Cientistas endossam notícia sobre impacto do consumo de carne sobre o clima

Rede de pesquisadores que checam reportagens sobre aquecimento global aponta como ‘precisa’ matéria do jornal The Guardian

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A rede Climate Feedback, formada por cientistas dedicados a verificar a veracidade de notícias relacionadas ao aquecimento global, concluiu que foi correta uma recente reportagem do jornal britânico The Guardian sobre a necessidade de reduzir o consumo de carne no esforço para manter o equilíbrio do clima. Dois pesquisadores convidados pelo grupo analisaram a matéria “Grande redução no consumo de carne é ‘essencial’ para evitar o colapso do clima” e a consideraram sua credibilidade científica como “alta” a “muito alta”.

Publicada no dia 10, a reportagem, de autoria de Damian Carrington, editor de meio ambiente do Guardian, teve grande repercussão internacional. Na mesma linha de sua chamada principal, seu subtítulo foi “Estudo importante descobre também que grandes mudanças na agricultura são necessárias para evitar a destruição da capacidade da Terra de alimentar sua população”.

A matéria afirmou que para evitar o mudanças climáticas perigosas, o consumo de carne bovina nos países ocidentais precisa cair 90% e ser substituído por cinco vezes mais grãos e leguminosas, segundo o estudo mais abrangente já realizado sobre o assunto. E acrescentou:

A produção de alimentos já causa grandes danos ao meio ambiente por meio de gases de efeito estufa provenientes da pecuária, desmatamento e escassez de água da agricultura, além de vastas zonas mortas oceânicas devido à poluição agrícola. Mas, sem uma ação, seu impacto ficará ainda pior à medida que a população mundial aumentar em 2,3 bilhões de pessoas até 2050 e a renda global triplicar, permitindo que mais pessoas comam dietas ocidentais ricas em carne.

 

Fonte de informação

A reportagem interpretou resultados do estudo “Opções para manter o sistema alimentar dentro dos limites ambientais”, que havia sido publicado também no dia 10 pela revista científica Nature. Baseada em cerca de 80 trabalhos anteriores, a pesquisa foi realizada por 23 cientistas da Alemanha, Austrália, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Itália, Líbano, Noruega, Reino Unido e Suécia.

Para analisar a reportagem, a Climate Feedback convidou Corné van Dooren , pesquisador do Centro de Nutrição da Holanda, e Arnold Tukker, professor da Universidade de Leiden, do mesmo país. Ambos concluíram que o estudo é convergente com o relatório do IPCC sobre a necessidade de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 °C desde o início da era industrial. Eles destacaram a seguinte conclusão da pesquisa:

A diminuição da perda de alimentos e mudanças comportamentais e de desperdício em dietas poderiam levar a opções efetivas de mitigação e adaptação (de alta confiança), reduzindo tanto as emissões como a pressão sobre a terra, e com benefícios significativos para a segurança alimentar, a saúde humana e o desenvolvimento sustentável, mas a evidência de políticas bem sucedidas para modificar as escolhas alimentares permanece limitada.

Ainda sobre a pesquisa, a Climate Feedback, em seu post “Reportagem do Guardian descreve com precisão o estudo sobre os impactos ambientais do nosso sistema alimentar”, afirmou:

O  estudo examina possíveis mudanças, inclusive a redução do consumo de carne vermelha (que tem uma grande pegada de gás de efeito estufa e pegada hídrica) e a redução da quantidade de comida que estraga antes de poder ser consumida.

 

Notícia velha

Van Dooren e Tukker, que examinaram a reportagem do Guardian, concluíram que ela descreveu com precisão as conclusões do estudo. Segundo a Climate Feedback, a maioria dos revisores de sua equipe qualificou a matéria como , e .

Referindo-se à expressão “evitar o colapso climático” (avoid climate breakdown) no título da reportagem, Van Dooren afirmou:

Mesmo quando o consumo de carne é reduzido, o efeito climático ocorrerá. E “evitar a destruição” no subtítulo é muito forte. Os autores afirmam que uma combinação de medidas será necessária para mitigar suficientemente o aumento projetado nas pressões ambientais.

Por sua vez, Tukker fez o seguinte comentário.

Se eu tenho alguma crítica é que é uma notícia velha. Mostrou-se zilhões de vezes que a redução de carne e laticínios reduziu os problemas das mudanças climáticas.

Na imagem acima, peças de bistecas bovinas (T-bones). Foto: Jon Sullivan, sob licença Creative Commons via Wikimedia Commons.

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