Bacia do Xingu teve 150 milhões de árvores derrubadas em 2018

Na região foram desmatados 100 mil hectares, inclusive em terras indígenas e em unidades de conservação, segundo o Instituto Socioambiental

FÁBIO DE CASTRO

De janeiro a setembro deste ano já foram derrubadas cerca de 150 milhões de árvores na Bacia do Xingu, numa área de 100 mil hectares de florestas totalmente devastada, segundo um sistema de monitoramento operado pelo Instituto Socioambiental (ISA).

A Bacia do Xingu abrange 51 milhões de hectares nos estados do Pará e do Mato Grosso. Desse total, 27 milhões de hectares correspondem ao Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental, que agrega 21 terras indígenas (TIs) e dez unidades de conservação (UCs).

Dos mais de 100 mil hectares de florestas devastados entre janeiro e setembro, 32 mil estão nessas áreas protegidas.

A região sofre forte pressão com o avanço da fronteira agropecuária, a exploração ilegal de madeira, a expansão do garimpo e a grilagem de terras, segundo o coordenador do Programa Xingu, do ISA, Rodrigo Junqueira, que afirmou:

Em anos eleitorais sempre há um aumento relativo da pressão por recursos naturais. Outro fator que pode ter contribuído para o avanço do desmatamento no Xingu é que que essas áreas estão de certa forma em disputa. Já existe há algum tempo uma expectativa de que a legislação ambiental possa ser afrouxada, o que estimula a ação dos atores envolvidos com o desmatamento.

 

Declínio da fiscalização

Outro fator que pode ter contribuído para intensificar a destruição é um recuo das ações dos órgãos de fiscalização, segundo Junqueira. “Esses órgãos têm pessoas bastante comprometidas com a conservação, mas, a partir da mudança de governo, houve um desmonte silencioso e as operações passaram a não ser tão frequentes”, disse.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), principal órgão federal de fiscalização, negou reduções nas operações contra o desmatamento, mas não quis comentar os números.

Junqueira afirma que há grande preocupação entre os ambientalistas sobre um possível desmantelamento do sistema de fiscalização na próxima gestão e defende o fortalecimento do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “O fortalecimento desses órgãos é essencial para garantir a integridade das áreas protegidas e principalmente das populações que vivem nesses territórios”, disse.

Em manifesto divulgado em 19 de outubro, um conjunto de redes e organizações da sociedade civil alertou para os perigos do enfraquecimento ou extinção dos órgãos ambientais. (Confira o texto “Desvalorizar o meio ambiente é um risco para todo brasileiro”.)

Indígenas, ribeirinhos e seus parceiros vem denunciando as atividades ilegais e pedem ações mais efetivas dos órgãos ambientais de fiscalização e proteção, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

Novo monitoramento

Desde janeiro o ISA monitora mensalmente o desmatamento no Xingu, utilizando o Sistema de Indicação por Radar de Desmatamento (Sirad X). O sistema consiste em uma série de algoritmos que processam as informações do satélite Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia (ESA).

O radar orbital desse satélite é capaz de detectar o desmatamento mesmo nas temporadas de chuvas. Os desmatadores tradicionalmente atuam nesse período, quando a floresta está coberta por nuvens, para escapar da fiscalização.

Como o monitoramento começou no início de 2018, não é possível determinar se houve aumento do desmatamento na Bacia do Xingu em relação a outros anos. Segundo Junqueira, porém, com os dados dos últimos nove meses é possível perceber uma tendência de crescimento.

 

Números da devatação

Em janeiro e fevereiro, em plena estação de chuvas, foram desmatados mais de 6 mil hectares. Em março, mais 5 mil hectares foram destruídos. Em abril, o número saltou para mais de 12 mil hectares. Em maio, subiu ainda mais, para 15 mil hectares. O pico da devastação ocorreu em junho, quando o Xingu perdeu mais de 25 mil hectares. Em julho houve uma queda abrupta do desmatamento, para pouco mais de 10 mil hectares. Em agosto, mais de 11 mil hectares. E em setembro, mais de 4 mil hectares.

O salto do desmatamento registrado em abril, segundo o ISA, foi influenciado pela redução das chuvas ao norte, pela falta de fiscalização na APA Triunfo do Xingu, a expansão do garimpo na terra indígena Kayapó e uma grande abertura de cerca de 4 mil hectares no município de Querência (MT).

Em maio, o desmatamento continuou aumentando, novamente com grande destruição na APA Triunfo do Xingu (PA), onde foram removidos quase 5 mil hectares de florestas. Os municípios de Altamira e São Félix do Xingu foram os campeões da destruição, devastando juntos quase 7 mil hectares naquele mês.

O auge da estação seca provocou uma explosão do desmatamento em junho. O município de Altamira, que já havia se destacado pela destruição no mês anterior, devastou o dobro em junho, removendo mais 9 mil hectares de florestas.

 

Dinâmica da expansão

Em julho, dois fatores contribuíram para derrubar o desmatamento pela metade, segundo o ISA. Um deles é a dinâmica da expansão agropecuária, que derruba grandes áreas de florestas para implantar pastos e lavouras nos primeiros meses de seca e, em seguida, deixa a vegetação secando.

O outro fator foi o receio da fiscalização: sem nuvens, a remoção de florestas pode ser flagrada em tempo real por serviços de monitoramento como o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em agosto, os níveis de desmatamento permaneceram semelhantes. As maiores taxas de destruição foram registradas, novamente, nos municípios de Altamira e São Félix do Xingu, onde foram removidos quase 8 mil hectares de florestas.

Em setembro, a queda do desmatamento foi bastante considerável. Segundo o ISA, a provável explicação é a desarticulação do esquema de fraude nas licenças ambientais, após a operação feita em agosto, em Querência, que pode ter desmantelado a quadrilha que atuava em todo o estado do Mato Grosso
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Na imagem acima, garimpo no limite nordeste na Terra Indígena Kayapó. Foto ISA/Divulgação.

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