Agência Espacial Brasileira e Inpe contestam Jornal da FAB sobre novo satélite

Publicação de jornal militar desagrada órgãos civis do Programa Nacional de Atividades Espaciais

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A Agência Espacial Brasileira (AEB) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e contestaram uma matéria do Jornal da Força Aérea Brasileira (NoTaer). Em nota de esclarecimento, os dois órgãos civis refutaram afirmações do texto “Carponis-1 desperta interesse de órgãos públicos federais” que teve como subtítulo a frase “Primeiro satélite brasileiro de sensoriamento remoto está previsto para entrar em órbita em 2022”.

Publicada na da edição de outubro do NoTaer, a matéria mencionada afirmou que o satélite  Carponis-1, em desenvolvimento pela FAB,

tem capacidade de gerar imagens coloridas, com mais qualidade, nitidez e precisão, em comparação às providas pelo satélite sino-brasileiro, o CBERS-4, cujas imagens são em preto e branco com resolução máxima de cinco metros.

Em tom diplomático, a nota da AEB e do Inpe não mencionou que as cúpulas dos dois órgãos consideraram “depreciativa” as comparação com o CBERS-4. E afirmou:

O CBERS-4, atualmente em operação em órbita e citado no artigo em referência, é um satélite de classe mundial, levando a bordo duas câmeras brasileiras (MUX e WFI) e duas chinesas (PAN e IRS). A câmera MUX possui resolução de 20 metros, revisita de 26 dias, quatro bandas no visível e infravermelho próximo, produzindo imagens coloridas RGB de alta qualidade, comparáveis às produzidas pelos melhores satélites de sua classe em todo o mundo. A câmera WFI, de campo largo de 900km, possui resolução de 63m, imagens também coloridas RGB e uma revisita de 5 dias, o que faz dela a mais utilizada em aplicações como o monitoramento em tempo real de desmatamento. A câmera chinesa PAN possui resolução em RGB de 10m e de 5m quando usada no modo pancromático. Já a IRS possui bandas no infravermelho médio e termal, com suas aplicações específicas.

Em relação à afirmação do NoTaer de que o Carponis será o primeiro satélite brasileiro de sensoriamento remoto, a mencionada nota conjunta afirmou também:

Finalmente, um aspecto relevante a ser pontuado na cronologia aqui apresentada, é que, para todos os efeitos práticos, a primeira missão de sensoriamento remoto que contou com desenvolvimento e controle nacional, foi lançada há 19 anos.

 

Aplicações

Há 19 anos, em outubro de 1999, foi lançado na China o CBERS-1, primeiro satélite de uma parceria entre o país e o Brasil. A imagens geradas por esses engenhos têm sido usadas no controle do desmatamento e queimadas na Amazônia Legal, no monitoramento de recursos hídricos, áreas agrícolas, crescimento urbano, ocupação do solo, em educação e em inúmeras outras aplicações, segundo a página do programa CBERS no site do Inpe.

Sem contestar diretamente afirmações da matéria do NoTaer sobre a previsão de uso de imagens do carpins-1 para agricultura, a nota conjunta da AEB e do Inpe informou que órgãos de governo solicitaram cerca de 14.000 imagens (2,5% do total demandado) do CBERS-4, enquanto unidades de ensino requisitaram aproximadamente 31.000 imagens (5,6%). E acrescentou:

O dado mais interessante é que empresas dos setores agrícola, florestal e de mineração, solicitaram mais de 490.000 imagens (mais de 90% do total de aproximadamente 541.000 imagens baixadas). Essa forte demanda do setor privado é uma inequívoca demonstração de como imagens de satélite CBERS agregam valor a seus negócios, como fonte de informações estratégicas.

 

De volta à estaca zero

A publicação e a contestação da matéria do NoTaer sobre o CBERS-4 acontece em um momento em que os dois órgãos civis do Programa Nacional de Atividades Espaciais estão descontentes com o crescente peso militar nas decisões sobre o futuro do setor aeroespacial a partir da criação, em fevereiro desta ano, do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB).

O CDPEB foi idealizado pela Aeronáutica e articulado pelo Ministério da Defesa junto à Presidência e ao GSI. Sua criação por meio de decreto presidencial em fevereiro surpreendeu a AEB e o Inpe, órgãos federais civis ligados ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A criação do CDPEB fez retornar à estaca zero esse entendimento sobre modelo de governança construído pelo MD e MCTIC. As duas pastas haviam iniciado tratativas no âmbito do Grupo de Trabalho Interministerial para o Setor Espacial, instituído em outubro de 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff.

Em outubro do ano passado, o Ministério da Defesa (MD) anunciou em um evento, na presença de Temer, que em breve seria estabelecido um novo modelo de governança com a criação do Conselho Nacional do Espaço, conforme proposta elaborada com o MCTIC após dois anos de trabalhos conjuntos das duas pastas (ver nota “Conselho Nacional irá dinamizar Programa Espacial Brasileiro”, do MD, de 6/out/2017).

A nova ordem, com o objetivo definido por Temer para o CDPEB, é “fixar, por meio de resoluções, diretrizes e metas para a potencialização do Programa Espacial Brasileiro e supervisionar a execução das medidas propostas para essa finalidade”.

 

O que diz a Aeronáutica

Questionada por meio de mensagem enviada ao seu Centro de Comunicação Social na sexta-feira, a Força Aérea Brasileira não havia se pronunciado até o fechamento desta reportagem às 17h45 de segunda-feira. Nesta terça-feira, às 17h42, Direto da Ciência recebeu nota transcrita na íntegra a seguir.

Em resposta aos seus questionamentos, este Centro esclarece:
O satélite de sensoriamento remoto Carponis-1 é o primeiro de alta resolução espacial a ser operado pelo Brasil. O pioneirismo se dá pela capacidade de resolução submétrica da câmera, ou seja, consegue captar imagens com nitidez de áreas menores do que um metro.
Diferentemente da resolução das câmeras do satélite CBERS-4, que variam entre cinco e 20 metros de resolução.
Atenciosamente,
Assessoria de Imprensa
Centro de Comunicação Social da Aeronáutica

Na imagem acima, Satélite CBERS-4 lançado com sucesso a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Tayuan (TSLC), lna província de Shanxi, a 760 km a sudoeste de Pequim. Foto: CBERS/Inpe – Divulgação.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Assuntos (Tags) , , , , , ,

*

Top