Ricardo Bonalume Neto, irreverência e genialidade no jornalismo de ciência

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Ele era irreverente e brilhante. Associada ao bom humor, essa combinação tornava o jornalista Ricardo Bonalume Neto um conquistador infalível da admiração de praticamente todos assim que o conheciam.

Era o início de 1989. Na Editoria de Educação e Ciência da Folha, em horário de almoço, estávamos apenas eu e Bona, como o chamávamos. O telefone toca e ele atende à ligação. Era o “dono” de alguma universidade querendo saber se o jornal iria publicar a lista de aprovados em seu vestibular.

“Não sou eu quem decide, mas certamente isso não acontecerá”, responde Bonalume. Passam alguns segundos, durante os quais até os ladrilhos das paredes percebiam que o interlocutor perguntava por que o repórter havia dito aquilo.

“Grandes jornais, como a Folha, só publicam listas de aprovados em vestibulares das universidades mais importantes, e a sua é uma das piores”, respondeu impavidamente o jornalista. Passam mais alguns segundos com ele ouvindo o telefone enquanto eu e jornalistas da vizinha Editoria de Esportes sufocávamos nossas risadas.

“Pois não! Se o senhor quiser reclamar com ele, seu nome [do diretor de Redação] é Otavio Frias Filho. Por gentileza, aguarde na linha enquanto procuro o número de telefone direto dele para o senhor”, acrescenta Bonalume.

 

Humor implacável

Bona era assim, irreverente o tempo todo e perante todos. Era implacável em suas opiniões, como o personagem Sheldon Cooper, da série “The Big Bang Theory”, mas sem sua frieza. E sempre com um bom humor temperado com uma ironia genial.

Essa irreverência, já destacada ontem por nosso colega e amigo comum Álvaro Pereira Júnior em seu artigo “Bonalume caçoava dos chefes e caprichava no texto”, era permanente, inclusive em seus contatos com as fontes. Ele apontava contradições e muitas vezes até mesmo aspectos constrangedores. E sabia fazê-lo sempre com impessoalidade, sem ultrapassar o plano dos fatos e sem perder o respeito pelos entrevistados.

Também fui um dos chefes debochados por ele. Felizmente, eu sempre soube me divertir com seus deboches e até mesmo deles tirar proveito para tornar o trabalho mais divertido. Aliás, em uma noite no Bar da Empanadas, na Vila Madalena, em meio a cervejas e vodkas chegamos juntos à conclusão-piada de que “o jornalismo pode ser estressante, desgastante e absorvente, mas é melhor fazer isso do que trabalhar”. Por essas e outras cumplicidades, ganhei dele o apelido Too Funny, trocadilho com meu sobrenome.

Antes que perguntem até onde ia sua irreverência: ela não era seletiva, nem subordinada a conveniências ou limitada a zonas de conforto. E nisso se destacava sua integridade, como mostra o seguinte depoimento do jornalista José Roberto de Toledo, em seu perfil no Facebook, comentando o que presenciou nas suas primeiras semanas como repórter de Educação e Ciência da Folha.

(…) o astro da editoria estava fora. Ricardo Bonalume Neto acompanhava uma travessia oceânica. Quando finalmente voltou, esperava saciar minha curiosidade e alimentar minha admiração trabalhando a seu lado. Mas a primeira e única frase que ouvi de meu mais novo colega de bancada foi: “Como se escreve uma carta de demissão?” Ante meu silêncio atônito, batucou nas pretinhas um sucinto e objetivo “Eu me demito”. Arrancou a lauda da máquina que subsistia oculta sob a mesa de metal, assinou e saiu.
Algum burocrata de Redação havia mandado o melhor repórter de ciência de sua geração fazer uma “Operação Portugal” sobre educação – Segundo Grau em exame, se as sinapses não me falham. “Operação Portugal”, OP para os íntimos, era o jargão interno para pautas vindas do nono andar, isto é, do seu Frias, ou, mais raramente, de OFF (Otavio Frias Filho). Pois Bonalume, cultivando a fama que só faria crescer nas décadas seguintes, simplesmente se recusara a fazer a OP – algo impensável em uma Redação hierarquizada e temerosa como aquela dos primeiros anos de implantação do Projeto Folha. Perplexa, a burocracia fez chegar o “Eu me demito” às mãos de quem de fato mandava. O insubordinado era valioso demais para ser dispensado. Foi exilado em Turismo – formalmente, como punição, embora, desconfiássemos, fosse um prêmio.

Em poucos meses, Bona, para sorte dos leitores, voltou à Ciência.

 

Ciência, história e assuntos militares

Além de aficionado pela ciência, Bona era também estudioso da história e de assuntos militares. Uma vez, questionado em uma palestra para estudantes, disse o que considerava imprescindível para ser um bom jornalista especializado: gostar muito do que faz e sempre se dedicar a estudar. Não é por outra razão que ele foi o jornalista de ciência com quem mais troquei livros durante algumas décadas.

Bona tinha um ar de de indiferente a tudo à sua volta, mas era gentil, generoso e se preocupava com as pessoas. Fazia uma cara de bravo, mas era sempre bem-humorado.

Era muito compenetrado, rigoroso e sério no que fazia, mas também sabia não se levar a sério demais. “Soletrava” seu sobrenome dizendo “Bona de Bonaparte e lume de vagalume”.

Apesar de minha experiência com biografias em formato jornalístico, tive muita dificuldade para escrever este depoimento sobre Bona. Não apenas pelo impacto de sua morte, mas sobretudo pelas reflexões e lembranças em que mergulhei a partir dessa notícia, que me fizeram perceber que, apesar de nossas diferenças de pensamento, a influência profissional dele sobre mim foi muito maior que eu imaginava. Em muitos momentos a torrente de lembranças inibiu a escrita.

 

05/09/1960 – 24/03/2018

Na sua opinião, o cético e ateu Bona partiu desta para lugar nenhum na madrugada de sábado (24), em São Paulo, durante uma cirurgia após meses de complicações decorrentes de fraturas nos dois ombros em um acidente. Nascido em 5 de setembro de 1960, ele estava com 57 anos. Deixa a mulher, Anita, os enteados Paulo e Beatriz, a cachorra Lana e mais de 6.000 livros.

Além dos depoimentos de Álvaro Pereira Júnior e de José Roberto de Toledo, indicados acima, recomendo também a leitura dos seguintes textos de outros colegas e amigos comuns:

E recomendo também a coletânea

Perdemos um amigo genial, generoso, inspirador e gentil, que ainda em vida já era um personagem mítico, daqueles sobre os quais há muitas histórias e até mesmo muitas lendas. Todas elas marcadas pelo bom humor, pelo brilhantismo e pela irreverência.

Foi um privilégio, uma honra e um enorme prazer ter sido seu colega e amigo.

Na imagem acima, o jornalista Ricardo Bonalume Neto (1960-2018) em sua biblioteca. Em seu perfil no Facebook ele colocou na foto a seguinte legenda en 15/jan/2011: “Podem chamar de gay. O velho Bona usa uma autêntica camiseta de marinheiro russo, também adotada pelas forças especiais e fuzileiros navais dos caras.”

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Um comentários;

  1. Roberto Berlinck said:

    Caro Too Funny,

    Uma tristeza. Eu sempre gostei dos textos dele, tão eruditos que me faziam pensar ser mais velho do que ele era.

    A perda não só de um colega, amigo e excelente profissional como todos os textos da Folha indicaram, mas também para a divulgação da ciência, tão carente de bons profissionais, especialistas e amadores dedicados. Ricardo certamente foi um exemplo.

    Abraço,
    Roberto

Comentários encerrados.

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