Editoras científicas tentam se adaptar à expansão do acesso aberto

Principal aposta dos publishers para transição, revistas híbridas são alvo de críticas da comunidade acadêmica

FÁBIO DE CASTRO

Com a recente decisão de 11 países europeus de, a partir de 2020, só financiar estudos publicados em periódicos de acesso aberto, algumas das grandes editoras de periódicos científicos já reconhecem que o estabelecimento de um novo paradigma de editoração acadêmica é inevitável, alegam apoio à causa e começam a mudar seus modelos de negócios.

No entanto, especialistas que defendem o modelo Open Access – no qual não há cobrança pelo acesso aos conteúdos dos periódicos acadêmicos – vêm com desconfiança a boa vontade das empresas e criticam as alternativas que elas propõem para uma transição.

Embora a campanha pelo fim do “paywall” das publicações científicas já exista há anos, o sinal de alerta das grandes editoras se acendeu no início de setembro, quando foi lançada a força-tarefa para o Plano S por agências de fomento à pesquisa e governos da Áustria, Eslovênia, França, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Polônia, Reino Unido e Suécia (“Em 11 países europeus, só terão recursos estudos publicados em acesso aberto”).

 

Verde e dourado

A Elsevier, uma das maiores editoras comerciais do mundo, reconhece o crescente movimento pelo acesso aberto e afirma apostar na variedade de modelos de publicação para suprir essas demandas.

“O que nós estamos vendo globalmente é que nossos clientes – que são pesquisadores, instituições científicas, órgãos de financiamento e consórcios de pesquisa – querem ter à disposição diferentes abordagens para o acesso aberto. Nós damos todo apoio ao acesso aberto e é isso que estamos oferecendo”, disse a Direto da Ciência a diretora da área de Ciência Aberta da Elsevier, Gemma Hersh.

Segundo Gemma, as abordagens de acesso aberto oferecidas pela Elsevier, para que a editora se adapte à nova realidade, envolvem o “acesso aberto verde” e o “acesso aberto dourado”. Na primeira modalidade, o artigo é publicado em uma revista com assinatura paga, mas depois da publicação uma versão é lançada em um repositório institucional de acesso aberto.

 

Modelo híbrido

Já nas revistas de “acesso aberto dourado”, o autor paga pela publicação, mas o artigo fica imediatamente acessível, gratuitamente e sem restrições. A Elsevier possui também revistas híbridas, que cobram pela assinatura, mas dispõem de algumas seções de acesso totalmente gratuito.

“Enquanto alguns preferem pagar para distribuir suas pesquisas globalmente por meio do acesso aberto dourado, outros preferem continuar publicando sob o modelo de assinatura e buscar a rota do acesso aberto verde. Apoiamos fortemente o acesso aberto e temos opções disponíveis de acesso aberto verde e dourado em todas as nossas publicações”, afirmou Gemma.

A Elsevier já é a líder mundial em publicações de acesso aberto verde, segundo Gemma. Segundo ela, a editora possui ainda 170 títulos de acesso totalmente aberto e 1.850 revistas híbridas. E acrescentou:

Estamos liderando as publicações de acesso aberto verde no mundo. Nosso foco é fornecer aos autores a escolha para satisfazer todas as necessidades dos nossos clientes e continuar oferecendo opções de publicação de alta qualidade em ambos os modelos.

 

Lucro de 35% a 40%

O apoio declarado das grandes editoras comerciais às alternativas de acesso aberto, porém, está longe de ser convincente para parte comunidade acadêmica. Professor da Universidade Clarkson em Potsdam, em Nova York, Jason Schmitt criticou duramente as empresas, no início de setembro, logo após o lançamento de seu documentário sobre o movimento pelo acesso aberto, intitulado “Paywall – The Business of Scholarship”.

“A Elsevier está para o acesso aberto assim como o McDonalds está para a comida saudável”, disse Schmitt em reportagem publicada na Science em setembro. De acordo com a matéria, ele prevê que quase todas as revistas de alta qualidade terão acesso livre dentro de uma década, mas acrescenta que nos EUA muitas universidades estão negociando separadamente com as editoras e, por isso, o país está atrasando o movimento pelo acesso aberto (“Documentary puts lens on the open-access movement upending scientific publishing”).

“Eu não acho certo que as editoras consigam margens de lucro de 35% a 40%. O conteúdo é fornecido a eles de graça pelos acadêmicos”, disse Schmitt à Science. De acordo com o produtor do documentário – que tem acesso livre no youtube –, as editoras comerciais lucram cerca de US$ 25,2 bilhões por ano e a maior delas, a Elsevier, tem margens de lucro maiores que empresas como Apple, Facebook e Google.

A Elsevier não comenta suas margens de lucro, mas dados publicados pela revista The Higher Times Education (THE) em fevereiro deste ano indicam que a editora teve lucro recorde em 2017, de 913 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 4,4 bilhões), e as margens de lucro se já se aproximavam dos 40% (“Elsevier’s profits swell to more than £900 million”).

A The Higher Times Education destacou também que a publicação dos resultados financeiros da RELX, empresa que controla a Elsevier, no início do ano, foi acompanhada de uma seção que apontava os “principais riscos” para o negócio de publicações científicas. Segundo o comunicado da RELX,

Há um contínuo debate em comunidades do governo, da academia e das bibliotecas que são os principais clientes de nosso conteúdo científico, sobre em que medida esse conteúdo deve ser modificado para ser financiado por taxas pagas cobradas dos autores ou ficarem disponíveis gratuitamente de alguma forma algum tempo após a publicação. Alguns desses métodos, se amplamente adotados, podem afetar adversamente nossa renda com assinaturas.

 

Transicão ‘sustentável’

Procurada por Direto da Ciência, a Springer Nature, respondeu com termos que já haviam sido divulgados em uma nota oficial na qual afirmou dar apoio total ao movimento do acesso aberto às publicações científicas e diz ser o responsável por quase um terço dos artigos publicados nessa modalidade na Europa. Na nota, o grupo editorial afirma:

A Springer Nature entende a necessidade de um movimento mais rápido em direção ao ponto no qual a pesquisa financiada com recursos públicos esteja disponível abertamente no momento da publicação e nós fizemos mais que qualquer outra editora para tornar isso uma realidade.
Como a maior de todas as editoras de acesso aberto, nós já oferecemos opções de acesso aberto em mais de 2.500 revistas e temos cerca de 600 revistas de acesso exclusivamente aberto. Somos responsáveis por cerca de 30% de todos os artigos imediatamente acessíveis em acesso aberto.

A editora, porém, afirmou que a transição para o acesso aberto deve ser feita de maneira sustentável, para proteger “a independência acadêmica e a escolha do autor, em nível global, permitindo que as editoras continuem a fornecer os serviços de que a comunidade acadêmica necessita”. E a principal ferramenta para essa transição são as revistas híbridas, como afirmou a Springer Nature a seguir.

A pesquisa, e a comunicação de seus resultados, é global e requer que as editoras forneçam uma variedade de opções para os pesquisadores. As revistas híbridas sustentam a transição em direção ao acesso aberto total. Isso é demonstrado pelos acordos que permitiram que mais de 70% dos autores da Springer Nature em quatro países europeus tenham podido deixar suas pesquisas disponíveis imediatamente após a publicação.

 

Rejeição às híbridas

O papel das revistas híbridas nessa transição, entretanto, é no mínimo controverso. Para pesquisadores envolvidos com o movimento pelo acesso aberto, as publicações híbridas não contribuem para o fim do “paywall” científico.

Pierre Mounier, diretor do Open Edition, uma das principais plataformas de revistas de acesso aberto da França, também critica as revistas híbridas. Ele afirma que elas são de fato uma tentativa de adaptação das grandes editoras a uma inevitável mudança de paradigmas, mas alerta: essa opção também não salvará o modelo de negócios dessas empresas. Segundo Mounier,

Desde que o movimento pelo acesso aberto começou a se tornar realmente importante, os editores comerciais passaram a se adaptar e uma das principais respostas foi o investimento em revistas híbridas. Mas na Europa temos um forte movimento de rejeição a esse tipo de revista, porque ele implica em um grave problema de transparência. Por isso no Plano S há uma rejeição muito explícita às revistas híbridas.

O principal motivo para a rejeição das revistas híbridas, segundo Mounier, é o chamado “double dipping”, que consiste em receber recursos de duas fontes exclusivas. “Não há transparência e não sabemos exatamente se as taxas pagas pelos pesquisadores para publicar em revistas híbridas fazem baixar os preços das assinaturas. Provavelmente as editoras ganham dos dois lados, maximizando seus interesses de uma forma dificilmente controlável.”

Na Europa, os defensores do acesso aberto estão tentando coordenar esforços para realizar uma negociação em nível global entre os consórcios de bibliotecas dos países e os editores, com o objetivo de conseguir uma virada mundial para um sistema aberto, segundo Mounier, que acrescentou:

As revistas híbridas foram apenas a primeira reação das empresas diante do novo contexto. Não serão elas que irão salvar o modelo de negócios dessas empresas e elas sabem disso. Elas compreenderam que o negócio da publicação acabou e já estão procurando novos caminhos, transferindo suas atividades da publicação para outros serviços que envolvem métrica científica, agregação de dados, informação acadêmica e assim por diante.

 

Reação ao Plano S

A Springer Nature não negou que busca uma mudança em seu modelo de negócios, mas insistiu que continuará apostando nas revistas híbridas. Embora diga que apoia o movimento pelo acesso aberto, a editora criticou o Plano S e disse ver como um problema que os pesquisadores, para obter financiamentos públicos, fiquem proibidos não apenas de publicar nos periódicos pagos, mas também nos periódicos híbridos.

Nós apelamos às agências de financiamento de pesquisa que se alinhem, em vez de agir em pequenos grupos incompatíveis uns com os outros e pedimos aos tomadores de decisão que levem em conta a visão global que temos do processo. A proposta anunciada na Europa, que retira as revistas híbridas e pagas das opções para pesquisadores financiados pelas organizações envolvidas, não leva isso em conta.

Ao ser questionada especificamente sobre a rejeição das revistas híbridas pelos pesquisadores por conta da falta de transparência, a Springer Nature respondeu:

Desde 2010 nós temos colocado em ação políticas para garantir que não haja “double-dip” em nossas receitas com acesso aberto e com assinaturas. Nossos preços de assinatura se baseiam exclusivamente na assinatura do conteúdo e o aumento da fatia do conteúdo de acesso aberto não se reflete nesses preços.

A editora afirmou também que revistas altamente seletivas com assinatura paga, como a Nature, atualmente só sobrevivem porque, contando com poucos autores, distribuem seus custos entre um grande número de leitores.

Por sua vez, a Elsevier disse que também tem políticas contra o “double dipping”, que consiste em “não cobrar assinantes por artigos de acesso aberto e, no momento de calcular os preços de assinaturas, levar em conta apenas os artigos por assinantes – nós não fazemos cobrança dupla.” E acrescentou:

Nós não contamos os artigos de acesso aberto quando estabelecemos os preços de assinatura para nossos títulos. Os preços de assinatura, portanto, não são afetados pelo volume de artigos em acesso aberto publicados na revista.

Procuradas por Direto da Ciência, as editoras Wiley e Taylor & Francis não responderam aos questionamentos enviados.

Na imagem acima, tela de abertura do documentário “Paywall – The Business of Scholarship”. Imagem: Reprodução.

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