Pesquisadores exploram pós-doutorandos estrangeiros nos EUA, afirma estudo

Artigo relata que jovens são submetidos por seus chefes de pesquisa a condições extenuantes de trabalho em troca da renovação de vistos.

FÁBIO DE CASTRO

A renovação de vistos de estrangeiros que fazem pós-doutorado em instituições dos Estados Unidos depende de seus pesquisadores responsáveis, que, em muitos casos, estariam utilizando essa situação de subordinação para submetê-los a jornadas prolongadas e a condições de trabalho inaceitáveis.

A conclusão é de um estudo, realizado por dois cientistas dos EUA, cujo objetivo inicial foi compreender as condições que levam alguns pesquisadores a optarem por carreiras não acadêmicas após a conclusão de um pós-doutorado.

O estudo “Fatores que influenciam a transição de pós-docs universitários para carreiras científicas não acadêmicas: um estudo exploratório” foi publicado em outubro na revista Research Policy, por Christopher Hayter, da Universidade Estadual do Arizona, e por Maria Parker, da Universidade Estadual da Califórnia.

O artigo foi tema de editorial publicado nesta quarta-feira (21) pela revista Nature, com o título “Parem com a exploração de pós-doutorandos estrangeiros nos EUA”, que afirmou:

O artigo rotula tais comportamentos como socialmente irresponsáveis, mas isso parece suave demais. É exploração. É inaceitável. E deve parar.

 

Depoimentos

A pesquisa se baseou em entrevistas com 97 pós-doutorandos de cinco importantes instituições de pesquisa dos EUA – mais da metade deles na área de ciências da vida – e com 35 pesquisadores responsáveis, gestores universitários e empregadores da indústria. As entrevistas foram feitas em 2016 e 2017.

Segundo a Nature, várias das dificuldades apontadas pelos pós-doutorandos são comuns – como os desafios para conseguir um cargo efetivo em tempo integral na academia –, mas alguns deles também reclamaram que os orientadores exploram a necessidade de renovação de vistos dos estudantes estrangeiros. Aos pesquisadores, um pós-doutorando de uma das principais universidades dos EUA afirmou:

Quando cheguei à universidade, meu pesquisador responsável explicou que aprovou a renovação do meu visto. Ele disse então que iria me pagar 70% do salário que havia sido prometido antes. Quando perguntei se isso é normal, ele apenas me perguntou se eu estava falando sério sobre trabalhar na universidade.

Outro pós-doutorando do próprio país disse:

Nosso pesquisador responsável cria esse ambiente de panela de pressão no nosso laboratório. Você vê os pós-doutorandos estrangeiros dormindo no chão dos laboratórios e trabalhando mais de 100 horas por semana. Os orientadores sabem o que estão fazendo, eles tiram vantagem desses caras.

Um dos gestores universitários entrevistados declarou:

Eu vejo algo ruim quase toda semana e parece que está ficando pior. Pós-doutorandos veem à minha sala e perguntam se isso ou aquilo parece errado para mim. A questão do visto é grave, porque os pós-doutorandos estrangeiros têm medo de denunciar seus orientadores.

Em seu editorial, a Nature afirmou que a prerrogativa de aceitar ou negar a renovação de vistos para estudantes estrangeiros “coloca os cientistas sêniores em uma posição de poder” e que essa posição não deveria ser utilizada contra colegas mais novos, muitos deles longe de casa e em situação vulnerável.

“São relatos anedóticos e não temos como saber a dimensão do problema, ou se o crescente escrutínio político de visitantes estrangeiros nos EUA mudou a situação”, afirmou o editorial.

 

Indiano explora conterrâneos

Um professor da Universidade de Missouri-Kansas City (UMKC) foi acusado de utilizar seus estudantes como empregados, de acordo com reportagem do Kansas City Star publicada no domingo (18). Segundo o jornal, os estudantes se submetiam por temerem a revogação de seus vistos – e a exploração era conhecida pela reitoria da universidade, que não teria feito nada para detê-la.

Segundo a reportagem, o estudante indiano Kamesh Kuchimanchi recebia de seu orientador, Ashim Mitra – também de origem indiana – tarefas como “retirar a água pútrida” do porão da casa do professor após uma inundação e trabalhar como garçom em celebrações indianas promovidas pelo docente fora do campus. “Eu considero minha vida na UMKC nada mais que escravidão moderna”, disse Kuchimanchi ao Kansas City Star.

De acordo com o jornal, a história de Kuchimanchi não era um caso isolado. Diretor da Escola de Farmácia da UMKC há 24 anos, Mitra sempre sujeitou seus estudantes a agirem como empregados, transportando equipamentos e carregando mesas em seus eventos sociais, por exemplo.

Os alunos também eram obrigados a cuidar do gramado e do cão de Mitra, além de regar as plantas de sua casa, eventualmente por várias semanas, quando ele e sua mulher estavam fora. “Por meio de insinuações e ameaças diretas de Mitra, estudantes diziam temer que ele revogasse seus vistos se eles não cumprissem suas demandas”, diz a reportagem.

 

Denúncia de Nobel

Em 2014, na revista eletrônica do King’s College da Universidade de Cambridge (Reino Unido), o sul-africano Sydney Brenner, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2002, já denunciava a existência de “uma cultura da escravidão” na pós-graduação dos EUA.

Na entrevista à King’s Review, o biólogo, que hoje tem 91 anos, afirmou que as novas ideias na ciência são obstruídas por “burocratas do financiamento de pesquisas e por professores que impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação”. E acrescentou:

Hoje os americanos desenvolveram uma nova cultura na ciência baseada na escravidão dos estudantes de pós-graduação. Agora os estudantes de pós-graduação de instituições americanas estão com medo. Ele [o pós-graduando] apenas executa. Ele deve executar. O pós-doutorando é um trabalhador contratado. Agora temos laboratórios que não funcionam da mesma forma como os primeiros laboratórios onde as pessoas eram independentes, onde elas poderiam ter suas próprias ideias e persegui-las.

Na imagem acima, prédio da Escola de Farmácia da Universidade de Missouri-Kansas City (UMKC), nos Estados Unidos. Foto: Nightryder84, sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported.

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