Mais de 340 pesquisadores apelam a aiatolá por colegas presos no Irã

Cientistas de 66 países pedem ‘tratamento leal e justo’ para oito conservacionistas, entre eles quatro acusados de crime punível com morte.

 

FÁBIO DE CASTRO

Em carta enviada na quarta-feira (21) ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano, 346 pesquisadores e conservacionistas de 66 países fizeram um apelo por um “tratamento leal e justo” para os oito colegas presos desde janeiro no Irã sob por suspeita de espionagem.

Os signatários da carta afirmam que os pesquisadores presos “trabalharam e se conduziram com a mais alta integridade moral” e pedem por uma “leal e justa avaliação da prova, acesso a advogados de sua escolha e um julgamento transparente”, informou reportagem da revista Science.

A lista de assinaturas é encabeçada pela célebre primatologista inglesa Jane Goddal, uma das principais especialistas em chimpanzés no mundo, fundadora do Instituto Jane Goddal e nomeada Mensageira da Paz da ONU em 2002.

 

Morte na prisão

Em janeiro, nove conservacionistas da Fundação Persa do Patrimônio da Vida Selvagem foram presos, após acusação da Guarda Revolucionária Iraniana – unidade de elite das forças de segurança nacionais, que apoia o regime teocrático vigente no Irã desde a revolução islâmica de 1979 – de utilizarem armadilhas fotográficas para espionar o programa iraniano de mísseis balísticos.

As armadilhas fotográficas são amplamente utilizadas em estudos sobre ecologia e biologia de espécies ameaçadas. Os pesquisadores iranianos haviam instalado os equipamentos para monitorar remanescentes de uma subespécie considerada em risco crítico de extinção, o guepardo asiático (Acinonyx jubatus venaticus), natural da região.

Em fevereiro, um dos pesquisadores, Kavous Seyed-Emami, morreu na prisão Evin, em Teerã, em circunstâncias ainda não explicadas. As autoridades alegam suicídio. Os outros oito pesquisadores – duas mulheres entre eles – estão presos, sem data prevista para julgamento.

 

Pena de morte

Em outubro, a promotoria decidiu lançar sobre quatro dos cientistas presos uma acusação mais grave, de “semear a corrupção na Terra”. O crime, punível pela legislação iraniana com pena de morte, é atribuído a Taher Ghadirian, Houman Jowkar, Morad Tahbaz e Niloufar Bayani. Os dois primeiros são membros da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), organização que publica a Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas.

Os outros presos são Sepideh Kashani, Amirhossein Khaleghi Hamidi, Sam Radjabi e Abdolreza Kouhpayeh.

Um dos conservacionistas que assinam a carta a Khamenei é o pesquisador brasileiro Ronaldo Morato, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ele diz ter assinado o documento em solidariedade aos colegas iranianos, embora não conheça nenhum deles pessoalmente.

“A mobilização foi feita por um grupo grande de pesquisadores. Tenho contato com vários deles, mas não com os que estão presos no momento. Mas é importante dar apoio para que eles possam se defender e tenham oportunidade de demonstrar que não estavam fazendo espionagem ou algo semelhante”, disse Morato a Direto da Ciência.

Morato, que utiliza armadilhas fotográficas rotineiramente para gerar índices de conservação da biodiversidade, ressalta que para instalar os dispositivos é indispensável solicitar todas as autorizações legais, com descrição detalhada dos objetivos de pesquisa.

“Ninguém está isento de cumprir todas as autorizações legais. Mas, pelas características do episódio e pelo histórico dos pesquisadores envolvidos, é muito provável que tudo não passe de um engano. Acredito que estavam mesmo fazendo apenas uma amostragem com armadilhas fotográficas”, disse Morato.

 

Armadilhas fotográficas

Na carta ao aiatolá Khamenei, os pesquisadores explicam que as armadilhas fotográficas são uma ferramenta padrão para o monitoramento da vida selvagem e que são instaladas em todo o mundo com o objetivo de registrar evidências de espécies ameaçadas. “Elas são uma ferramenta essencial para fornecer uma base crítica tanto à ciência como às estratégias de conservação para salvar espécies da extinção.”

Os signatários acrescentam que todos os pesquisadores presos dedicaram suas vidas à conservação da vida selvagem no Irã e promoveram a imagem do país na comunidade conservacionista internacional, inspirando jovens biólogos e conservacionistas do Irã a seguirem seus passos.

“Estamos convencidos de que o trabalho e a pesquisa deles não tinham segundas intenções e objetivos”, diz a carta. “Estamos horrorizados com a ideia de que um campo neutro como a conservação poderia ser usado para objetivos políticos. Como comunidade, condenamos isso fortemente, e estamos convencidos de que nossos colegas não tomaram parte nisso.”

Os pesquisadores dizem ainda que sustentam a inocência dos colegas e se colocam à disposição para fornecer provas e testemunhos que forem solicitados pelas autoridades iranianas.

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Na imagem acima, ambientalistas e pesquisadores detidos no Irã sob suspeita de que suas câmeras para monitorar guepardos asiáticos estivessem sendo usadas para espionar programa de mísseis. Foto: Center for Human Rights in Iran/Divulgação.

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