Artigo faz distorção sobre impacto ambiental da produção de carne

Ex-presidente de associação ruralista subestima desmatamentos e emissões de gases-estufa pelo agronegócio


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Alegando que não há setor no agronegócio brasileiro “que sofra maior preconceito e desinformação” do que a pecuária bovina, em seu artigo “Os falsos pecados da carne”, publicado no sábado na Folha, o agrônomo Marcos Sawaya Jank afirmou que “o repertório de mitos e inverdades” contra a atividade “é longo: danos à saúde, aquecimento global, desmatamento, consumo excessivo de água etc”.

Segundo o articulista, que é ex-presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), essas acusações seriam “facilmente refutáveis com visitas a sites especializados e literatura científica”. Jank, no entanto, não mostra as fontes que sustentariam essa afirmação. Exceto pelos danos à saúde, não faltam estudos científicos nem dados oficiais para mostrar o contrário do que ele afirma em seu artigo.

 

Desmatamento

Na Amazônia, por exemplo, de 1988 para 2017 o corte raso da floresta saltou de 9,5% para 19,7%. Ou seja, mais que dobrou em quase 30 anos, alcançando uma área equivalente à metade do estado do Amazonas ou ao triplo da do Reino Unido. Mais de 60% dessa devastação tem sido impulsionada pela pecuária como mostraram vários estudos, especialmente do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Grande parte dessa expansão pecuária tem sido realizado em áreas de desmatamento ilegal. Em março do ano ano passado, durante a operação Carne Fraca, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) desencadeou a operação Carne Fria, autuando 14 frigoríficos no Pará, Bahia e Tocantins, que compraram 58 mil cabeças de gado, produzidas em 26 fazendas com áreas embargadas pelo órgão por  desmatamento ilegal.

 

Emissão de gases

A atividade agropecuária é a principal origem das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, como mostra o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Além de suas emissões diretas (22% do total do país), o agronegócio responde também por praticamente todas a emissões por mudança de uso da terra (51%), totalizando aproximadamente 74% do total nacional.

Nas palavras do próprio SEEG: “Se fosse um país, o agronegócio brasileiro seria o oitavo maior poluidor do planeta, com emissões brutas de 1,6 bilhão de toneladas (acima do Japão, com 1,3 bilhão)”.

Em sua edição desta segunda-feira (22), o ótimo boletim ClimaInfo também desconstruiu a desinformação cometida por Jank, afirmando que  “o setor agropecuário foi responsável por 69% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa em 2015, sendo que, nos anos 90, este percentual chegou a superar 85% do total”. É o que mostra a tabela a seguir, extraída do SEEG.

Fonte: Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), Observatório do Clima

 

Uso de água

Para cada quilograma de carne bovina produzido, são necessários cerca de 15,4 mil litros de água, segundo estudo divulgado pela Unesco em 2010. O volume de água em litros necessário para cada quilograma é menor para carne de ovelha (10,4 mil), porco (6 mil), cabra (5,5 mil) e galinha (4,3 mil).

O artigo de Jank teve como ponto de partida a aprovação, em dezembro, de um projeto de lei para proibir o consumo de carne bovina às segundas-feiras nas escolas e órgãos públicos do Estado de São Paulo. A lei foi vetada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). De acordo com o articulista, essa iniciativa prejudica o Brasil, “país com maior potencial de crescimento na exportação de animais vivos”. E acrescenta:

É fundamental olhar em maior perspectiva o impacto da “segunda sem carne” e da proibição da exportação de gado em pé. O Brasil é líder e referência global na produção de carnes, posicionando-se entre os primeiros exportadores de carne de aves (1º lugar), bovina (2º) e suína (4º), além dos couros, genética e animais vivos. O setor como um todo exportou US$ 18 bilhões em 2017.

 

Desafio de inovar

De minha parte, nada contra o agronegócio – e muito menos contra um bom churrasco. Não há como ser contra essa atividade que nos últimos anos incorporou avanços da inovação tecnológica, proporcionando aumentos crescentes de produtividade e reduzindo a necessidade de expansão para novas áreas da Amazônia e do Cerrado. E também levou o Brasil a uma posição de destaque entre os maiores fornecedores mundiais de diferentes alimentos, colaborando decisivamente para superávits comerciais e para o recuo da inflação em grande parte pela redução dos preços de alimentos.

O problema é que os setores mais avançados do agronegócio parecem ter uma certa dificuldade para “sair do armário” e cobrar de seus colegas o desafio de ampliar a produção sem aumentar a devastação e sem fazer o Brasil perder remanescentes dos mais ricos ecossistemas do planeta. Para isso, o caminho está em ouvir o que diz a ciência e investir em inovação.

Leia também:

“Agro é ‘tech’ e ‘pop’, mas ainda quer avançar sobre o Cerrado”.

Na imagem acima, carne bovina. Foto: Zumalacarregui/Wikimedia Commons.

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3 Comentários

  1. julio cesar pascele palhares said:

    Caro Maurício,
    Agradeço o interesse nos estudos.
    No link pode ser baixado o livro Produção Animal e Recursos Hídricos v.1. Nele há capítulos que tratam do cálculo das pegadas, além de outros relacionados ao tema. Neste ano iremos publicar o volume 2 da obra.
    https://drive.google.com/file/d/13xvQuPsG7B51cLi7fgG5_9NaB2KcUg8l/view
    Abaixo algumas referência de artigos científicos publicados no tema
    1. Palhares, Julio Cesar Pascale; MORELLI, MARCELA ; JUNIOR, CINIRO COSTA . Impact of roughage-concentrate ratio on the water footprints of beef feedlots. AGRICULTURAL SYSTEMS, v. 155, p. 126-135, 2017.
    2. DRASTIG, KATRIN ; Palhares, Julio Cesar Pascale ; KARBACH, KATHARINA ; PROCHNOW, ANNETTE . Farm water productivity in broiler production: case studies in Brazil. Journal of Cleaner Production, v. 135, p. 09-19, 2016.
    Citações:3|3
    3. PASCALE PALHARES, JULIO CESAR; MACEDO PEZZOPANE, JOSE RICARDO . Water footprint accounting and scarcity indicators of conventional and organic dairy production systems. Journal of Cleaner Production, v. 1, p. 1-14, 2015.
    Citações:8|12
    4. PALHARES, J. C. P. Desafios hídricos na produção animal. Agroanalysis (FGV), v. 35, p. 26-27, 2015.
    5. PALHARES, J. C. P.. Pegada hídrica de suínos e o impacto de estratégias nutricionais. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental (Online), v. 18, p. 533-538, 2014.

  2. julio cesar pascele palhares said:

    Caro Maurício e leitores, sou pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste atuando em pesquisas sobre manejo hídrico e ambiental em produções animais. Uma das abordagens que estamos utilizando é o cálculo da pegada hídrica dos produtos de origem animal. Os dados que cita de relação litros de água por quilograma de carne são as médias globais de cálculo de pegada hídrica as quais, muitas vezes, não expressam nossa realidade produtiva, principalmente, para carne bovina, o cálculo global se baseia em sistemas de produção mais confinados, enquanto a maior parte do rebanho brasileiro está em sistema a pasto. Por isso que desde 2009 a Embrapa tem feito trabalhos calculando as pegadas hídricas de suínos, frangos e bovinos de corte e leite, considerando as realidades nacionais. Esses trabalhos estão publicados em periódicos nacionais e internacionais. Mas nosso foco não é gerar o número e sim propor ações, práticas, manejos e tecnologias que tornem a produção de proteína animal hidricamente mais eficiente. Sempre digo, não há como produzir alimento sem água, que façamos isso da forma mais eficiente possível. Julio

    • Maurício Tuffani said:

      Caro Julio,
      Obrigado por sua participação e por suas informações. Por favor, peço que indique aqui mesmo esses estudos. Isso pode render outras pautas para mim e para outros jornalistas.
      Obrigado.

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