Estudo aponta ‘autoria fantasma’ de indústrias farmacêuticas em testes clínicos

Omissão de envolvimento de empresas na maior parte das análises pode comprometer credibilidade, alertam especialistas

FÁBIO DE CASTRO

Uma parte considerável dos testes clínicos financiados pela indústria farmacêutica tem profundo envolvimento das empresas nas pesquisas, mas essa participação muitas vezes não é revelada quando os resultados são divulgados. A conclusão é de um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) repercutido na semana passada na seção de notícias do periódico Nature.

No estudo, a equipe liderada pela pesquisadora Kristine Rasmussen, do Centro Nórdico Cochrane, em Copenhague, na Dinamarca, vasculhou sete revistas científicas de alto impacto e nelas selecionou para a análise os 200 testes clínicos mais recentes para drogas, vacinas ou equipamentos médicos, entre os que estavam em fase 3 ou 4 de desenvolvimento (“Collaboration between academics and industry in clinical trials: cross sectional study of publications and survey of lead academic authors”, BMJ, 3/out).

Os resultados mostraram que tanto a academia como a indústria contribuíram para o desenho e divulgação de resultados da maior parte dos testes. No entanto, em menos da metade deles (40%), houve participação de pesquisadores acadêmicos no momento de análise de dados, enquanto as empresas financiadoras estavam envolvidas em 73% dos casos.

 

Contribuições não declaradas

Dentre os 200 testes clínicos avaliados, 87% tinham membros das empresas entre os autores, 92% documentaram o envolvimento dos financiadores no design do estudo e 84% reportaram o envolvimento de autores acadêmicos. Já a divulgação dos dados envolveu os financiadores em 87% dos casos e, os autores acadêmicos, em 99%.

Cerca de 40% dos autores acadêmicos dos 200 artigos que descreviam testes clínicos também responderam questionários sobre sua experiência de trabalho em parceria com a indústria. Dos que responderam, 21% indicaram que a empresa financiadora se envolveu no desenho, análise ou comunicação dos resultados de alguma maneira que não foi declarada nos artigos.

À Nature, Kristine afirmou que essa “autoria fantasma” das empresas pode ser ainda mais frequente do que o revelado por seu estudo, já que os autores acadêmicos tiveram um papel relativamente pequeno nos testes clínicos e muitas vezes podem desconhecer a extensão do envolvimento da indústria (“Ghost authorship haunts industry-funded clinical trials”, Nature, 9/out).

As contribuições não declaradas das empresas tiveram “um registro incrivelmente impreciso”, segundo Kristin. “O papel dos financiadores foi frequentemente subestimado e até mesmo omitido nas publicações e os funcionários das empresas raramente eram autores principais, embora tenham participado de cada um dos estágios dos testes”, disse a pesquisadora à Nature.

 

Propósitos comerciais

“Esses resultados não surpreendem. Eu creio que a autoria fantasma em estudos randomizados financiados pela indústria farmacêutica é muito comum. Muitas vezes serve a propósitos comerciais e não segue com o necessário rigor as diretrizes existentes”, disse a Direto da Ciência o pesquisador Luiz Carlos Dias, professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que tem na química medicinal uma de suas especialidades.

Segundo Dias, além dos conflitos de interesses e das questões éticas relacionadas a propósitos comerciais, a “autoria fantasma” também gera um grave problema científico, pois a falta de transparência sobre a origem dos dados dificulta uma das principais garantias de confiabilidade do método científico: a replicação dos resultados por outros cientistas. Para ele, todos os protocolos e dados brutos dos ensaios cínicos deveriam ser disponibilizados publicamente para análise e interpretação independentes.

“Não ter acesso transparente aos protocolos de uma pesquisa é algo que dificulta muito a reprodutibilidade dos resultados. Certamente, seria necessário listar as contribuições de todos os autores, incluindo os estatísticos que analisaram os dados, assim como os protocolos que os estatísticos e autores utilizaram”, afirmou Dias.

 

Credibilidade em jogo

Quando a “autoria fantasma” compromete a transparência de uma pesquisa, ela também ameaça a própria credibilidade da ciência, na opinião do médico oncologista Ricardo Marques, que atua na Rede D’Or e na Clínica Onco Star. Marques teve ampla experiência em pesquisa clínicos durante sua formação no Canadá e, depois, no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), onde coordenou o Grupo de Câncer de Mama.

“Esses resultados revelam uma ausência completa de transparência entre os laboratórios e os autores acadêmicos. Quando o pesquisador aceita a ‘autoria fantasma’, ele abre mão de sua liberdade científica em favor de interesses da indústria farmacêutica e não há dúvida de que a credibilidade fica abalada”, afirmou Marques.

O pesquisador destacou, por outro lado, que a indústria farmacêutica tem um papel fundamental em avanços no desenvolvimento de novas drogas e terapias e é responsável por um enorme aumento na qualidade de vida dos pacientes, especialmente na oncologia.

“Não podemos demonizar a indústria, nem invalidar sua importante contribuição. A indústria contrata gente de nível muito alto para os testes, eventualmente laureados do prêmio Nobel e faz estudos sérios. Não há a menor possiblidade de prescindir da indústria para o avanço da medicina. Mas, dito isso, vale destacar que a transparência é absolutamente necessária.”

 

Alertas anteriores

A reportagem na Nature e o estudo no BMJ não foram a primeira indicação da falta de transparência nos testes financiados pela indústria, segundo Marques. Ele afirma que artigos recentes no Journal of the American Medical Association (JAMA) e no JAMA Oncology já haviam apontado a precariedade da divulgação dos métodos utilizados em testes clínicos feitos pela indústria.

“A matéria na Nature tem um peso muito grande, porque é uma das revistas de maior confiabilidade científica. O problema que ela revela, porém, já tem sido debatido pela comunidade científica há algum tempo. É um contexto grave, que inclui o escândalo recente que levou à demissão o diretor de oncologia do importante Memorial Hospital, nos Estados Unidos, por falta de transparência na relação com a indústria, incluindo omissão de informações ganhos financeiros não declarados”, disse (“Top Sloan Kettering Cancer Doctor Resigns After Failing to Disclose Industry Ties”, The New York Times, 13/set).

 

‘Desserviço à ciência’

Ao omitir sua contribuição nos testes clínicos com a prática da “autoria fantasma”, a indústria farmacêutica procura dar uma aparência mais isenta aos resultados, segundo Marques, mas o resultado pode ser justamente o contrário do desejado.

“Não há como classificar de outra forma: é burrice. Porque ao sacrificar a transparência para que os resultados pareçam mais confiáveis, a indústria acaba alimentando a médio prazo nossa suspeita, como cidadãos, de que nenhum resultado é confiável. É um desserviço à ciência”, disse.

A razão para que a indústria omita sua participação em testes clínicos pode ter relação com o mercado financeiro, na visão de Marques. Segundo ele, análises feitas por economistas ligados à Escola de Chicago – corrente que tem estudado profundamente a indústria farmacêutica e a formação dos preços dos fármacos –, sugerem que o interesse é aumentar os valores das ações das empresas na bolsa de valores.

“Quando determinado resultado parece promissor, a empresa sinaliza ao mercado que está indo no caminho certo e, pelo menos nesse momento, o valor intrínseco da companhia aumenta, refletindo no valor das ações, ainda que os resultados sem mostrem ruins dentro de 10 anos”, explicou.

 

Interesse no rigor

Questionada por Direto da Ciência, a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), que reúne mais de 50 empresas nacionais e internacionais do setor atuantes em pesquisa, não comentou os casos de “autoria fantasma” mencionados no estudo, mas afirmou afirmou que a falta de transparência não é do interesse das companhias.

“Qualquer imprecisão em dados científicos apresentados por uma indústria farmacêutica inevitavelmente comprometeria a sua credibilidade. Portanto, é de interesse de todo laboratório privado consolidado no mercado tratar com o mais alto rigor todo o processo de investigação e descobertas científicas”, afirmou a Interfarma por meio de nota.

Segundo a associação, é comum a participação de cientistas da indústria farmacêutica em pesquisas patrocinadas por laboratórios privados, realizadas em parceria com outras instituições.

“Isso acontece porque esses profissionais são altamente qualificados, possibilitando assim contribuições significativas nos complexos desafios da investigação científica. Essa união de esforços é fundamental na busca por novos tratamentos, tendo em vista os enormes obstáculos que a ciência precisa superar e a necessidade sempre urgente do paciente em aplacar a sua dor e combater a sua enfermidade”, declarou a Interfarma.

Em média, cerca de 10 mil fórmulas são investigadas durante 10 anos para que apenas um medicamento se mostre eficiente e seguro o suficiente para ser levado ao mercado, e aproximadamente US$ 1 bilhão é investido com essa finalidade , segundo a Interfarma.

 

‘Dupla garantia’

“Profissionais renomados, frequentemente ligados à instituições de ensino, e centros de pesquisa notórios são comumente selecionados para investigarem novos tratamentos. A reputação do cientista, no papel de Investigador Principal, bem como o rigor dos principais complexos de estudos representam uma dupla garantia acerca da confiabilidade dos dados apurados”, afirmou a associação.

A Interfarma destacou também a importância da transparência dos dados para a própria indústria e sugere que o próprio sistema de pesquisa e desenvolvimento garante a confiabilidade dos testes clínicos.

“Dados científicos precisos e confiáveis são essenciais para que a indústria farmacêutica tome as suas decisões estratégicas ligadas ao processo de inovação e na avaliação das necessidades dos pacientes. A investigação científica não se encerra quando o tratamento chega ao mercado. Ao contrário, ela tende a aumentar, devido à farmacovigilância exercida por agências reguladoras e aos demais laboratórios, que se debruçam sobre as mesmas descobertas para que novos avanços sejam realizados.”

Na imagem acima, medicamentos. Foto: Pxhere, sob licença Creative Commons.

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