Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil

Destruição de um dos maiores acervos científicos do mundo deveria gerar muito mais vergonha do que tristeza

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O trágico incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em pleno ano de seu bicentenário, foi apenas mais um sintoma do déficit civilizatório que é cada vez maior no Brasil. Apesar de a notícia ter sido uma das mais chocantes do noticiário nacional e internacional desde a noite de ontem, estamos acostumados cada vez mais com fatos e situações inaceitáveis para uma nação civilizada, e que já passaram a fazer parte de nosso cotidiano.

Há tempo nos acostumamos a ser uma sociedade disfuncional que tolera o descaso com o próprio interesse público. Nós nos acostumamos com rios e córregos fedorentos, que atravessam grandes centros urbanos como verdadeiros esgotos a céu aberto. Há muito tempo não nos incomodamos com os horríveis emaranhados de fios precariamente pendurados em postes, que ameaçam a segurança das pessoas e prejudicam o fornecimento de eletricidade.

Já fazem parte da paisagem de nossas grandes cidades as crianças de rua mendigando por dinheiro e comida. E, às voltas com mais uma crise hídrica, continuamos a nos resignar diante de perdas de cerca de 40% de água tratada nas próprias redes de abastecimento por falta de manutenção.

 

Não faltaram alertas

E também nos acostumamos com as chamas do descaso com museus. Não faltaram alertas na forma de lamentáveis precedentes. Só em São Paulo, em menos de 10 anos tivemos os incêndios da Cinemateca Brasileira (2016), do Museu da Língua Portuguesa (2015), do Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios (2014), do Memorial da América Latina (2013) e do Laboratório de Répteis do Instituto Butantan (2010).

Ontem, de repente, foram reduzidos a cinzas 550 mil amostras de herbário, 6,5 milhões de peças de coleções zoológicas, 26.160 fósseis, 130 mil itens de coleções antropológicas, entre outros, totalizando cerca de 20 milhões de peças e 200 anos de trabalho. Mesmo com todo o material combustível de grande de seu acervo, nunca houve aprovação para o prédio do Museu Nacional pelo Corpo de Bombeiros, como disse ontem em entrevista à GloboNews o próprio comandante da corporação.

No Brasil, essa situação irregular de edifícios continuou sendo comum, mesmo após o terrível incêndio que em 2013 matou 242 pessoas na boate Kiss, em Santa Maria (RS). Em São Paulo, no ano passado, prédios de vários órgãos públicos não tinham o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). Inclusive hospitais, como o prestigiado Instituto do Coração (Incor), e a sede da própria Secretaria de Segurança Pública, à qual estão subordinados os bombeiros.

 

Décadas de descaso

Mal a imprensa nacional e internacional destacava a tragédia anunciada, já começavam a ser apontados os dedos em riste da polarização política entre esquerda e direita que assola o país. Com razão, foram apontados como vilões os governos dos presidentes Michel Temer (MDB) e de Dilma Rousseff (PT) por seus cortes de recursos para ciência. Porém, o ódio recíproco entre os dois polos passou também a turvar a compreensão de que o alcance da cumplicidade com o descaso com a ciência e a cultura é muito maior e mais próximo do que se pensa, independentemente de que lado se está.

O Museu Nacional não sofreu descaso apenas dos governos mais recentes. A omissão é de muitas décadas. Inclusive por falta de presença. O último presidente da República a pôr os pés nele foi Juscelino Kubitschek (1956-1961) e nenhum ministro foi à festa de seu bicentenário, como disse ontem o vice-diretor Luiz Fernando Dias Duarte à GloboNews. Tudo indica que o único governante que realmente deu o devido valor ao acervo foi Dom Pedro II, ainda antes de a coleção ir para o palácio da Quinta da Boa Vista em 1892.

O descaso também não foi somente dos governos. Um acervo riquíssimo e de relevância internacional como o do Museu Nacional não teria sido abandonado por empresários de países como os Estados Unidos e tantos outros da Europa. Mas foi ignorado aqui pelos capitalistas de sangue azul.

E, finalizando, o descaso também foi de toda a sociedade. Nossa capacidade coletiva de tolerar o inaceitável está nos transformando em cúmplices de muitas tragédias anunciadas. E isso deveria gerar, para nós, muito mais vergonha do que tristeza.

Na imagem acima, incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, fundado em 1818. Foto: Tânia Dominici/arquivo pessoal.

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2 Comentários

  1. Pingback: Seção Especial: Museu Nacional – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  2. Eliana Cancello (docente MZUSP) said:

    Concordo com tudo dito acima e ressalto que não faltaram alertas, mas, faltou verba e sem dinheiro de manutenção, estas coisas podem acontecer, sim! Parece que esta ligação não é feita pelos administradores, ou melhor, pelos governantes, em última instância: falta verba e espera-se que tudo fique bem? Como mágica? E agora? Vamos tomar consciência de que ainda há outros museus também reconhecidos internacionalmente e que passam por muitas dificuldades e pelo mesmo descaso? Ou vamos esperar que caiam, queimem ou fechem?! E aqui em São Paulo, temos o Museu de Zoologia da USP (MZUSP), que se considera instituição irmã do MNRJ e nós docentes, funcionários e alunos choramos a perda desta irmã! E como! Nossas pesquisas precisavam uma da outra, emprestávamos material para os colegas de lá e recebíamos material deles, sempre. Algum material nosso foi queimado lá e algumas amostras deles se salvaram aqui, por estarem emprestadas. Agora, pergunto: quem de fato sabia da importância do MNRJ? Quem, agora, sabe da importância do MZUSP? Quem divulga a importância de nosso acervo? A própria USP não reconhece a importância de seus Museus! De suas coleções, e a importância de manter pessoal qualificado para poder manter em sua plenitude seus acervos sendo estudados, qualificados, devidamente usados para pesquisa, ensino e extensão. Até quando teremos de gritar para tentar que nos escutem e vejam a importância de nossos acervos?!

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