Base de dados reúne 18 mil artigos científicos ‘despublicados’ desde 1970

Retraction Watch Database é o maior acervo digital do mundo sobre periódicos retratados, segundo a revista Science

FÁBIO DE CASTRO

O site Retraction Watch lançou na quinta-feira (25) sua base de dados com mais de 18 mil artigos científicos retratados por revistas científicas por erros graves ou fraudes. Segundo a revista Science, o acervo digital, que permite buscas online sobre estudos “despublicados” desde 1970, é o maior e mais completo levantamento desse tipo.

O Retraction Watch foi fundado em 2010, em Nova York, nos Estados Unidos, pelos jornalistas Ivan Oransky e Adam Marcus com o objetivo de monitorar retratações para compreender melhor o crescimento perceptível de ocorrências na época. Segundo a Science, naquele momento o número de “despublicações” havia aumentado 10 vezes em relação à década anterior.

Uma versão beta da base de dados foi lançada em 2016, com apoio da Fundação John e Catherine MacArthur, de Chicago, e da Fundação Laura e John Arnold, de Houston. Agora, o site lança uma versão completa da Retraction Watch Database, totalmente aberta ao público.

Em parceria com o Retraction Watch, a Science lançou, também na quinta-feira, uma série de reportagens e infográficos feitos a partir da base de dados do site (“What a massive database of retracted papers reveals about science publishing’s ‘death penalty’”).

 

Aumento de casos

A Science publicou também uma análise baseada em cerca de 10.500 dos artigos retratados. De acordo com a revista, a avaliação mostrou que o número de retratações continuou a crescer nos últimos anos, mas também revelou que a tendência de aumento pode ter cessado recentemente. “O aumento das retratações parece refletir não tanto uma epidemia de fraude, mas uma comunidade tentando policiar a si mesma”, diz a revista.

Segundo a análise, o número de retratações, que não chegava a 100 por ano antes do ano 2000, aumentou para quase mil por ano até 2014. Porém, embora o aumento do número anual absoluto de “despublicações” por ano tenha crescido, ele parece cada vez menos acelerado. “Embora a taxa tenha praticamente dobrado entre 2003 e 2009, ela permaneceu estável a partir de 2012”, diz a Science. A revista destaca ainda que a tendência também foi influenciada pelo aumento do número total de artigos científicos publicados anualmente, que dobrou entre 2003 e 2016.

O número de revistas científicas que registraram artigos “despublicados” também cresceu. Se em 1997 apenas 44 revistas relataram retratações, em 2016 a cifra aumentou mais de dez vezes para 488. Por outro lado, entre aquelas que removeram pelo menos um artigo por ano, o número médio de retratações por periódico permaneceu estável a partir de 1997. “Esse padrão sugere que as revistas estão, coletivamente, fazendo mais para policiar os artigos”, disse Daniele Fanelli, especialista em métodos de pesquisa da London School of Economics, no Reino Unido, em entrevista à Science.

 

Campeões de retratações

Apenas 500 dos mais de 30 mil autores cujos nomes aparecem na base de dados – que inclui a identificação de coautores – foram responsáveis por cerca de um quarto dos 10,5 mil artigos retratados analisados. “Uma centena desses autores têm 13 ou mais retratações cada. Essas remoções são normalmente resultado de má conduta deliberada, não de erros”, diz a revista.

A “despublicação” de artigos, porém, nem sempre é sinal de má conduta científica, segundo a Science, embora muitos cientistas e o público tendam a pressupor que a retratação é sinônimo de fraude. “A base de dados inclui uma detalhada taxonomia das razões para as retratações, extraídas das notificações de retratação. Em geral, cerca de 40% das notificações não mencionam fraude ou outros tipos de má conduta e indicam que os artigos foram retratados por causa de erros, problemas de reprodutibilidade e outras questões.”

Cerca de metade de todos os artigos “despublicados” parecem envolver “fabricação, falsificação ou plágio – comportamentos que se encaixam na definição do governo americano para má conduta científica”, diz a Science.

Outros 10% se encaixam em comportamentos que são amplamente vistos como desonestos e antiéticos, mas que não se encaixam na definição de má conduta científica. “Esses comportamentos incluem autoria forjada, falsa revisão por pares e fracasso na obtenção de aprovação de paineis de revisão institucionais para pesquisas em animais ou pacientes humanos”, afirma a Science.

Na imagem acima, logo do site Retraction Watch.

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