Perdido no espaço – ou em Brasília?

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o tenente-coronel e ex-astronauta Marcos Pontes, em julho, ambos ainda candidatos a presidente e a suplente de senador, respectivamente, na convenção nacional do partido, em São Paulo. Foto: Marcelo Chello.

Futuro ministro da Ciência e Tecnologia incorpora vaivéns do presidente eleito Jair Bolsonaro em afirmações sobre o próximo governo

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Os vaivéns em declarações sobre seu futuro governo, que já se tornaram um padrão do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), parecem já ter afetado seu escolhido para o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia, o engenheiro, ex-astronauta e tenente-coronel Marcos Cesar Pontes.

Ontem, terça-feira, após aparecer à tarde nos sites dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmando que se esforçará para garantir investimentos privados em universidades públicas, Pontes foi destaque à noite no portal Estadão.com, do diário O Estado de S. Paulo, dizendo nem ter certeza se o ensino superior sairá do Ministério da Educação para se tornar atribuição da pasta da C&T.

Às 16h51, no site da Folha, Pontes foi mostrado na reportagem “Ministro de Bolsonaro defende participação privada em universidades públicas”, da jornalista Laís Alegretti, afirmando:

A nossa legislação tem que ser revista para permitir que as universidades recebam recursos do setor privado diretamente. É importante ver modelos que funcionam para trazer esses investimentos para dentro das universidades, para melhorar a infraestrutura das universidades, laboratórios. Investimento privado e doação também.

Às 17h30 foi a vez de O Globo, com a reportagem “Marcos Pontes planeja liberar capital privado para pesquisas em universidades”. Após iniciar a matéria dizendo que o futuro ministro “afirmou nesta terça-feira que uma de suas prioridades será incentivar parcerias entre empresas privadas e universidades públicas no país”, o jornalista Jailton de Carvalho mostrou o ex-astronauta comentando que existe “resistência de parte da comunidade científica à presença do capital privado em universidades públicas”.

Na sequência do texto de O Globo, ainda sobre essa resistência acadêmica, o futuro ministro é mostrado fazendo a seguinte declaração.

[A resistência] É algo que vai sendo superado. Não tem problema nenhum. O objetivo é fazer com que universidades funcionem bem.

 

Não é bem assim

Essas afirmações desmancharam no ar às 19h29, quando foi publicada no Estadão.com a reportagem “Marcos Pontes diz que novo governo não decidiu se universidades vão para Ciência e Tecnologia”, com o subtítulo “Indicado para chefiar a pasta, o engenheiro afirma que a definição será tomada pelo futuro ministro da Casa Civil e presidente eleito”.

Não bastasse o reconhecimento de sua incerteza sobre o destino de sua futura pasta, o astronauta é mostrado pela jornalista Lorenna Rodrigues afirmando que a decisão sobre a saída do ensino superior do MEC será tomada pelo futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e pelo próprio Bolsonaro e evitou se posicionar sobre o assunto. Em outras palavras, Pontes sugeriu que a decisão não será técnica, mas política.

No final das contas, tornam-se cada vez mais evidentes os sinais de que o comando da equipe transição do presidente eleito não tem clareza sobre qual rumo seguir nas áreas de ensino superior e de ciência, tecnologia e inovação.

Pontes faz parte dos 27 assessores de Bolsonaro em sua equipe de transição anunciada na segunda-feira. A esse grupo foi atribuída a compreensão de que as ações entendidas como necessárias para o Brasil exigem determinação e a certeza expressa pelo velho ditado de que não se faz um omelete sem quebrar ovos.

O problema, dado o padrão já consolidado por Bolsonaro dos vaivéns em declarações, é de que o avanço no discurso pode se tornar um caminho sem volta. E que poderá chegar a hora em que o omelete estará pronto. E não será possível desfritá-lo.

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Na imagem acima, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o tenente-coronel e ex-astronauta Marcos Pontes, em julho, ambos ainda candidatos a presidente e a suplente de senador, respectivamente, na convenção nacional do partido, em São Paulo. Foto: Marcelo Chello.

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