Revisão corrige de 16% para 12% queda de desmate na Amazônia no 1º ano de Temer

Consolidação de dados mostra que corte raso na floresta de 2016 a 2017 foi maior do que indicava estimativa comemorada há 7 meses

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Após dois anos seguidos de aumento na taxa anual de desmatamento na Amazônia, o governo do presidente Michel Temer (MDB) comemorou em outubro do ano passado a estimativa de redução de 16% de agosto de 2016 a julho de 2017 em relação ao período anterior. Agora, a revisão desses dados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) constatou que essa redução foi, na verdade, de 12% (“Inpe registra 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017”).

Não há dúvida que a redução do desmatamento, por menor que seja, é melhor do que o aumento, que foi de 24% em 2014-2015 e de 28% em 2015-2016. No entanto, como bem disse em seu blog o geógrafo Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), não dá para “dourar a pílula” com esse índice mais recente, comparando-o com os números da década passada, quando o alcance da devastação era muito maior (“Inpe e suas ‘boas’ notícias sobre o avanço do desmatamento na Amazônia”).

Na verdade, o dado corrigido de 6.424 km2 para 6.947 km2 é 52% maior que os 4.571 de 2011-2012, quando o governo de Dilma Rousseff (PT) comemorou a menor taxa anual de desmatamento registrada desde o início do monitoramento em 1988. Deveríamos, portanto, estar comparando desempenhos com patamares mais recentes. O quadro a seguir mostra como é inadequada essa comparação. (Clique na imagem para ampliá-la em outra aba ou janela).

 

Devastação total é maior

Além de ser ainda uma extensão muito grande e inaceitável, é um indicador que refere apenas ao corte raso.  Ou seja, as taxas calculadas anualmente desde 1988 pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes) não contabilizam a devastação sem a supressão total da floresta.

Esses números não consideram áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente, que são monitoradas por outro projeto do Inpe, o Mapeamento da Degradação Florestal da Amazônia Brasileira (Degrad). A extensão dessas áreas degradadas sem corte raso é muito variável devido à influência das oscilações das condições climáticas. Nos anos mais secos, essa degradação tende a ser maior.

O monitoramento pelo Degrad começou a ser  realizado em 2007. Seus dados mais recentes apontaram que em 2011 essa devastação chegou a 24.650 km2, uma área aproximadamente equivalente a 10% do Estado de São Paulo. Esse estrago diminuiu para 8.634 km2 em 2012 e para 5.434 km2 em 2013. Já faz alguns anos que o Inpe está nos devendo uma atualização desse monitoramento.

 

O acumulado desconsiderado

Em outubro do ano passado, quando o governo Temer comemorou a redução da taxa anual, eu comentei que fazia quase 30 anos que o governo tem divulgado as taxas anuais de desmatamento da Floresta Amazônica, mas sem contabilizar o tamanho do estrago total acumulado. E que ao longo dessas três décadas de anúncios do sobe-e-desce anual desses números, praticamente ninguém se deu conta do desmatamento acumulado (“Números do governo ofuscam ‘bola de neve’ da devastação da Amazônia”).

Com a consolidação feita agora da taxa de 2016-2017, a supressão total da parte brasileira da Floresta Amazônica alcançou 785.272 km2, uma extensão maior que metade da área do estado do Amazonas ou que do triplo do estado de São Paulo.

O quadro acima indica também que em 2013 já havia sido ultrapassado o dobro do corte raso da floresta alcançado em 1988, que após algumas correções foi estabelecido em 377.600 km2. Isso significa que naquele quase final da década de 1980 já estavam suprimidos cerca de 9,5% dos 3,99 milhões de quilômetros quadrados do domínio original do bioma Floresta Amazônica. Hoje o estrago chegou a 19,7%.

Aproveito também para atualizar, com essa consolidação, outro quadro que apresentei no artigo de outubro do ano passado. A nova versão, a seguir, mostra não só todas as taxas anuais, mas também os totais acumulados a cada ano e ofuscados por todo esse amontoado de números propalados pelos meios de comunicação.

Na imagem acima, toras encontradas em pela fiscalização em Mato Grosso em novembro de 2016. Foto: Rose Domingues/Sema-MT.

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