Cientistas alertam: nova estação brasileira na Antártida corre risco de ficar vazia

Base custará US$ 100 milhões, mas pesquisadores podem ser dispensados do programa a partir de maio por falta de recursos.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Por falta de recursos, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) poderá ser paralisado a partir de julho deste ano. E também poderá não sobreviver em 2019, justamente quando deverá estar concluída a Estação Comandante Ferraz, que ao custo de US$ 100 milhões (cerca de R$ 330 milhões) está sendo reconstruída, ampliada e modernizada após o incêndio que a destruiu em 2012.

A advertência foi feita por 18 cientistas líderes de grupos de pesquisas do Proantar em carta entregue no dia 13 ao ministro Gilberto Kassab (PSD-SP), da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e ao comandante da Marinha do Brasil, almirante-de-esquadra Eduardo Barcellar Leal Ferreira.

O documento afirma que o edital mais recente de apoio à pesquisa antártica foi lançado pelo governo em 2013 e que não há nenhum previsto para 2018, com a agravante de que nenhuma instituição científica do país tem recurso para a ida de pesquisadores ao continente gelado no verão de 2018 a 2019. “A persistir essa situação, corremos o risco, inusitado, de termos uma estação antártica (de custo multimilionário) sem cientistas e sem projetos de pesquisa”, acrescenta a carta dos cientistas.

 

Sem editais desde 2014

No edital de 2013 foram aprovados 19 projetos com recursos de cerca de R$ 14 milhões para três anos. Em 2014, somente um desses projetos foi renovado, o dos módulos Criosfera, que são laboratórios científicos para atuar a regiões de altíssimas latitudes, próximas ao Pólo Sul.

“Não existem recursos financeiros para a manutenção do módulo Criosfera 1 e instalação do módulo Criosfera 2”, afirmou em uma análise anexada à carta o glaciologista Jefferson Cardia Simões, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e vice-presidente do Comitê Científico para Pesquisas Antárticas (Scar), órgão que assessora o Tratado da Antártida.

O Brasil aderiu ao Tratado da Antártida em 1975. Em 1982, com a criação do Proantar, foi realizada a primeira missão brasileira ao continente.

Em nota à imprensa divulgada nesta sexta-feira (23), Simões e outros pesquisadores afirmaram:

O mais estranho desta situação é que a presença de nossos pesquisadores na Antártica é um dos pilares das ações do PROANTAR, pois o artigo IX do Tratado Antártico, regime jurídico para aquela região do planeta, exige que as partes contratantes desenvolvam “substancial atividade de pesquisa científica” para que mantenham o direito de voto dentro nas decisões sobre o futuro daquela região (toda a área ao sul do paralelo 60°S, aproximadamente 34 milhões de quilômetros quadrados).

 

Recursos adicionais

Questionado por Direto da Ciência, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) respondeu por meio de nota de sua assessoria de imprensa que apesar das dificuldades decorrentes da reorganização fiscal promovida pelo governo a pasta tem atuado junto à equipe econômica para maior disponibilização de recursos.

De acordo com a nota, na terça-feira (20), “o Conselho Diretor do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologio, em reunião, aprovou recursos adicionais para o Proantar no valor de R$ 7 milhões para os próximos três anos”. E acrescentou que uma das prioridades do MCTIC é lançar uma chamada para dar continuidade aos projetos apoiados pelo Proantar.

O ministério afirmou ainda que liberou cerca de R$ 4 milhões para obras e aquisição de material para pesquisas na Antártica no Navio Polar Almirante Maximiano e no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel. E que em 2017 o MCTIC e o CNPq destinaram R$ 1,5 milhão para continuidade de pesquisas científicas na região antártica.

A nota do MCTIC acrescentou:

Vale ressaltar ainda a consideração do Ministério pela ciência antártica e a eficiente e comprometida condução pela comunidade acadêmica envolvida no Programa. São anos em que, apesar das restrições fiscais, o Proantar tem se mantido ininterrupto.

 

Risco permanece

Em entrevista por telefone, o glaciologista Jefferson Cardia Simões afirmou que os R$ 7 milhões liberados para três anos informados pelo MCTIC não são suficientes para cobrir atividades que foram dimensionadas e custeadas com esse mesmo valor para o período de um ano no edital de 2014. Sem aportes adicionais, o risco de esvaziamento da pesquisa do Proantar é real e iminente, segundo o professor da UFRGS e vice-presidente do Scar. “Casa vazia não faz ciência”, acrescentou.

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Na imagem acima, ilustração do projeto da nova Estação Comandante Ferraz, na Antártida, comportará 64 pessoas em uma área de aproximadamente 4.500 m². Imagem: Marinha do Brasil/Divulgação.

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