‘Parar desmatamento é tão urgente quanto cessar uso de combustíveis fósseis’

Antecipando-se ao relatório do IPCC, 40 cientistas alertam para risco de governos negligenciarem combate à mudança do clima

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

No próximo dia 8, segunda-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), deverá lançar seu relatório especial mostrando a situação de urgência em que se encontra o mundo para conseguir evitar o aumento de 1,5 °C da temperatura média global até o final do século. Ontem, antecipando-se ao lançamento, um grupo de 40 cientistas que têm participado do painel, divulgou um comunicado enfatizando que o papel das florestas no combate à mudança climática corre o risco de ser negligenciado pelos governos do mundo.

O comunicado foi comentado na edição de ontem do jornal britânico The Guardian. O diário destacou no título da reportagem o alerta dos cientistas de que parar o desmatamento é “tão urgente” quanto eliminar o uso de combustíveis fósseis (“Scientists say halting deforestation ‘just as urgent’ as reducing emissions”).

Desde segunda-feira (1º) cientistas e diplomatas estão reunidos na cidade de Incheon, na Coreia do Sul, para finalizar e aprovar o documento do IPCC, que deverá ser o mais impactante já elaborado pelo painel intergovernamental das Nações Unidas, como reportou Direto da Ciência na quarta-feira (“Reunião na Coreia do Sul prepara o relatório mais desafiador do IPCC”).

Os 40 pesquisadores que assinam o comunicado estão preocupados com as decisões a serem tomadas a partir do relatório do IPCC em relação ao Acordo de Paris na próxima Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP24), que será realizada em dezembro, em Katowice, na Polônia.

Entre os signatários do manifesto, estão os brasileiros Paulo Artaxo (USP), Mercedes Bustamante (UnB), Carlos Joly (Unicamp), José Marengo (Cemaden), Carlos Nobre (Inpe), Fabio Scarano (UFRJ e FBDS), Britaldo Soares Filho (UFMG) e Adalberto Luis Val (Inpa).

Veja a seguir a íntegra do comunicado.

 

Cinco razões pelas quais o clima da Terra depende das florestas

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) emitirá um novo relatório em breve sobre os impactos de 1,5 °C do aquecimento global. Limitar o aumento da temperatura média a essa variação requer a redução drástica das emissões de dióxido de carbono (CO2) e a remoção do excesso dessa substância da atmosfera. Embora estejam em desenvolvimento soluções de remoção de alta tecnologia, a “tecnologia natural” das florestas é atualmente o único meio comprovado de remover e armazenar o CO2 atmosférico em uma escala que possa contribuir significativamente para alcançar o equilíbrio de carbono.

Antes do relatório do IPCC, destacamos cinco razões, muitas vezes negligenciadas, pelas quais a limitação do aquecimento global requer a proteção e gestão sustentável das florestas que temos e a restauração daquelas que perdemos.

  1. As florestas do mundo contêm mais carbono que os depósitos exploráveis de petróleo, gás e carvão. Consequentemente, evitar as emissões de carbono florestal é tão urgente quanto interromper o uso de combustível fóssil. Pesquisas recentes sugerem que, para termos uma chance de limitar o aquecimento a 1,5 °C, não poderemos emitir mais de 750 bilhões de toneladas de CO2 no próximo séculoi. O carbono em reservas fósseis prontamente exploráveis poderia liberar 2,7 trilhões de toneladasii de dióxido de carbono até 2100. Em comparação, as florestas armazenam carbono suficiente para liberar mais de 3 trilhões de toneladasiii de CO2 se forem destruídas. E a própria mudança climática torna as florestas mais vulneráveis, inclusive a incêndios florestais incontroláveis.
  2. As florestas atualmente removem cerca de um quarto do CO2 que os humanos adicionam à atmosfera, impedindo que as mudanças climáticas piorem ainda mais. Ao destruir as florestas, não apenas emitimos dióxido de carbono, mas também perdemos o papel que as florestas desempenham, por meio da fotossíntese, ao retirar o dióxido de carbono da atmosfera. Das 39 bilhões de toneladas de CO2 que emitimos à atmosfera a cada ano, 28%iv são removidas pela terra (principalmente por florestas) e cerca de um quarto pelos oceanos. O restante fica na atmosfera. Manter e melhorar a gestão das florestas existentes é uma parte crítica da mitigação das mudanças climáticas, com benefícios adicionais substanciais, incluindo a redução da poluição do ar, a proteção contra inundações e a conservação da biodiversidade.
  3. Alcançar a meta de 1,5 °C também requer a restauração massiva de florestas para remover o excesso de dióxido de carbono da atmosfera. O reflorestamento e o melhoramento do manejo florestal juntos têm grande potencial para remover CO2 atmosférico. Essas “soluções naturais de clima” poderiam fornecer 18%v de redução de custos até 2030.
  4. A bioenergia não é a solução primáriavi. Conseguir quantidades significativas de remoção de dióxido de carbono por meio do uso de madeira para energia e capturar o carbono resultante em reservatórios geológicos requer tecnologia que não foi testada em larga escala. Em algumas áreas, como florestas tropicais de alto carbono e turfeiras – que continuamente removem carbono da atmosfera –, a conservação é a melhor opção. Os benefícios climáticos também podem vir do aumento do uso de madeira produzida de forma sustentável em produtos de vida mais longa, como construções, onde a madeira pode armazenar carbono e substituir materiais que consomem muita energia, como concreto e aço.
  5. As florestas tropicais resfriam o ar ao redor delas e de todo o planeta, além de criar a chuva essencial para o cultivo de alimentos em suas regiões e além delavii. As florestas em pé retiram a umidade do solo e liberam vapor de água para a atmosfera, regulando os padrões locais, regionais e globais de precipitação e agindo como um serviço natural de ar-condicionadoviii. Em contraste, o corte de florestas tropicais aumenta a temperatura da superfície local em até 3 °Cix. Esses efeitos de “regulação climática” das florestas tropicais tornam sua conservação essencial para proteger a segurança alimentar e hídrica.

Em suma, devemos proteger e manter florestas saudáveis para evitar mudanças climáticas perigosas e garantir que as florestas do mundo continuem a fornecer serviços essenciais para o bem-estar do planeta e para nós mesmos. As florestas de tecnologia natural contribuem para o crescimento econômico, mas, como a infraestrutura em ruínas, permitimos que as florestas sejam degradadas, mesmo sabendo que adiar a manutenção e o reparo só aumenta os custos e o risco de desastres. Ao responder ao relatório do IPCC, nossa mensagem como cientistas é simples: o clima futuro do nosso planeta está inextricavelmente ligado ao futuro de suas florestas.

  1. Paulo Artaxo, Departamento de Física, Universidade de São Paulo
  2. Gregory Asner, Departamento de Ecologia Global, Instituição Carnegie para a Ciência e Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
  3. Mercedes Bustamante, Departamento de Ecologia, Universidade de Brasília e Academia Brasileira de Ciências
  4. Stephen Carpenter, Centro de Limnologia, Universidade de Wisconsin-Madison
  5. Philippe Ciais, Laboratório de Ciências do Clima e do Ambiente, Centro de Estudos Orme des Merisiers
  6. James Clark, Escola Nicholas do Ambiente, Universidade Duke
  7. Michael Coe, Centro de Pesquisas Woods Hole
  8. Gretchen C. Daily, Departamento de Biologia e Instituto de Florestas, Universidade Stanford e Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
  9. Eric Davidson, Centro de Ciência Ambiental da Universidade de Maryland e presidente da União Geofísica Americana
  10. Ruth S. DeFries, Departamento de Ecologia, Evolução e Biologia Ambiental, Universidade Columbia e Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
  11. Karlheinz Erb, Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida, Viena (BOKU)
  12. Nina Fedoroff, Departamento de Biologia, Universidade Penn State
  13. David R. Foster, Universidade Harvard
  14. James N. Galloway, Departamento de Ciências Ambientais, Universidade da Virgínia
  15. Holly Gibbs, Centro para a Sustentabilidade e o Ambiente Global, Universidade de Wisconsin-Madison
  16. Giacomo Grassi
  17. Matthew C. Hansen, Departamento de Ciências Geográficas, Universidade de Maryland
  18. George Homberger, Instituto Vanderbilt para a Energia e o Ambiente
  19. Richard Houghton, Centro de Pesquisas Woods Hole
  20. Jo House, Instituto Cabot para o Ambiente and Departamento de Ciências Geográficas, Universidade de Bristol
  21. Robert Howarth, Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária, Universidade Cornell
  22. Daniel Janzen, Departamento de Biologia, Universidade da Pensilvânia and Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
  23. Carlos Joly, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas
  24. Werner Kurz, Canada
  25. William F. Laurance, Faculdade de Ciência e Engenharia, Universidade James Cook
  26. Deborah Lawrence, Departamento de Ciências Ambientais, Universidade da Virgínia
  27. Katharine Mach, Ciência do Sistema da Terra, Universidade Stanford
  28. José Marengo, Centro Nacional de Monitoramento e Prevenção de Desastres Naturais (Cemaden, Brasil)
  29. William R. Moomaw, Instituto do Desenvolvimento Global e do Meio Ambiente, Universidade Tufts, e Global Development and Environment Institute, Tufts University and Board Chair do Centro de Pesquisas Woods Hole
  30. Jerry Melillo, Laboratório de Biologia Marinha, Universidade de Chicago 
  31. Carlos Nobre, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo and Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
  32. Fabio Scarano, Instituto de Biologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Fundação Brasileira do Desenvolvimento Sustentável (FBDS) 
  33. Herman H. Shugart, Departamento de Ciências Ambientais, Universidade da Virgínia
  34. Pete Smith, FRS, FRSE, Universidade de Aberdeen, Reino Unido
  35. Britaldo Soares Filho, Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais 
  36. John W. Terborgh, Escola Nicholas do Ambiente, Universidade Duke
  37. G. David Tilman, Faculdade de Ciências Biológicas, Universidade de Minnesota 
  38. Adalberto Luis Val, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) 
  39. Louis Verchot, Centro Internacional para Agricultura Tropical CIAT) 
  40. Richard Waring, Departamento de Ecossistemas Florestais e Sociedade, Universidade Estadual do Oregon

Os pontos de vista são expressos pelos signatários como indivíduos e não podem ser considerados como posições oficiais de suas respectivas instituições.

i Millar, R. J., Fuglestvedt, J. S., Friedlingstein, P., Rogelj, J., Grubb, M. J., Matthews, H. D., … & Allen, M. R. (2017). Emission budgets and pathways consistent with limiting warming to 1.5 C. Nature Geoscience, 10(10), 741. Goodwin, P., Katavouta, A., Roussenov, V. M., Foster, G. L., Rohling, E. J., & Williams, R. G. (2018). Pathways to 1.5 C and 2 C warming based on observational and geological constraints. Nature Geoscience, 11(2), 102. Tokarska, K. B., & Gillett, N. P. (2018). Cumulative carbon emissions budgets consistent with 1.5 °C global warming. Nature Climate Change, 8(4), 296. Estas fontes recentes usam diferentes métodos estatísticos e anos-base, resultando em estimativas medianas de 200-208 GtC (733-663 GtCO2) restantes a partir de 2016 ou 2017 para uma probabilidade de 50% a 66% de 1,5 °C.
ii Heede, Richard and Naomi Oreskes (2016). Potential emissions of CO2 and methane from proved reserves of fossil fuels: An alternative analysis. Global Environmental Change 36 (2016) 12-20.
iii Pan, Y., Birdsey, R.A., Fang, J., Houghton, R., Kauppi, P.E., Kurz, W.A., Phillips, O.L., Shvidenko, A., et al. (2011). A large and persistent carbon sink in the world’s forests. Science 333, 988–993; Pan, Y., Birdsey, R.A., Phillips, O.L., Jackson, R.B. (2013). The structure, distribution, and bio mass of the world’s forests. Annu. Rev. Ecol. Evol. Syst. 44, 593–622.
iv Le Quéré, C. et al (2018). Global carbon budget 2017. Earth System Science Data, 10, 405-448. https://www.earth-syst-sci-data.net/10/405/2018/.
v Calculado de Griscom et al (2017). Natural climate solutions (Supplementary Information). Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A., 114, 11645–11650, doi:10.1073/pnas.1710465114. As categorias incluídas no potencial de mitigação de 18% (do cenário de custo limitado a 2 ºC) incluem reflorestamento, manejo de florestas naturais, melhoramento de plantações, restauração de manguezais, restauração de turfeiras (assumindo que grande parte foi ou é florestada), árvores em terras cultiváveis ​​e biocarvão. Supõe-se que todas as soluções de clima natural aumentem na mesma proporção.
vi Field, C. and Mach, K. (2017). Rightsizing carbon dioxide removal: Betting the future on planetary-scale carbon dioxide removal from the atmosphere is risky. Science, Vol 356 issue 6339; Heck, V., Gerten, D., Lucht, W. and Popp, A., 2018. Biomass-based negative emissions difficult to reconcile with planetary boundaries. Nature Climate Change, p.1; Anderson, K. and Peters, G. (2016). The trouble with negative emissions. Science, Vol. 354, Issue 6309; Turner, P.A., Mach, K.J., Lobell, D.B. et al. (2018). The global overlap of bioenergy and carbon sequestration potential. Climatic Change (2018) 148: 1.
vii Lawrence, D. and Vandecar, K., 2015. Effects of tropical deforestation on climate and agriculture. Nature Climate Change, 5(1), p.27.
viii Ellison et al (2017). Trees, forests and water: Cool insights for a hot world. Global Environmental Change, Vol. 43, Pages 51-61.
ix Silvério, D.V., P.M. Brando, M.N. Macedo, P.S.A. Beck, M. Bustamante, and M.T. Coe (2015). Agricultural expansion dominates climate changes in southeastern Amazonia: The overlooked non-GHG forcing, Env. Res. Lett., 10, 104105, doi: 10.1088/1748-9326/10/10/104015; Coe, M.T., P.M. Brando, L.A. Deegan, M.N. Macedo, C. Neill, and D.V. Silvério (2017). The forests of the Amazon and Cerrado moderate regional climate and are the key to the future of the region. Trop. Consv. Sci., 10, 6pp., DOI: 10.1177/1940082917720671.

Na imagem acima, área de floresta desmatada e queimada na Amazônia brasileira. Foto: Arquivo/Agência Brasil

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