Acesso aberto avança na Europa, mas taxa de publicação aflige brasileiros

Preços elevados cobrados por periódicos Open Access e falta de recursos dificultam Brasil a seguir tendência mundial da pesquisa

 

FÁBIO DE CASTRO

Enquanto cientistas de 11 países europeus comemoram a recente decisão de seus governos de só financiarem estudos publicados em revistas de acesso aberto a partir de 2020, no Brasil pesquisadores têm motivos para se preocupar se essa norma vier a vigorar por aqui.

Sofrendo com taxas exorbitantes para os padrões nacionais, pagas para publicar seus artigos em revistas Open Access (OA) – aquelas que não cobram pelo acesso a seus conteúdos – pesquisadores brasileiros acreditam que a falta de recursos para ciência pode limitar a adesão do país ao movimento pela “ciência aberta”, que avança mundialmente a passos largos.

Estimular a publicação no modelo OA é o principal objetivo do movimento pela ciência aberta. Na Europa, o passo decisivo foi dado no início de setembro, quando as agências nacionais de fomento à pesquisa de 11 países, com o apoio da Comunidade Europeia, anunciaram o plano de liberar recursos públicos exclusivamente para estudos publicados em periódicos OA.

 

Realidade brasileira

Embora apoiem a “ciência aberta” e comemorem o avanço do movimento na Europa, muitos pesquisadores brasileiros são desencorajados a segui-lo. Os periódicos Open Access, que por um lado não cobram pelo acesso aos conteúdos, por outro lado, na maioria das vezes impõem altas taxas para a publicação.

“A iniciativa dos países europeus é interessante quando se tem muito dinheiro disponível para pesquisa. Mas, quando se tem poucos recursos, o que é a realidade no Brasil, é preciso canalizar a maior parte do dinheiro apenas para publicar”, disse Claudia Russo, professora do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Claudia diz não ter dúvidas de que o modelo Open Access é o ideal para estimular o desenvolvimento científico. E afirma:

Para fazer ciência, muitas vezes não é preciso investir em equipamentos caros, mas é preciso pensar e ler. Com uma revista de acesso aberto, você disponibiliza ciência para todos. Por outro lado, não tem nada de graça. Essas revistas cobram para publicar, e é aí que complica.

 

Taxas exorbitantes

Professor de biologia celular e molecular da Universidade de Brasília (UnB), o virologista Bergmann Morais Ribeiro conta que recentemente teve de pagar mais de R$ 8.800 para a publicação de um artigo em uma das revistas da BioMed Central (BMC), uma editora de modelo Open Access ligada ao grupo Springer-Nature. “A taxa foi de US$ 2.185, o que deu mais de R$ 8.800 no câmbio atual”, disse Ribeiro.

Bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) há mais de 10 anos, Ribeiro recebe R$ 1.300 por mês para as pesquisas, reagentes e outras despesas. “Também uso esses recursos para publicações, mas só em 2018 já publiquei 10 artigos científicos. Alguns foram pagos, outros não. Com esse ritmo de produção, preciso escolher revistas sem acesso aberto, caso contrário, não conseguiria pagar.”

Outra fonte para pagamento dos artigos, é o programa de pós-graduação da UnB, do qual Ribeiro já foi diretor. O programa em biologia molecular disponibiliza cerca de R$ 3 mil para ajudar nos custos das publicações. O pesquisador afirmou:

Quando o dólar estava baixo, era suficiente para cobrir as publicações, mas agora não dá mais. Estou pensando duas vezes antes de submeter artigos a revistas Open Access, porque sei que não terei recursos. Essas circunstâncias certamente podem deixar o Brasil para trás no movimento mundial pela ciência aberta.

Segundo Ribeiro, a universidade se mostra disposta a ajudar, mas atualmente faz isso por meio de editais e a burocracia é muito grande, com um processo que pode levar semanas ou meses para ser concluído. “Nesta última publicação, ao aceitar o artigo, a BMC exigiu que o pagamento fosse feito em sete dias.”

 

Alta do dólar e constrangimento

A combinação de preços altos, câmbio desfavorável e prazos curtos deixou em apuros a pesquisadora Izabel Cristina Rodrigues da Silva, professora de farmácia da Faculdade de Ceilândia, da UnB. Recentemente, ela conseguiu R$ 6 mil de um dos editais da universidade para publicar um artigo sobre câncer de tireoide em uma revista Open Access que é referência na área de endocrinologia. A análise da revista, porém, demorou mais que o previsto e, nesse ínterim, o preço do dólar disparou. Disse a professora:

Os critérios da revista eram extremamente rigorosos e, quando a aprovação saiu, o câmbio explodiu e os recursos já não eram mais suficientes para pagar os exorbitantes US$ 1.850. Escrevi ao editor explicando a situação e pedindo um desconto, mas ele negou, de uma forma um tanto grosseira. Disse que as taxas são a única fonte de renda da revista e que eu sabia as regras antes de submeter o artigo e deveria assumir minha dívida.

Não foi a primeira vez que a pesquisadora passou pela situação. Ela conta que há cerca de dois anos publicou em revista da mesma editora um artigo em parceria com um colega do Departamento de Saúde Coletiva. Quando a revista enviou a cobrança, porém, a reitoria da UnB estava ocupada por uma manifestação política de alunos e não havia como liberar os recursos de US$ 1.850.

“O editor chefe da revista começou a nos pressionar, dizendo que enviaria nosso nome para o escritório jurídico. Meu colega se desesperou. Quando os alunos deixaram a reitoria, o decano liberou imediatamente o valor, mas foi extremamente desagradável termos feito o papel de caloteiros.”

 

Encarecimento gradual

A subida dos preços para publicar em revistas de acesso aberto é um fenômeno relativamente recente, de acordo com outro pesquisador da UnB, Marcelo Hermes-Lima, do Departamento de Biologia Celular. Segundo ele, o movimento pela Ciência Aberta começou há cerca de 15 anos e a PLoS One foi uma das primeiras revistas a adotar o modelo. O pesquisador explicou:

Entrei como um dos editores da PLoS One em 2007, e o preço era razoável, cerca de mil dólares. Foi um movimento desbravador e vivemos um grande momento de libertação dos pesquisadores. Todo mundo podia ler sua pesquisa. Além disso, a revista não dava importância alguma ao fator de impacto – o que era importante era o aspecto científico.

Com o passar dos anos, porém, o sistema foi se desorganizando gradualmente, segundo Hermes-Lima. A revista tem artigos praticamente em todas as áreas do conhecimento e cresceu demais. “Eu submeti um artigo no ano passado sobre hibernação e descobri que eu era o único autor disponível nessa área. O artigo ficou lá por uns seis meses e acabou voltando, porque não havia ninguém para avaliar”, disse.

Os preços na PLoS One continuam “dentro do aceitável”, segundo o pesquisador, na faixa de US$ 1.500 a US$ 1.600. Mas ele diz que diversas outras revistas acabaram transformando o modelo Open Access em um negócio milionário.

A Frontiers, por exemplo, tem seções que cobram quase US$ 3 mil pela publicação de um trabalho. É uma excelente revista, mas ela usa e abusa do fator de impacto. Eles têm uma estratégia de marketing muito forte, com uma hiper-divulgação de alguns artigos mais “sexy”. Não há nada de errado com esse marketing, o problema é que os pesquisadores trabalham de graça e esse pessoal tem um faturamento altíssimo. Já me convidaram para ser editor na Frontiers várias vezes e eu recusei.

Nesse cenário, algumas revistas, segundo Hermes-Lima, têm adotado um modelo híbrido. Elas têm seções de publicação gratuita com acesso pago e outras com acesso aberto, mas com taxas para publicação.

“A grande maioria das revistas têm ao menos uma seção no modelo Open Access. Algumas revistas de acesso aberto cobram, mas têm descontos em certas seções. Estou submetendo agora um artigo à Frontiers em uma seção de opinião por US$ 450.”

 

Periódicos predatórios

Para a maior parte dos pesquisadores ouvidos por Direto da Ciência, o problema do pagamento por publicações no modelo Open Access poderia ser resolvido se o financiamento para a pesquisa – por universidades ou agências de fomento – já incluísse um acréscimo para publicação.

Mas eles temem que as agências tenham dificuldades para identificar as revistas sérias, já que a proliferação de periódicos de acesso aberto também deram espaço para as chamadas “revistas predatórias”, nas quais basta pagar para publicar, ainda que o artigo não tenha qualidade.

“Para que o Brasil entrasse nesse movimento, as agências de fomento deveriam pagar esse tipo de custo, mas para isso seria preciso avaliar a qualidade da revista, o que é complexo porque só os especialistas de cada área podem fazer essa avaliação”, diz Claudia Russo, da UFRJ.

Identificar as revistas predatórias, porém, não deveria ser um problema, segundo Lilian Nassi-Calò, coordenadora de Comunicação Científica do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme) e colaboradora do SciELO – uma plataforma de revistas de acesso aberto que reúne mais de mil periódicos no continente. Nas palavras da pesquisadora,

Essas revistas têm características gritantes. Praticamente há um neon piscando e dizendo que elas são predatórias. Elas nunca têm uma instituição responsável, não são ligadas a uma instituição – declaram-se “independentes” – e o nome do editor-chefe é fictício, ou de um laranja. Uma simples busca no Google Scholar mostra que aquela pessoa não tem publicações.

Para Lilian, não há nenhuma razão que impeça os financiadores de reservarem uma verba para publicação no modelo Open Access. “Os programas de pós-graduação, as instituições de pesquisa e as agências de fomento que financiam ciência podem e devem financiar a publicação, que nada mais é que a última etapa do processo de produção científica.”

 

Distorções

A pesquisadora acredita que as taxas para publicação não são um fator limitante para a adesão do Brasil ao movimento da Ciência Aberta. Um levantamento feito por Lilian há quatro anos entre as cerca de 350 publicações brasileiras da SciELO mostra que apenas 10% deles cobram taxas para publicação.

A maior parte das publicações brasileiras é subsidiada e tem acesso aberto e publicação totalmente gratuita. Portanto, o verdadeiro problema não é o preço das taxas, mas a necessidade imposta pela Capes de publicar em revistas internacionais com alto fator de impacto, o que acaba obrigando os pesquisadores a procurar as revistas estrangeiras, que muitas vezes têm taxas altas.

Além das revistas totalmente gratuitas, Lilian afirma que a maior parte das revistas de acesso aberto da América Latina pertencem a editoras pequenas, que não têm fins lucrativos e que cobram taxas bem mais baixas. “Além das que não cobram nada, temos muitas revistas que cobram de R$ 200 a R$ 500 para publicação, apenas para pagar seu staff. Elas precisam cobrar para manter a operação, mas é algo bem diferente do que acontece com as editoras comerciais, cujo lucro estimado é de 35% .”

As exigências da Capes, de acordo com Lilian, são o principal incentivo para os pesquisadores brasileiros que pagam caro por uma publicação de seus artigos em revistas Open Access no exterior. De acordo com a pesquisadora,

Não tem nada a ver com o acesso aberto. Tem a ver com o sistema Qualis, da Capes, que ranqueia as revistas com base no fator de impacto. Se ele publicar em uma excelente revista brasileira que está em todas as bases de dados, mas que não tem o fator de impacto alto por ser nacional, ele não conseguirá boas avaliações. O problema não são as taxas, mas essa distorção.

 

Custos compartilhados

O diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, afirma que as agências de fomento podem financiar as taxas de publicação em revistas Open Access – e o fazem –, mas esse financiamento não é de sua exclusiva responsabilidade. O dirigente do órgão afirmou:

A Fapesp considera que Acesso Aberto é bom para o desenvolvimento da ciência. O financiamento de publicações científicas é parte do custo dos projetos de pesquisa. No sistema brasileiro, os custos da pesquisa são compartilhados entre agências de financiamento, universidades e institutos de pesquisa, além de empresas. Todas essas fontes de recursos podem financiar o custo de publicação de trabalhos científicos.

No caso da Fapesp, as taxas são financiadas de duas maneiras, segundo Brito. A principal delas é o valor adicional concedido a título de reserva técnica em todos os auxílios e bolsas financiados pela fundação. “Esses recursos podem e são usados para o pagamento das taxas. Além disso, existe também a modalidade de financiamento Auxílio à Pesquisa – Publicações, que pode ser usada para financiar as taxas, mediante solicitações específicas”, afirmou.

 

Diretrizes em vigor

Brito afirmou ainda que a Fapesp já tem uma norma estabelecendo que todos os resultados publicados com financiamento da fundação obrigatoriamente devem ser colocados em acesso aberto, em formato permitido pela revista científica em que o pesquisador escolhe publicar. Disse ele:

Isso não quer dizer que só possam publicar em revistas de acesso aberto, pois praticamente todas as revistas têm alguma política para facilitar que os autores publiquem os manuscritos no formato enviado à revista, ou os manuscritos revisados ou até mesmo, em certos casos, o PDF do artigo publicado. Cabe ao pesquisador escolher em que revista é melhor para seu projeto publicar e identificar qual o tipo de permissão a que tem direito e no prazo mais rápido possível tornar o trabalho disponível em um repositório institucional.

A USP, a Unicamp, a Unesp, a UFSCar, a Unifesp e outras universidades no Estado de São Paulo já têm tais repositórios, segundo Brito. “A política de disponibilização está sendo implantada há alguns anos, de forma prudente e consistente com as capacidades das instituições.”

Brito afirma que as dificuldades para o financiamento de publicações em revistas científicas de acesso aberto não estão restritas ao Brasil. “O desafio nesse assunto é mundial”. Um exemplo disso, segundo ele, é a nota publicada recentemente pela Universidade de Oxford (Reino Unido), informando que acabou o dinheiro que a instituição tinha disponível em 2018 para pagar os custos das taxas em publicações de acesso aberto.

Questionada por Direto da Ciência, a Capes alegou que a equipe responsável pelo tema estava completamente mobilizada em uma atividade. Esta reportagem será atualizada se a resposta for enviada.

Na imagem acima, logo do movimento Open Access. Imagem: Wikimedia Commons.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

>

3 Comentários

  1. Roberto Berlinck said:

    Concordo com Luís Braga. O pagamento de assinaturas que atendem a comunidade é mais barato ou mais caro do que o sistema open access? É necessário fazer esta conta. Além disso, a maioria das revistas autoriza os autores a disponibilizarem seus artigos on-line depois de um ano (12 meses). Ou seja, o que sai mais barato, de fato? Principalmente para as revistas de excelente qualidade, cujo acesso aberto é caríssimo (como das revistas da American Chemical Society: US$ 4.000,00/artigo). Considero ser mais importante fazer esta conta cuidadosamente para se investir o dinheiro de forma racional na manutenção do sistema de pesquisa e na formação de profissionais. É necessário um debate racional e desapaixonado sobre esse assunto.

  2. Luis Braga said:

    Alertei há anos atrás que isso iria acontecer com o movimento de publicações abertas. A conta não fecha, então uma editora aberta ou aumenta as taxas de publicação, ou faz um número absurdo de edições o que provoca queda de qualidade. Leia mais em “Financiar periódicos abertos ou bases abertas de periódicos pagos?” Anais A UFRJ faz 100 anos, In vol.3 pp.30-33. Disponível em: http://ufrj.br/ufrjfaz100anos

  3. Marcos Barbosa de Oliveira said:

    O tema é bem importante para os pesquisadores brasileiros, e os depoimentos muito interessantes e bem organizados. A meu ver entretanto ficou faltando uma variável na equação, a saber, o preço extorsivo cobrado pelas editoras pelo acesso a cada artigo, quando o acesso não é aberto. Valeria a pena relacionar alguns exemplos desses preços. O mais importante, contudo, é pensar se, em média, o que um pesquisador economizaria num regime de open access universal não compensaria o que tem de pagar para publicar os artigos de sua autoria.

*

Top