Cientistas tentam curar vício em cocaína com células-tronco transgênicas

Aplicados em camundongos, implantes geneticamente modificados liberaram enzima capaz de eliminar droga do organismo

FÁBIO DE CASTRO

Com uma nova terapia baseada em células-tronco geneticamente modificadas, cientistas nos Estados Unidos conseguiram reduzir o desejo de camundongos por cocaína, além de proteger os animais de overdoses. Embora sejam necessários mais estudos para saber se a descoberta pode ser aplicada clinicamente, ela pode abrir caminho para uma terapia para o abuso de drogas em humanos.

O experimento, conduzido por Ming Xu, Xiaoyang Wu, Yuanyuan Li, Qingyao Kong, JipingYue e XuewenGou, todos da Universidade de Chicago, teve seus resultados publicados esta semana na revista científica Nature Biomedical Engineering.

Os cientistas fizeram modificações genéticas em células-tronco extraídas da pele dos camundongos para que elas produzissem uma enzima que naturalmente remove a cocaína da corrente sanguínea. Implantadas de volta nos animais, as células-tronco serviram como um depósito dessas enzimas, lançando-as pouco a pouco na corrente sanguínea.

Os testes em laboratório mostraram que os camundongos com os implantes perderam o apetite por cocaína e conseguiram sobreviver a aplicações da droga em doses extremas que mataram todos os animais não tratados.

 

Limitações

O psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que não participou do estudo, elogiou o trabalho dos cientistas de Chicago, mas afirmou que dificilmente a abordagem terá aplicação viável no tratamento do abuso de drogas.

“O estudo é muito interessante do ponto de vista da psicobiologia, pois os autores conseguiram montar um sistema no qual a cocaína consumida é degradada muito rapidamente. Mas me parece ambicioso demais, até irreal, achar que isso pode ser extrapolado para humanos.”, disse Xavier a Direto da Ciência.

Para o pesquisador brasileiro, extrapolar para humanos os resultados obtidos em camundongos é algo arriscado, e essa é uma crítica frequentemente feita a pesquisas com modelos animais em estudos sobre abuso de drogas, porque o processo de dependência química em humanos é muito mais complexo que nos animais.

“No laboratório, os animais são induzidos à dependência. Mas sabemos que nenhum camundongo vai se drogar espontaneamente procurando um ‘barato’. O que motiva o humano a usar drogas é a busca de um estado alterado de consciência. O humano quer aquele efeito. Portanto, eliminar rapidamente a cocaína do organismo não é uma alternativa eficaz para o tratamento da dependência”, explicou.

A abordagem dos cientistas de Chicago poderia ser útil no desenvolvimento de remédios para tratar a situação de overdose, de acordo com Xavier. Mas, para ser eficaz no tratamento da dependência, a terapia teria de atuar no mecanismo de prazer que impulsiona o uso de drogas.

“A droga é condição necessária, mas não suficiente para causar dependência. A maioria das pessoas que usam cocaína, álcool e outras drogas não é dependente. Não é a droga em si que produz a dependência, mas o uso que a pessoa faz dela”, disse o pesquisador brasileiro.

 

Edição de genes

O abuso de drogas em geral, e da cocaína em particular, de acordo com os cientistas da Universidade de Chicago, caracteriza-se pela busca compulsiva pela substância e por frequentes recaídas, mesmo após longos períodos de abstenção. Os tratamentos com estratégias comportamentais e farmacológicas, porém, têm mostrado resultados limitados. Também não há intervenções efetivas para emergências causadas por overdose.

Segundo os autores do estudo, já se havia tentado anteriormente tratar a compulsão por cocaína em camundongos com injeções de butirilcolinesterase (BChE) –uma enzima que degrada a droga no organismo. Mas a eficácia foi baixa, especialmente porque a enzima permanece por pouco tempo na corrente sanguínea.

A saída encontrada pelo grupo da Universidade de Chicago foi utilizar a ferramenta CRISPR de edição de genes para modificar as células-tronco da pele dos camundongos, programando-as para expressar uma forma melhorada da enzima BChE, 4 mil vezes mais potente que a forma natural encontrada no plasma sanguíneo.

Inseridas de volta sob a pele dos animais por meio de uma injeção, as células-tronco funcionaram como um depósito para liberação da enzima na corrente sanguínea em longo prazo. A BChE age quebrando as moléculas da cocaína e transformando-as em subprodutos inofensivos.

“A terapia genética cutânea, realizada por meio de transplantes de pele que provocam a eliminação de drogas podem oferecer uma opção terapêutica para o tratamento do abuso de drogas”, escreveram os autores.

 

Resultados promissores

A esperança dos cientistas é que a abordagem abra caminho para um tratamento de longo prazo da dependência de cocaína, ao eliminar a droga da corrente sanguínea logo que ela é inalada ou injetada, tornando o paciente imune à compulsão.

Ao jornal britânico The Guardian, Xu afirmou que a abordagem é altamente eficiente e específica na eliminação da cocaína. “Em comparação a outras terapias genéticas, nossa abordagem é minimamente invasiva, tem efeito em longo prazo, necessita de baixa manutenção e não é cara. É muito promissora”, disse Xu.

Os testes mostraram que os camundongos ainda apresentavam altos níveis de BChE no sangue por pelo menos 10 semanas após serem tratados com a nova abordagem. Além de buscarem menos a cocaína, em comparação aos animais não tratados, os camundongos também suportaram doses fatais da droga de até 160 miligramas por quilo de peso corporal – o equivalente a uma dose de 12 gramas em uma pessoa de 75 quilos.

Na imagem acima, carreiras de cocaína sobre espelho. Imagem: Wikimedia Commons.

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