Alckmin troca direção da Fundação Florestal pela sexta vez em três anos

Diretores de órgão que administra unidades de conservação de SP têm se desgastado com o governo estadual.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Desde o início de sua atual gestão, em janeiro de 2015, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) está prestes a fazer pela sexta vez a designação do diretor geral da Fundação Florestal (FF), órgão ligado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SMA). O próximo dirigente será Rodrigo Levkovicz, procurador da Assistência de Defesa do Meio Ambiente da Procuradoria Geral do Estado (PGE), que substituirá o sociólogo Walter Tesch, que está no cargo há menos de seis meses, desde 14 de setembro de 2017.

A Fundação Florestal administra a maior parte das unidades de conservação estaduais de São Paulo. São 38 parques estaduais (cerca de 767,8 mil hectares), 17 estações ecológicas (240,5 mil hectares), 30 áreas de proteção ambiental (APAs, que somam 1,5 milhão de hectares), entre outras áreas.

A intenção de mudança no comando da órgão, que já havia sido informada por Tesch a seus colaboradores mais próximos, acabou sendo descoberta por meio do Diário Oficial, que na quinta-feira (8) publicou, entre os itens da pauta do Conselho da PGE, o

Pedido de afastamento do Procurador do Estado Dr. Rodrigo Levkovics, para sem prejuízo dos vencimentos e demais vantagens do cargo, exercer a função de Diretor Executivo da Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo, até 31-12-2018.

 

Troca-troca

Apesar de terem mandato de quatro anos, os recentes diretores executivos da fundação têm durado pouco tempo na função. Na atual gestão, foram designados para o cargo por Alckmin:

  1. Lídia Helena Ferreira da Costa Passos, promotora de Justiça do MP estadual (designada em 19/jan/2015);
  2. Luís Fernando Rocha, promotor de Justiça do MP estadual (23/jun/2015);
  3. Paulo Santos de Almeida, professor de Direito da USP Leste (17/mar/2016);
  4. Eduardo Soares de Camargo, economista, ex-diretor-executivo da Sociedade Rural Brasileira (19/out/2016); e
  5. Walter Tesch, sociólogo com atuação nas áreas de cooperativismo e de recursos hídricos (14/set/2017).

Vale observar que Luis Fernando Rocha deixou o cargo imediatamente a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal que, em março de 2016, proibiu o exercício em cargos e funções no Poder Executivo por parte de membros do Ministério Público e da magistratura.

 

O que diz a SMA

Questionada na tarde de sexta-feira (9) sobre o motivo da troca de comando da fundação, a SMA não havia respondido até o fechamento desta reportagem às 18h02 desta segunda-feira. Às 18h24, a assessoria de imprensa do órgão enviou a nota transcrita a seguir.

De fato, está em andamento o processo de substituição na direção executiva da Fundação Florestal motivado pela necessidade de reforçar a Operação Defesa das Águas, criada em 2007 para proteger, controlar e recuperar as áreas de interesse público, ambientais e de mananciais.
A decisão foi tomada em comum acordo com o atual diretor executivo Walter Tesch, que acumula conhecimento e experiência na identificação de regiões vulneráveis para implementar medidas de controle de ocupação e expansão irregular. Ele foi subprefeito de Parelheiros, região que fica em área de manancial.
A substituição de Tesch por Rodrigo Levkovicz está em processo interno que aguarda aprovação pelo Conselho Curador da Fundação Florestal. Posteriormente, o nome de Levkovicz será submetido ao Governador Geraldo Alckmin para aprovação.

 

Sucateamento

No entanto, Direto da Ciência apurou que a gestão de Tesch rapidamente se desgastou na relação com a cúpula da pasta, que desde o final de agosto está sob o comando de Maurício Brusadin (PP).

Na avaliação de técnicos da FF, a insatisfação do governo com Tesch é uma situação que atingiu também seus antecessores, e que seria devida a dificuldades administrativas e técnicas do órgão. Essas dificuldades seriam resultantes, principalmente, da falta de renovação de quadros, desde o primeiro mandato de Alckmin (2003-2006). “Não estão conseguindo administrar as unidades de conservação porque a sucatearam a instituição”, disse um técnico da FF.

A essas dificuldades se acrescentaram também as atribuições crescentes de responsabilidades sobre unidades que eram geridas pelo Instituto Florestal, que tiveram início a partir da administração de José Serra (2007-2010) e continuaram novamente com Alckmin (2011-2014 e desde 2015). (Ver “Governo de SP tem decreto pronto para mudar gestão de 14 áreas florestais”, de 13/abr/2017).

A insatisfação administrativa do governo na área ambiental extrapola o âmbito da Fundação Florestal. Desde o início da atual gestão de Alckmin, houve também três nomeações de secretários: a advogada e professora de direito ambiental Patrícia Iglecias (1º/jan/2015), o advogado e fundador do Movimento Endireita Brasil, Ricardo Salles (16/jul/2016), e o economista Maurício Brusadin, mestre em engenharia urbana e especialista em marketing político e redes sociais (30/ago/2017).

 

Uso político-partidário

Criada em 1986, a Fundação Florestal possui 512 cargos, dos quais 105 (20,5%) são comissionados, inclusive todas as 51 chefias de unidades de conservação, estão todos preenchidos. Dos 407 cargos permanentes, 113 estão vagos, segundo o Portal da Transparência Estadual.

A instituição vem sendo acusada há alguns anos de fazer uso político-partidário de seus cargos comissionados, como mostraram as reportagens “Ambientalistas veem aparelhamento político em UCs de São Paulo”, de O Estado de S. Paulo (26/ago/2013), e “Grupo é alvo de sindicância após criticar ex-secretário de Alckmin” (15/out/2015), da Folha de S.Paulo.

Recentemente, nomeações de políticos voltaram a ser notícia durante a gestão do secretário Ricardo Salles (PP), que antecedeu Brusadin de julho de 2016 a agosto de 2017, como mostraram as reportagens “Novo gerente de 18 parques de SP é político e esteve em reunião para venda de florestas”, (11/mai/2017) e “Condenado por crime ambiental, político do PP vira chefe de estação ecológica em SP”,(20/abr/2017).

Direto da Ciência tentou desde sexta-feira conversar com Tesch. Na tarde desta segunda-feira ele esteve na sede da Fundação Florestal, mas não atendeu às ligações telefônicas da reportagem.

Na imagem acima, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o secretário estadual do Meio Ambiente, Maurício Brusadin (PP). Foto: Diogo Moreira/A2img.

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3 Comentários

  1. Hulk said:

    Em compensação, o delegado Olavo Reino reinou durante quatro anos numa boa na gestão 2011-2014 do Alckimin. Isso quer dizer que o governo não ficou insatisfeito durante esse período todo de truculência e arbitrariedade da Diretoria Executiva da Fundação Florestal.

  2. anonimo said:

    A culpa não é só de Alckmin e Serra, é também de muitos funcionários bem situados na FF que diante das investidas desses governantes e seus secretários sempre sempre tiveram uma concordância digna de um rebanho bovino, deixando a FF rumo ao matadouro.

  3. Homem Invisível said:

    Os governos tucanos de Alckmin e Serra transformaram a Fundação Florestal na Ficção Florestal.

Comentários encerrados.

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