Temer bobeou com a agenda do clima em Davos

Na reunião do Fórum Econômico Mundial, presidente mostrou falta de sintonia com sua gestão do meio ambiente


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Na véspera de seu encontro anual em Davos, na Suíça, o relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) afirmou que sete dos oito maiores riscos da economia mundial em 2018 são ligados à mudança do clima. No entanto, e apesar da importância do Brasil no meio ambiente, na reunião o presidente Michel Temer não só tratou o tema de forma superficial, mas também mostrou não estar devidamente sintonizado com sua própria administração.

A participação tímida de Temer no Fórum Econômico Mundial e sem a devida sintonia com o foco ambiental já era previsível. A começar pelo fato de o ministro Sarney Filho (PV), do Meio Ambiente, ter ficado fora de sua comitiva. Dela fizeram parte os ministros Blairo Maggi (PP), da Agricultura, Fernando Coelho Filho (PSB), das Minas e Energia, Henrique Meirelles (PSD), da Fazenda, e Moreira Franco (MDB), da Secretaria Geral da Presidência.

Ninguém esperava que Temer tivesse uma participação de destaque, como a do presidente francês, Emmanuel Macron, que abordou a questão da mudança do clima logo no início de seu discurso e, ao final, foi aplaudido de pé. Nem que repetisse o sucesso que obteve em 2014 a então presidente Dilma Rousseff (PT) – ainda nadando de braçada com a recente redução do desmatamento da Amazônia–, ao apresentar projetos para investimentos no Brasil.

Ontem, perante uma plateia esvaziada a ponto de a organização do evento ter colocado biombos escondendo parte das fileiras vazias, Temer mandou o recado de que seu governo estaria superando a recessão. “O Brasil está de volta”, disse o presidente no início de sua fala.

 

Pecuária ‘esquecida’

Em relação ao meio ambiente, em seu discurso de cerca de 20 minutos, Temer afirmou:

No plano multilateral, o Brasil tem defendido um sistema de comércio baseado em regras e tem prestigiado o papel da Organização Mundial do Comércio, de solução de todas as controvérsias. Como tem também, devo registrar, prestigiado o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima.
Nós depositamos um documento na ONU, fomos o segundo País a fazê-lo, aderindo o acordo de Paris. Aliás, um país como o Brasil, que tem a maior cobertura de floresta tropical do planeta, que possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e que consegue ser uma potência agrícola, utilizando, para lavouras, menos de 9% de seu território. Menos de 9% do seu território.

Já comentei aqui no Direto da Ciência que desde dezembro do ano passado o Ministério da Agricultura tem propagandeado insistentemente o percentual da área ocupada por culturas agrícolas sem informar que a pecuária ocupa cerca de 33% do território brasileiro (“Agro é ‘tech’ e ‘pop’, mas ainda quer avançar sobre o Cerrado”).

No entanto, o que é lamentável nessa fala de Temer é ela revelar a desconexão do chefe do Executivo com informações estratégicas produzidas por sua própria administração. Ainda ontem, quarta-feira (24), no mesmo dia do discurso presidencial, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) anunciou o estudo “Trajetórias de mitigação e instrumentos de políticas públicas para alcance das metas brasileiras no Acordo de Paris”.

Para o Brasil cumprir a meta de reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa até 2025 em relação aos níveis de 2005, o estudo propõe medidas como a ampliação das ações para reduzir o desmatamento, a recuperação de pastagens degradadas, o aproveitamento energético de resíduos sólidos urbanos e outras medidas.

 

Perdendo a chance

Apesar da plateia esvaziada, Temer certamente teria ganhado alguns pontos positivos para sua desgastada imagem e trazido repercussão bem maior para sua presença em Davos se tivesse dito o que afirmou o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTIC, Álvaro Toubes Prata, na apresentação desse estudo. Referindo-se ao compromisso brasileiro com o Acordo de Paris, o secretário da pasta do ministro Gilberto Kassab (PSD) afirmou:

Estabelecemos para 2025 uma meta de redução de mais de um terço da emissão nossa em relação aos níveis de 2005. Não há dúvidas que vamos cumprir essa meta.
(“País cumprirá meta de redução de gases de efeito estufa até 2025, diz secretário”, Luciano Nascimento, Agência Brasil).

Ou seja, outro ministério que poderia ter importância revelante no evento é o MCTIC, comandado por Gilberto Kassab (PSD), que desde segunda-feira (22) está na França cumprindo uma agenda sobre a colaboração com o Brasil em ciência, tecnologia e inovação, com atenção especial às áreas da biotecnologia, meio ambiente, tecnologia da informação e intercâmbio de pesquisadores e estudantes.

No entanto, a comitiva de Temer teve espaço, por exemplo, para o  deputado Beto Mansur (PRB). E, por pouco, dela não fez parte o ministro Ricardo Barros (PP), da Saúde, que, devido ao surto de febre amarela no país, desistiu de viajar para acompanhar o presidente no Fórum Econômico Mundial. A julgar por seu histórico com declarações esdrúxulas, em Davos o ministro correria o risco de se tornar celebridade internacional.

Enquanto isso, no tal relatório divulgado pelo Fórum na segunda-feira, Andrew Steer, presidente do World Resources Institute, e Grant Reid, CEO da multinacional de alimentação de pets Mars Inc., ressaltaram que até 2030 o mundo deverá investir US$ 90 trilhões em infraestrutura e que a forma como serão direcionados esses recursos fará toda a diferença.

Na imagem acima, o presidente Michel Temer no aeroporto de Zurique, na Suíça, onde participou em Davos do Fórum Econômico Mundial. Foto: Beto Barata/PR.

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