tempo. A menos que, na segunda instância, a defesa tente demolir logicamente os argumentos da sentença de primeira instância. Ainda assim, o que vai valer, e merece ser analisado logicamente, é o que os desembargadores decidirão.

      • Déwcio Krause said:

        Mauricio. Quer dizer que em se tratando de defesa, o que colar colou? Isso é ridículo. É assim que o maior ladrão já produzido nessas terras age. Mente compulsoriamente, esperando que suas mentiras “peguem”. Não li o livro, não vou perder tempo com isso. Se Moro cometeu falácias, denunciem. Mas o que importa é que esse crápula que está sendo julgado é sem dúvida alguém que merece ir para a cadeia. Ladrão.

        • Maurício Tuffani said:

          Déwcio Krause, explicar não é justificar, entendeu? Não estou defendendo Lula nem Moro. O assunto aqui é lógica, e não a discussão sobre o réu e o juiz.

          • Déwcio Krause said:

            Mas o seu argumento de que a defesa pode dizer qualquer coisa e “se colar, colou” me parece uma barbaridade. Não pode ser assim. Se ele á inocente, que arragem argumentos que mostrem isso, o que acho difícil. Vamos ver o que sairá disso, se haverá provas válidas, mas para mim está óbvio que ele é culpado. Espero que provem isso.
            Lula mente o tempo todo e, devido à ignorância de nossa gente, em geral o que ele diz “cola”, infelizmente. Eu sou contra ele, os petistas e aliados.

            • Maurício Tuffani said:

              Não é meu argumento, estou dizendo como acontece. Também não concordo com isso. E, por favor, aqui não é lugar de discussão contra ou a favor de Lula ou Moro.

  4. Wesley Conde said:

    Como não li o livro só posso tecer comentários a respeito do autor. É PETISTA ROXO…
    Se é Argumentum ad Hominem que seja. Lerei com dois pés atras…
    A frase final foi: Não acredito que juízes que julgarão Lula em segunda instancia sejam tolos ou ingênuos.
    O direito (mesmo nesta terra) é muito mais que lenga filosófica seja de que matiz ou linha de raciocínio aplicada. Simples assim…
    No mais, temos ainda os embargos infringentes que certamente serão utilizados como recurso jurídico e até “filosófico” se for o caso…
    Deixa correr!

  5. Wesley Conde said:

    Bem, não li o livro o que certamente me torna inelegível para tecer algum comentário. Mas vejamos:
    Devo acreditar que um livro escrito por um filósofo PETISTA de carteirinha não tenha intenções espúrias?
    Todos os demais filósofos de universidades PÚBLICAS? Aquelas que já sabemos são antro de marxistas?
    Meu professor de literatura já dizia em bom e alto tom: “filosofia é terreno escorregadio…”
    Devo crer portanto que os demais juízes de segunda instância são ou ingênuos ou otários…

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