‘Ciência sob ataque’ nos EUA abre caminho para pautar agenda climática

Em San Francisco, Cúpula da Califórnia mobilizou cientistas, governos locais, empresas e ONGs para a prevenção do aquecimento global

FÁBIO DE CASTRO

Realizada na semana passada em San Francisco, nos Estados Unidos, a Cúpula Global de Ação Climática abriu um novo caminho para que a ciência, considerada “sob ataque” do governo do presidente Donald Trump, possa pautar com mais eficiência a agenda climática global.

Também chamado de Cúpula da Califórnia, o evento reuniu nos dias 12 a 14 cerca de 4.500 delegados de várias partes do mundo. Representando governos municipais e regionais, indústrias, ONGs e instituições de pesquisa, os participantes discutiram como autoridades locais podem agir em conjunto para combater as mudanças climáticas, uma vez que os governos nacionais têm mostrado inoperância.

Idealizador da cúpula, o governador da Califórnia, Jerry Brown, do Partido Democrata, já havia anunciado no dia 10 que seu estado se comprometerá a ter 100% de sua eletricidade obtida a partir de fontes renováveis até 2045, contrapondo-se à relutância da gestão Trump, do Partido Republicano, a assumir metas climáticas.

 

Satélite californiano

Governador da Califórnia desde 2011, Brown está no cargo em segundo mandato consecutivo. No encerramento do evento, ele anunciou que, diante do descaso do governo federal com a pesquisa climática, o estado lançará seu próprio satélite para monitorar gases de efeito estufa.

“Com a ciência sob ataque e a com ameaça climática crescendo, nós vamos lançar nosso próprio satélite. Essa iniciativa inovadora ajudará os governos, os empresários e os proprietários a identificar – e a deter – as emissões destrutivas com precisão inédita, em uma escala que nunca foi vista”, disse Brown durante o encerramento da cúpula, segundo o jornal britânico The Guardian.

 

Cientistas mobilizados

A conferência foi marcada por uma importante mobilização de pesquisadores, disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima – uma rede que reúne 35 ONGs ligadas à questão das mudanças climáticas no Brasil. “Cada vez mais os cientistas têm percebido a necessidade de sair de seus laboratórios e se mobilizar para uma ação mais direta na política climática”, afirmou Rittl a Direto na Ciência.

A Cúpula da Califórnia, segundo ele, mostrou que quando os governos nacionais não ouvem os cientistas – ou quando ouvem, mas não se movem –, pode ser uma ótima alternativa investir no diálogo com os governos locais, que têm ação mais capilarizada e estão mais próximos dos problemas reais. Rittl acrescentou:

O governo americano demitiu nomes importantes para a agenda do clima e mostra resistência para fazer prevalecer o conhecimento científico até mesmo dentro de instituições como a Nasa e a Noaa. Enquanto isso, o evento, que não era voltado para governos nacionais, teve uma intensa participação de autoridades mundiais, com governos municipais, empresas e a sociedade civil mostrando compromissos com a o combate às mudanças do clima e o conhecimento científico. Isso reforça a disposição de muitos atores da sociedade para a ação climática.

 

Roteiro de pesquisadores

Um dos principais resultados da mobilização de cientistas foi um roteiro lançado na quinta-feira (13) por um grupo de pesquisadores para possibilitar o cumprimento da principal meta do Acordo de Paris, que é manter o aumento do aquecimento global abaixo de 2°C em comparação com os níveis anteriores à Revolução Industrial.

O roteiro, porém, implica uma rápida transformação do sistema energético mundial com medidas que incluem proibir vendas de veículos a gasolina em muitas cidades em uma década, por exemplo. Essas medidas vão bem além das propostas concretas feitas na cúpula, segundo um dos formuladores do documento, Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo (Suécia).

“Precisamos começar a pensar em mudanças exponenciais”, disse Rockström ao New York Times. O cientista sueco é conhecido por ter proposto o já clássico conceito de “limites planetários”, que identifica nove fronteiras ambientais que não podem ser ultrapassadas sob pena de inviabilizar as condições de vida para as sociedades humanas.

 

Transição crucial

Segundo Rockström, os cientistas ainda não conseguiram transmitir aos formuladores de políticas públicas a situação crítica do planeta e a escala gigantesca do desafio climático diante da humanidade. O cientista declarou ao jornal francês Le Monde:

Se não conseguirmos mudar a curva global de emissões nos próximos dois ou três anos, é extremamente improvável que possamos limitar o aumento da temperatura a 2°C. Estamos bem na transição. Vamos perder uma nova década?

Apesar das dificuldades levantadas pelo cientista sueco, a Cúpula da Califórnia deixou na comunidade científica a sensação de que os debates com as lideranças subnacionais são mais promissores que as negociações entre os governos nacionais.

Alden Meyer, diretor de políticas e estratégias da União dos Cientistas Preocupados, destacou o contraste entre as discussões no evento de San Francisco e na na semana anterior em Bangkok, na Tailândia, na reunião preparatória para a próxima Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP24), que acontecerá em dezembro em Katowice, na Polônia.

Em Bangkok, países em desenvolvimento acusaram as nações desenvolvidas, incluindo os EUA, de descumprirem suas promessas de investimentos contra as mudanças climáticas. “As conversações nas Nações Unidas ainda estão travadas nessa dinâmica de apontar o dedo. A atmosfera aqui na Califórnia está bem diferente, há um real espírito de ‘poder fazer’. Vamos ver se essa mentalidade consegue ser transmitida para cima”, disse Meyer ao New York Times.

 

Povos indígenas

Além da intensa atuação dos cientistas, também chamou a atenção na Cúpula da Califórnia a forte participação dos povos indígenas, que levaram à conferência a dimensão do conhecimento tradicional, disse Carlos Rittl.

“Os indígenas das Américas formaram uma aliança muito importante ao verem que o avanço sobre os direitos dos seus territórios também representa uma ameaça à agenda do clima global. Esse movimento talvez tenha sido o mais relevante da conferência, por demonstrar que a roda do clima está girando e está sendo movimentada por um número cada vez maior de atores”, afirmou Rittl.

Presente na conferência como uma das representantes da ONG Uma Gota no Oceano, a brasileira Gabriela Lapagesse participou do evento paralelo Guardiões da Floresta, que reuniu indígenas de mais de 20 países.

 

Eventos paralelos

“A participação dos indígenas foi muito importante. Nos espaços dos quais participamos, foi dado um destaque muito grande à importância da ligação entre o conhecimento científico e o conhecimento tradicional. Um dos exemplos é a capacidade dos indígenas para lidar com o o manejo do fogo. Neste momento em que a Califórnia teve sua maior queimada em décadas, os povos indígenas tiveram uma ação crucial”, afirmou Gabriela.

Segundo ela, o espaço para os indígenas poderia ter sido maior no evento principal, mas a forte participação nos eventos paralelos já foi um grande avanço. “Acho que é importantíssima a ação conjunta dessa tríade formada por governos subnacionais, cientistas e povos indígenas.

De acordo com a emissora Deutsche Welle, da Alemanha, os povos indígenas brasileiros foram destaque no palco da cúpula da Califórnia. “As florestas são importantes para regular o clima. E somos nós que fazemos a preservação”, disse para a plateia Francisca Oliveira Costa Arara, da Organização dos Professores Indígenas do Acre.

Segundo a emissora, um estudo publicado pelo Right and Resources Initiative calculou que povos indígenas gerenciam quase 300 bilhões de toneladas de carbono em seus territórios – o equivalente a 33 vezes as emissões globais pelo setor de energia em 2017.

 

Florestas e investimentos

Durante a Cúpula da Califórnia, nove instituições filantrópicas, entre elas a Fundação Ford, a Climate Works, a Gordon & Betty Moore e a David & Lucile Packard, anunciaram um investimento de US$ 459 milhões, até 2022, em florestas, direitos e terras indígenas, a fim de combater as mudanças climáticas. Numa declaração conjunta com outras entidades no dia 11, na véspera do evento, elas afirmaram:

Florestas e terras são críticas para a luta contra as mudanças climáticas. Elas já removem 30% das emissões de carbono acrescentadas à atmosfera a cada ano e poderiam fornecer 30% adicionais da mitigação necessária até 2030 para limitar o aquecimento global a 1,5ºC. Mas florestas e terras recebem apenas 3% do financiamento para a ação climática. Se esperamos alcançar metas climáticas globais, os investimentos na conservação de florestas e terras devem aumentar urgentemente para corresponder ao seu potencial de desacelerar a mudança climática.

Também foi apresentada, por 34 governadores de nove países, uma carta de princípios para aumentar a colaboração e diminuir os conflitos com povos indígenas.

Vários outros anúncios foram feitos durante a cúpula. Além de divulgar a meta de obter 100% da energia da Califórnia a partir de fontes renováveis até 2045, o governador Jerry Brown, assinou na quinta-feira (13) um conjunto de 16 leis com objetivo de reduzir a pegada de carbono do estado a partir do aumento do número de carros elétricos nas ruas.

Segundo o jornal The Washington Post, 12 cidades, incluindo Tóquio (Japão), Roterdã (Holanda) e Seul (Coreia do Sul) lançaram uma iniciativa para reduzir radicalmente as emissões nos centros urbanos, aumentando o espaço para frotas de ônibus elétricos, até zerar as emissões desse tipo de veículo em 2025.

A cidade de Nova York anunciou que investirá US$ 4 bilhões dos fundos de pensão, nos próximos três anos, em iniciativas para conter as mudanças climáticas, dobrando assim os investimentos atuais.

 

Carros elétricos

Do lado das indústrias, ainda segundo o Washington Post, a empresa holandesa LeasePlan – uma das maiores fornecedoras de frotas no mundo, com 1,8 milhões de veículos –, anunciou que irá acelerar a compra e carros elétricos. O mesmo será feito pela gigante francesa do setor elétrico, EDF Energy, que possui 30 mil veículos.

Além das indústrias pesadas, várias marcas de bens de consumo também tomaram suas iniciativas. A Starbucks, por exemplo, anunciou planos de construir 10 mil “lojas verdes” até 2025, a fim de economizar US$ 50 milhões em custos operacionais. A Unilever anunciou que certificará como sustentáveis mais de 60 mil hectares de plantações de óleo de palma na Malásia, limitando o desmatamento em sua cadeia de produção.

O Washington Post, porém, questiona se a grande quantidade de compromissos assumidos por cidades e empresas não acabará se tornando apenas uma carta de intenções, já que nenhum deles é legalmente vinculativo.

“Estive em muitas reuniões e conferências ligadas à crise climática por vários anos e esse realmente é de alto nível. A natureza dos compromissos que foram anunciados é extremamente animadora”, disse o ex-vice-presidente americano Al Gore ao Washington Post durante o evento.

Na imagem acima, o governador da califórnia, Jerry Brown, no encerramento da Cúpula Global de Ação Climática, em 13/set/2015. Foto: Global Climate Action Summit/divulgação.

Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

*

Top