Mais um sequestro no campus da UFRJ, desta vez com um casal de professores

Medo de assaltos e outros crimes é preocupação permanente de docentes, funcionários e alunos da universidade 

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O perigo com assaltos e outros crimes é um problema de várias universidades brasileiras, agravado cada vez mais pela falta de recursos para vigilância e segurança. Constatar pessoalmente, no final de abril, o clima de terror vivido pela comunidade do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Ilha do Fundão.

São espantosamente comuns os relatos sobre sequestros-relâmpagos naquele campus universitário e a preocupação permanente das pessoas com o medo de serem vítimas dessa modalidade criminosa. Em que pese a gravidade da situação da segurança pública em todo o estado, é grande a indignação da comunidade universitária com a Reitoria devido à falta de vigilância e de equipamentos como câmeras para segurança.

Na sexta-feira (18) houve mais um sequestro, dessa vez com um casal de professores, Mauro Sola-Penna e Patrícia Zancan, ambos da Faculdade de Farmácia.

Capturado por três assaltantes às 11h, o casal foi obrigado a revelar seus dados bancários e tiveram roubados seus computadores, celulares, documentos e demais pertences. Além disso, os dois docentes foram mantidos reféns encapuzados no banco traseiro de um carro, com uma arma apontada eles. O casal relata que ambos foram liberados às 22h, sem dinheiro ou celular, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.

Em contato por telefone com Sola-Penna, obtive do pesquisador a informação de que além da falta de vigilância e de equipamentos de segurança no campus, vários dos laboratórios da universidade não contam mais com telefone desde que a instituição procedeu a uma reestruturação de seu sistema de telefonia.

 

Mensagem aos colegas

Leia a seguir a transcrição da mensagem enviada por Patricia Zancan e Mauro Sola-Penna a seus colgas na UFRJ.

Queridos colegas,

Gostaríamos de fazer um relato e um desabafo.

Fomos sequestrados sexta-feira as 11h no retorno da Av. Carlos Chagas Filho, próximo à Bio Rio. Fomos abordados por 3 indivíduos armados que nos jogaram num carro e nos encapuzaram e levaram nosso carro. Fomos obrigados a fornecer todos os nossos dados bancários e perdemos nossos computadores, celulares, documentos e demais pertences.

A perversidade da ação foi tal que fomos mantidos reféns por 9h (nove horas!) encapuzados, no banco traseiro de um carro com uma arma apontada para nós.

Neste dia, tínhamos muitos experimentos em curso nos laboratórios. Então, nos programamos para pegar nosso filho de 7 anos na escola as 14h e levá-lo para o lab para que pudéssemos fazer tudo o que precisávamos.

Só que estávamos no cativeiro neste horário!

A escola tentou nos contactar por celular, não os tínhamos! Por telefone fixo, não temos telefone fixo nos laboratórios! Dispensamos o transporte escolar e nossa funcionária de casa mais cedo devido nossa mudança de planos de ficar com nosso filho conosco no Fundão. Resultado: a escola tentou por 3h nos contactar e, então, decidiu entrar em contato com nossa família. Nosso filho saiu da escola as 18h, 4h de espera por alguém para ir buscá-lo.

Fomos libertados as 22h em Belford Roxo sem dinheiro ou celular. Nesse tempo, não tínhamos ideia do que teria sido feito de nosso filho.

Por sorte, conseguimos a ajuda de alguém que nos emprestou o celular para saber o paradeiro do Luigi e nos levou até um ponto de taxi.

Encontramos nossa família as 24h, desesperados. Nos procuraram em hospitais, IML e, junto com nossos alunos dos laboratórios, foram à polícia, delegacia e etc.

Resumindo, estamos todos profundamente abalados e com sequelas psicológicas que não sabemos quando serão cicatrizadas.

Estamos nos perguntando o que está acontecendo? Todos sabemos que estes assaltos no Fundão são diários. Cadê a ação da Reitoria? Da Prefeitura Universidade? Cadê a gestão e atenção com os funcionários desta casa que tanto se esforçam para fazer da UFRJ uma universidade de excelência? Quantos mais terão que passar por esse trauma desumano?

Ouvir dos bandidos que nossa patrulha de vigilância é inútil e que mais 2 “equipes” estavam no Fundão para fazer a mesma abordagem em outras vítimas é vergonhoso! E assustador!

Nós somente gostaríamos de poder fazer o nosso trabalho! Aquilo que amamos! Mas precisamos estar protegidos na hora de chegar e sair! E durante nosso dia também nos nossos prédios! É pedir muito um telefone fixo? Câmeras funcionando para monitoramento? 2-3 carros de vigilantes para coibir estas ações????

Honestamente, não conseguimos imaginar como continuar desta maneira.

Fazemos também nossa mea culpa, pois quando ouvimos outros relatos de tragédias similares, comentamos entre nós e com colegas, mandamos mensagens de solidariedade… mas acreditem, isso não basta! Agora, podemos dizer que é preciso cessar com isso! A mudança é urgente!!! É preciso cobrar uma solução para esse absurdo diário!

Queremos dignidade!
Temos esse direito!

Patricia Zancan e Mauro Sola-Penna

 

A Reitoria e a polícia

Tentei contato com a UFRJ por meio dos números de telefones indicados na página da Comunicação Institucional do portal da universidade. Ninguém atendeu, nem havia mensagem gravada sobre algum evento contato para plantão. Diferentemente de outras universidades, não há na página da Comunicação Institucional da UFRJ indicação de nenhum número de telefone de plantão.

Também não há indicação de telefone para plantão no site da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Rio de Janeiro (Seseg). Pedi por e-mail uma posição da Reitoria da universidade e também questionei a Seseg sobre ações para combater esses crimes no campus.  Esta página será atualizada com as respostas se elas forem enviadas.

 

Reitoria responde

Por meio de nota de sua assessoria de imprensa às 18h20 deste domingo, a Reitoria afirmou que a Prefeitura da UFRJ está acompanhando o caso junto à 37ª DP. E disse também lamentar que tenha de registrar, mais uma vez, um crime desse tipo na Cidade Universitária.

A nota acrescentou que no mês passado a Reitoria teve reunião com o subscretário de assuntos estratégicos da Secretaria de Segurança do Rio, Roberto Alzir, e pediu atenção ao aumento do número de sequestros relâmpagos no campus, e que o secretário se comprometeu a reforçar o policiamento nas vias. Na UFRJ, a segurança das áreas externas é de responsabilidade da Polícia Militar.

A Reitoria afirmou ainda que

como medida para reforçar o patrulhamento no campus, a UFRJ vai aderir ao Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis), aumentando qualitativamente o número de viaturas na Cidade Universitária. O contrato será pago pela Petrobras, uma das empresas instaladas no campus, e já está em vias de implementação. Acreditamos que a medida será um reforço importante para coibir esse tipo de crime na universidade.

 

Resposta da Polícia Civil

Somente nesta segunda-feira houve resposta no âmbito da Seseg. Por meio de sua assessoria de imprensa, às 11h05 a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro mandou a mensagem transcrita a seguir

O registro foi feito na 15 DP (Gávea), que já ouviu as vítimas na unidade policial. O caso foi encaminhado para a 37 DP (Ilha do Governador), responsável pela área onde ocorreu o fato, que vai dar andamento às investigações.

 

Resposta da Polícia Militar

Por sua vez, às 16h07 desta segunda-feira, por meio de sua assessoria de imprensa, a Polícia Militar enviou a seguinte resposta.

Segundo o comando do 17ºBPM (Ilha do Governador), o policiamento na Cidade Universitária foi readequado e uma viatura passou a realizar ponto de baseamento na Avenida Horácio de Macedo, altura do Centro de Tecnologia, nos horários de maior circulação e fluxo de transeuntes.

A Ilha do Fundão conta com patrulhamento feito por rondas em viaturas além de baseamentos em determinados pontos para coibir ações criminosas na área. Cabe ressaltar ainda que estas equipes policiais que trabalham no campus também são empenhadas no atendimento ao cidadão pela Central 190.

O 17ºBPM mantém contato com a Prefeitura Universitária e a Divisão de Segurança da UFRJ para troca de informações que possam auxiliar na atuação dos policiais militares. A Polícia Militar solicita que denúncias sejam feitas através do 190 ou do Disque Denúncia (2253-1177).

Na imagem acima, fachada do prédio da Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foto: Diogo Vasconcellos/CoordCOM/UFRJ/Divulgação.

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6 Comentários

  1. Antonio Hohn said:

    A manchete, banalizando a importância do ocorrido, só reforça a dimensão do descaso com a integridade física e psicológica de quem luta pela existência da UFRJ. Sem professores e alunos, não há porquê se gastar bilhões com está instituição que é uma das maiores detentoras de espaços públicos na cidade do Rio de Janeiro.

  2. Cristiana Passinato said:

    Resposta que não resolve em nada a situação, mas foi o que o whatsapp da Prefeitura me passou ao tomar ciência da comunicação feita pelos professores:
    [12:27, 20/5/2018] Prefeitura UFRJ NOVO: Resposta da assessoria de comunicação:
    [12:28, 20/5/2018] Prefeitura UFRJ NOVO: Pergunte se foi feito o boletim de ocorrência e em qual delegacia foi feito. Caso não tenha feito, oriente para que faça na delegacia online ou na Diseg para que a ação dos criminosos entre para a mancha criminal da 17 Área integrada de segurança pública do Rio de Janeiro, que abrange a Ilha do Governador e a Ilha do Fundão. A reitoria e a Prefeitura da UFRJ se reuniram com o subsecretário de Segurança pública do Rio de Janeiro, Roberto Alzir, no início de abril para solicitar o aumento do efetivo do 17 batalhão da polícia militar para o patrulhamento da cidade universitária.

  3. Doris Rosenthal said:

    Só para constar: mandei esta mensagem para nosso correio institucional.

    “Caros Patrícia, Mauro, Sônia e todos os que passaram por trauma igual,
    Eu também fui sequestrada, juntamente com Valéria que estava no meu carro, há muitos anos. Não é novidade!
    Também não é novidade que a cada relato de acontecimento semelhante, o mesmo sentimento de impotência, raiva, pena da(s) vítima(s) da vez me atinja.
    Na época ao fazer o relato na polícia fiquei com pena dos policiais: a maquina de escrever era pre-histórica, O carro estava no conserto, mas também não tinham gasolina. Eram dois policiais na delegacia! não havia outros de serviço.
    Não creio que muito tenha mudado de lá para cá!
    Será que alguém responsável se sensibilizará algum dia? e fará algo realmente eficiente para melhorar as condições em que trabalhamos?
    Meus sentimento de solidariedade,
    Doris”
    —————————————————————-
    Doris Rosenthal M.D., D.Sc.
    Laboratório de Fisiologia Endocrina
    Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ

  4. Paulo said:

    O que acontece nas Universidades, como também ocorre aqui próximo de casa, na UNICAMP é que a vigilância particular contratada pela Reitoria tem outro treinamento (vigilância de bancos, empresas, etc..) e não o treinamento para vigilância e ações em Universidades Oficiais que contam com poucos, mas muito nocivos meliantes de alto nível intelectual que acobertam ou coordenam a bandidagem especializada.
    Nas universidades estaduais paulistas a Policia militar e a policia civil não são chamadas em nome da “autonomia universitária”, parece-me até com Lei impedindo a ação das mesmas polícias que contam , estas sim com pessoal preparado para combater crimes especializados.
    Até onde sei, a ESALQ /USP onde estudei e ainda compareço lá para algumas palestras e cursos, possui uma segurança razoável. Sugere-se que os Responsáveis pela Segurança da UFRJ consultem informalmente os Responsáveis pela segurança na ESALQ/USP. A minha sugestão é que seja estabelecido contacto do Reitor da UFRJ com o Reitor da USP, ou do Diretor da Farmácia/UFRJ com o Diretor da ESALQ. .
    Torna-se necessário à médio prazo que se mude a Lei atual para permitir que as polícias estaduais (militar e civil) e até a municipal tenham a autonomia e competência para agir,
    Boa sorte a todos!
    Paulo Trani

    • Antonio Hohn said:

      Na UFRJ, quem cuida da segurança dos indivíduos é a PM. Os seguranças da empresa privada somente protegem o patrimônio (a polícia federal que tem escritório no CCS, também só protege o patrimônio).

  5. Paulo said:

    O que acontece nas Universidades, como também ocorre aqui próximo de casa, na UNICAMP é que a vigilância particular contratada pela Reitoria tem outro treinamento (vigilância de bancos, empresas, etc..) e não o treinamento para vigilância e ações em Universidades Oficiais que contam com poucos, mas muito nocivos meliantes de alto nível intelectual que acobertam ou coordenam a bandidagem especializada.
    Nas universidades estaduais paulistas a Policia militar e a policia civil não são chamadas em nome da “autonomia universitária”, parece-me até com Lei impedindo a ação das mesmas polícias que contam , estas sim com pessoal preparado para combater crimes especializados.
    Até onde sei, a ESALQ /USP onde estudei e ainda compareço lá para algumas palestras e cursos, possui uma segurança razoável. Sugere-se que os Responsáveis pela Segurança da UFRJ consultem informalmente os Responsáveis pela segurança na ESALQ/USP. A minha sugestão é que seja estabelecido contacto do Reitor da UFRJ com o Reitor da USP, ou do Diretor da Farmácia/UFRJ com o Diretor da ESALQ. .
    Ainda, torna-se necessário à médio prazo que se mude a Lei atual para permitir que as polícias estaduais (militar e civil) e até a municipal tenham a autonomia e competência para agir,
    Boa sorte a todos!
    Paulo Trani

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