Agravamento da fome pela mudança climática é tragédia anunciada

Prejuízo para a produção de alimentos associado a secas e inundações já era previsto por pesquisadores

FÁBIO DE CASTRO

A notícia recente de que o aquecimento global está agravando a produção de alimentos e, consequentemente, aumentando o número de pessoas subnutridas no mundo, não surpreendeu muitos cientistas. A ligação entre mudança do clima e o crescimento da fome pelo terceiro ano consecutivo foi divulgada nesta semana por um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Não há surpresas”, afirmou o meteorologista José Antonio Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), que participa da produção dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). “A cada ano a temperatura está mais alta, e isso leva ao estresse hídrico, que tem impacto muito grande sobre a agricultura, especialmente nas regiões mais pobres”, disse Marengo a Direto da Ciência.

Até o ano passado o recrudescimento da fome havia sido atribuído a conflitos em várias partes do mundo. O novo relatório indica que eventos climáticos extremos cada vez mais intensos, inclusive secas na África e inundações e tempestades na Ásia, estão comprometendo a alimentação das populações e ameaçam os progressos conseguidos na luta contra a fome após o ano 2000.

 

Alertas

“Pelo terceiro ano consecutivo, houve um aumento da fome no mundo. O número absoluto de pessoas subnutridas, isto é, que enfrentam privação crônica de alimentos, aumentou de 804 milhões em 2016 para 821 milhões em 2017. Esses são níveis semelhantes aos que foram registrados há quase uma década”, diz o documento da FAO em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, com a Unicef e com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com Marengo, as quedas na produtividade agrícola associadas às mudanças do clima também têm impacto nos preços dos alimentos. “Os preços sobem e as pessoas de baixa renda não têm como pagar”, explicou. O cientista destaca que há anos os cientistas já vinham alertando para os impactos que as mudanças climáticas teriam na segurança alimentar.

“Era um problema anunciado. Muitas vezes espera-se que com a tecnologia fosse possível reverter essa tendência, mas as novas tecnologias não chegam às áreas pobres da América Latina e da Ásia, por exemplo. Falamos muito de adaptação como forma de combater os efeitos das mudanças climáticas, mas adaptação é algo caro e os maiores impactos ocorrem nas populações que têm menos chances de adaptação”.

 

Degradação de áreas de cultivo

Para o pesquisador Luis Gustavo Barioni, da Embrapa Informática e Agropecuária, também não há mais qualquer dúvida de que o aumento das secas, inundações e temperaturas extremas já afetam a produção agropecuária, com consequência na produção de alimentos.

“Esses impactos ocorrem especialmente no aspecto das variações na produtividade em diversas culturas, o que reduz a produção do total de alimentos. Um efeito particularmente pernicioso desses impactos é que eles tornam os alimentos mais caros, reduzindo o acesso para as populações mais pobres. Isso aconteceu no Brasil recentemente com o feijão, mas ocorre me vários locais do mundo”, disse Barioni.

O pesquisador da Embrapa é um dos autores de um relatório que está sendo elaborado pelo IPCC sobre a questão da segurança alimentar e da degradação das terras agrícolas. Além de avaliar os impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos – e apresentar potenciais soluções –, o documento, com publicação prevista para 2019, também mostrará como a própria indústria agropecuária influencia as mudanças climáticas.

 

Vulnerabilidade crescente

Para Barioni, será preciso que o planeta se adapte à situação de crescente vulnerabilidade às mudanças do clima. “Precisamos nos tornar resilientes. Temos uma população mundial em crescimento e uma demanda de alimentos que aumenta ainda mais rapidamente que a própria população, pois parte da humanidade tem aumentado sua renda”, disse.

As discrepâncias entre o acesso ao alimento entre populações de diferentes partes do mundo e de diversas faixas de renda tornam mais complexo o problema da fome, segundo Barioni.

“Por um lado, temos um aumento da fome, que já atinge uma a cada 10 pessoas no planeta. Mas o relatório da FAO também dá destaque ao problema dos alimentos de baixa qualidade, que são ultraprocessados, ricos em açúcares, óleos e gorduras. As unidades calóricas desses alimentos são mais baratas, em média, que a dos alimentos saudáveis como frutas e verduras”, declarou.

O resultado é um paradoxo: o consumo dos alimentos de baixa qualidade produz ao mesmo tempo desnutrição e obesidade. “Enquanto as mudanças climáticas reduzem o acesso à comida saudável e aumenta o consumo de alimentos ultraprocessados – que são altamente calóricos mas têm baixo valor nutricional”, afirmou Barioni.

Segundo ele, base da alimentação mundial se sustenta em menos de 10 espécies vegetais – incluindo o arroz, o milho, a batata, o trigo e a soja – , o que aumenta ainda mais a vulnerabilidade ao clima. “A indústria processa os alimentos e nós temos a impressão de que há uma variedade muito grande, mas na realidade o número de espécies disponíveis para alimentar o mundo é bastante restrito. Qualquer evento extremo que comprometa uma dessas espécies causa um enorme problema em termos de segurança alimentar.”

 

Efeitos em cadeia

O número de desastres associados a eventos climáticos extremos – incluindo ondas de calor, secas, inundações e tempestades – dobrou desde o início da década de 1990, segundo o novo relatório da FAO, com uma média de ocorrência de 213 desse eventos no período entre 1990 e 2016.

“Isso provoca danos na produtividade agrícola, contribuindo para a escassez na disponibilidade de alimentos, com efeitos em cadeia que levam à elevação dos preços dos alimentos e perdas de renda que reduzem o acesso das pessoas à comida”, diz o texto.

O documento diz que a variabilidade e os extremos climáticos já estão impactando a produção das principais culturas nas regiões tropicais e, sem adaptação, o cenário deverá piorar à medida que as temperaturas se elevam.

Na imagem acima, jovem em área de cultivo prejudicada pela seca na Etiópia. Foto: USAID Africa Bureau/Divulgação.

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