Blogs de cientistas perdem espaço no jornal britânico The Guardian

Em seus últimos posts, ex-blogueiros relatam impotência para combater fake news com a comunicação científica

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Na semana passada, o diário britânico The Guardian acabou com sua Science Blogs Network que havia criado há oito anos. Desatento ao jornal nos últimos dias, só nesta quarta-feira (5) percebi o encerramento dessa seção ao ler os últimos posts de alguns dos colaboradores dessa seção, cujo objetivo editorial era definido nos seguintes termos.

A rede de blogs científicos do Guardian hospeda escritores talentosos que são especialistas em seus campos, desde a matemática, a física de partículas e a astronomia à neurociência, à política científica e à psicologia. Ao dar-lhes a liberdade de escrever sobre os assuntos que escolherem – sem interferência editorial – eles ampliam e aprofundam nossa cobertura da pesquisa e do debate científicos.

Perguntei por e-mail nesta manhã à editoria de Ciência do Guardian se o jornal havia publicado alguma explicação sobre sua decisão de encerrar a atividade dessa rede de blogueiros cientistas. Em resposta, recebi a informação de que o esclarecimento está no post “Farewell to the Guardian’s science blog network”, de Peter Etchells, psicólogo e pesquisador de comunicação científica da Universidade Bath Spa. Ex-coordenador da rede, ele afirmou:

(…) o fim da rede de blogs de ciência vem em um momento em que, talvez mais do que nunca, há a necessidade de um jornalismo científico forte, crítico e baseado em evidências. Nós nos encontramos em um momento da história que é dominado por notícias falsas, dados escolhidos a dedo, e uma cultura na qual as histórias que contamos a nós mesmos – aquelas que exploram nossas próprias experiências e crenças limitadas – superam fatos e evidências.

 

Ciência versus fake news

Por sua vez, Jenny Rohn, pesquisadora de doenças infecciosas na Universidade College London, do extinto blog Occam’s Corner, publicou seu derradeiro post “Eu estava iludida. Você não pode derrotar notícias falsas com comunicação científicas”, que aparentemente é um título irônico. Seguem trechos de seu desabafo, também mencionando as fake news.

Acho que escritores como eu, especializados em comunicação baseada em evidências, foram iludidos quanto ao poder de nossas penas diante dessa maré inexorável. Escrevemos nossas peças educadas nos principais canais e esperamos mudar o mundo. Nós nos preparamos para os inevitáveis ​​trolls nas seções de comentários e nas mídias sociais, mas nos sentimos animados e encorajados pelo elogio e apoio de membros da platéia que pensam da mesma forma. Nós nos convencemos de que estamos fazendo o bem, de que estamos brilhando uma luz – não importa quão vagamente – sobre um acúmulo de má desinformação. Sentimo-nos presunçosos quando recebemos mil retweets – até percebermos que os antivacinas, os racistas e os malucos estão recebendo centenas de milhares a mais.
Agora estou começando a pensar que nada disso faz muita diferença. Quando é que alguma de nossas evidências, não importa quão cuidadosamente e amplamente apresentadas, realmente influenciam a opinião de alguém cujo ponto de vista há muito tempo foi seduzido pelos propagandistas?

 

Sair da ‘torre de marfim’

Ainda ontem, porém, reportando-se a esse post de Jenny John, um artigo na seção de Ciência do jornal afirmou já em seu próprio título que “cientistas devem continuar lutando contra notícias falsas, não recuar para suas torres de marfim” (“Scientists must keep fighting fake news, not retreat to their ivory towers”). O artigo é da jornalista Fiona Fox, que afirmou:

O que eu questiono principalmente é a certeza de Rohn de que ninguém está ouvindo os cientistas. Como disse Carl Sagan, “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”, e Rohn se descreve como uma escritora especializada em comunicação baseada em evidências. Então, onde está a evidência de que a aceitação pública está acima da verdade da ciência? E por que este é o ponto de partida de muitos dos debates em que participei em pós-verdade e fake news?
(…)
A conclusão provisória de Rohn é que escritores de ciência, como ela, talvez devessem se retirar do espaço público e tentar mudar as coisas através de “canais mais privados e direcionados”. Eu realmente espero que ela não faça. As últimas duas décadas viram uma mudança cultural notável na ciência, com cada vez mais pesquisadores vendo-a como parte de seu papel de se envolver com a preocupação pública em questões de culturas GM [geneticamente modificadas], mudança climática e excesso de medicalização. Repetidamente, tenho visto cientistas desafiando a desinformação sobre esses assuntos com bons resultados.

Fiona Fox é diretora e fundadora do Science Media Centre, estabelecido em 2002 a partir de recomendação dois anos antes por um relatório do comitê de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico. Seu artigo “lavou minha alma” por afirmar o mesmo que eu disse no mês passado na 2ª Reunião da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Rabeco), que foi realizada de 19 a 22 de agosto na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

 

Cientistas devem se expor

Em uma reunião preliminar desse evento, cujo tema foi “Ecologia em tempos de crise: como ser relevante?”, eu afirmei que não dá para os cientistas acreditarem que basta a imprensa fazer sua parte para que informações científicas importantes sejam levadas ao público em geral. Enfatizando que cada vez mais a comunicação de um fato científico não é seu mero registro e que a desinformação motivada por interesses alheios à ciência está cada vez mais atuante, afirmei que os pesquisadores precisam se expor cada vez nas redes sociais.

Ao promover a quebra do fluxo unidirecional da comunicação e proporcionar mais espaço em comparação com a mídia impressa, a internet trouxe a falsa impressão de que basta colocar online a informação científica para que ela sirva como vacina contra a desinformação em saúde, meio ambiente e outras áreas.

Na verdade, embora não exista mais a disputa por espaço, o que existe é a guerra por visibilidade. Nessa guerra, não basta a informação de qualidade ser publicada, mesmo tendo sido elaborada com as melhores técnicas de comunicação. É preciso que o trabalho da cobertura jornalística de ciência, saúde, meio ambiente e tecnologia seja constantemente repercutido pela comunidade de especialistas nessas áreas, não só para ter mais visibilidade, mas também para ser discutido e criticado para que seja aperfeiçoado.

Enfim, voltando ao Guardian, penso que esse excelente jornal ficou devendo uma boa explicação para seus leitores sobre sua decisão editorial de encerrar sua rede de blogs de cientistas. O assunto merece uma ampla discussão.

Leia também:

Na imagem acima, página da Science Blogs Network, do jornal britânico The Guardian. Foto: reprodução.

Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

*

Top