Uberlândia proíbe alunos de irem a feira de ciências. Motivo: gênero.

Vereador do Escola Sem Partido pediu cancelamento de apresentações, mas prefeitura decidiu vetar participação de rede municipal.

FÁBIO DE CASTRO

O vereador Doca Mastroiano (PR), de Uberlândia, admitiu ter pedido à prefeitura da cidade para cancelar a apresentação de dois trabalhos escolares relacionados ao tema da desigualdade de gênero na tradicional Feira Ciência Viva, que é realizada na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) há 23 anos.

No entanto, a prefeitura não se limitou a suspender a apresentação dos dois trabalhos elaborados por estudantes da rede municipal que tinham ligação com desigualdade de gênero e proibiu a participação de todas as escolas do município na feira, às vésperas do evento. Ao todo, 35 trabalhos tiveram a apresentação cancelada. A prefeitura não apresentou nenhuma justificativa para a proibição, segundo nota divulgada pela universidade.

Realizada anualmente desde 1995, a Feira Ciência Viva é sediada na UFU, onde estudantes da educação básica e escolas públicas e privadas apresentam projetos desenvolvidos com o objetivo de popularizar a ciência. O tema da edição de 2018, “Ciência para a redução das desigualdades”, é o mesmo abordado pela Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, de cuja programação a feira faz parte desde 2009.

‘Temas obscuros’

Todos os conteúdos dos trabalhos selecionados para apresentação na feira foram previamente aprovados pelas escolas e analisados por comissões científicas da universidade, segundo a UFU. De acordo com Mastroiano, porém, os pais dos alunos das escolas municipais não foram informados sobre a presença de temas relacionados à desigualdade de gênero.

“Três pais de alunos da rede municipal me procuraram na semana passada para reclamar que a Feira Ciência Viva abordaria temas obscuros. Os pais receberam uma autorização que deveria ser assinada para a participação dos filhos no evento, mas não receberam a lista dos temas”, disse Mastroiano a Direto da Ciência.

O evento acabou sendo realizado na segunda-feira (12) e na terça-feira (13), sem a presença das escolas municipais.

Para Mastroiano, a discussão sobre desigualdade de gênero não deveria ser feita em um evento aberto a crianças a partir de 8 anos de idade.

“Havia trabalhos que abordavam ideologia de gênero – um tema que não está na legislação educacional e não é adequado para ser apresentado a crianças tão novas. Por conta disso, na sexta-feira, entrei em contato com a prefeitura e com a Secretaria de Educação pedindo a suspensão da apresentação desses trabalhos. Mas a prefeitura acabou proibindo a participação das escolas”

Mastroiano admitiu não ter visto o conteúdo dos trabalhos, apenas os títulos. “Acredito que esse tipo de coisa deve ser aprendida em casa e não na escola. Sou a favor do Programa Escola Sem Partido”, declarou.

Nomes de escolas apagados

O coordenador da Feira Ciência Viva, Adevailton Bernardo dos Santos, afirmou que os professores da UFU e das escolas estão perplexos com a decisão da prefeitura. “Não houve nenhum posicionamento oficial, nenhuma justificativa. Soubemos apenas que as escolas municipais foram informadas no domingo à noite de que nenhum trabalho seria apresentado”, disse.

Segundo Santos, a prefeitura de Uberlândia é uma das instituições parceiras que produzem a Feira Ciência Viva. “Soubemos da proibição apenas na segunda-feira, quando o evento começou. Já havíamos preparado toda a estrutura para receber todo mundo. É um processo que demanda muito tempo e esforço. O resultado é que ficamos com 35 stands vazios. Vemos isso tudo com muita tristeza, nem temos palavras para descrever a decepção”, afirmou.

Santos afirmou que, no segundo dia do evento, 11 dos 35 trabalhos barrados acabaram sendo apresentados, mas os nomes das escolas foram apagados. “Cada projeto tem um banner padronizado com os dados dos trabalhos e nomes dos professores e alunos. Alguns acabaram apresentando os trabalhos sem os nomes das escolas, mas não foi por determinação nossa.”

Dos 141 trabalhos selecionados para a feira, apenas quatro tinham temas relacionados a gênero, sendo dois de escolas municipais: “Desiguladade de gênero”, da Escola Municipal Professor Sérgio de Oliveira Muniz, “Discussão de gênero – Desnaturalizando a desigualdade de gênero”, da Escola Municipal Professor Jacy de Assis, “Desigualdade de gênero – Os Animais são bons exemplos para estimular a reflexão deste tema para estudantes do ensino fundamental?”, da Escola Estadual Maria da Conceição Barbosa e “A realidade aumentada sobre desigualdade de gênero”, do Instituto Federal do Triangulo Mineiro.

Questionada por Direto da Ciência, a Prefeitura de Uberlândia não se manifestou até o fechamento desta reportagem às 18h50 desta terça-feira. O prefeito da cidade é Odelmo Leão Carneiro Sobrinho (PP). Esta página será atualizada se houver resposta.

Confira a lista dos trabalhos inscritos na Feira Ciência Viva 2018.

Na imagem acima, cartaz da Feira Ciência Viva 2018 de Uberlândia, evento realizado na cidade há 23 anos. Foto: Universidade Federal de Uberlândia/Divulgação.

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