Desmatamento na Amazônia aumentou 13,8%. Floresta já perdeu 19,9%.

Temer termina sua gestão atingindo a maior taxa anual de corte raso na região nos últimos 10 anos

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O presidente Michel Temer (MDB) encerra seu governo como recordista do desmatamento anual na Amazônia nos últimos dez anos. A taxa anual do corte raso da floresta no período de agosto de 2017 a julho de 2018 foi de 7.900 km2, o que também significa um aumento de 13,8% em comparação com o ciclo anterior, segundo dados divulgados pelo governo nesta sexta-feira (23).

Essa estimativa ainda é preliminar. Ela passará por uma revisão nos próximos meses, como tem ocorrido desde 1988 desde o início do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A volta do aumento da devastação comprova o alerta de ambientalistas e pesquisadores no ano passado de que era muito cedo para comemorar como “tendência” – como fez o governo federal – a queda de 16% ano passado, depois corrigida para 12%.

Na verdade, o aumento não surpreendeu ambientalistas, como mostra a reportagem mais abaixo, e mostra que está cada vez mais difícil retomar a tendência de queda no período de 2004 a 2012, nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e na metade da primeira gestão Dilma Roussef, ambos do PT.

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Nos estados, a maior taxa de corte raso da floresta foi a do Pará, com 2.840 km2, que correspondeu a 35,9% do total da Amazônia Legal, seguido pelo Mato Grosso, com 1.749 km2 (22,1%), Rondônia, com 1.314 km2 (16,7%), Amazonas, com 1.045 km2 (13,2%) e Acre, com 470 km2 (5,9%), cujo desmatamento foi o que mais cresceu, aumentando em 82,9%, quase dobrando em relação ao ciclo anual anterior.

 

Corte raso acumulado

No acumulado, a Floresta Amazônica já perdeu mais de 793 mil km2, ou seja 19,9% de sua extensão original à época do Descobrimento. Esse total equivale a pouco mais que a metade da área do estado do Amazonas (1.570,7 km2) ou ao triplo do estado de São Paulo (248,2 km2). Em comparação com outros países, podemos dizer que é maior que o dobro da área da Alemanha (356,7 km2).

Esse total acumulado ultrapassou o dobro do que havia sido alcançado em 1988, que após algumas correções foi estabelecido em 377.600 km2. Isso significa que naquele quase final da década de 1980 já estavam suprimidos cerca de 9,5% dos 3,99 milhões de quilômetros quadrados do domínio original do bioma Floresta Amazônica.

A tabela a seguir mostra não só essas taxas anuais, mas também os totais acumulados a cada ano e ofuscados por todo esse amontoado de números.

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Números não mostram devastação total

Na verdade, a devastação total é ainda maior do que mostram os dados do Prodes, que correspondem somente às superfícies onde houve eliminação total da cobertura vegetal por meio de corte raso. Eles não consideram áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente, que são monitoradas por outro projeto do Inpe, o Mapeamento da Degradação Florestal da Amazônia Brasileira (Degrad).

O monitoramento pelo Degrad começou a ser  realizado em 2007. Seus dados mais recentes apontaram que em 2011 essa devastação chegou a 24.650 km2, uma área aproximadamente equivalente a 10% do Estado de São Paulo. Esse estrago diminuiu para 8.634 km2 em 2012 e para 5.434 km2 em 2013.

A extensão dessas áreas degradadas sem corte raso é muito variável devido à influência das oscilações das condições climáticas. Nos anos mais secos, essa degradação tende a ser maior.

 

‘Aumento não é surpresa’

Para o Observatório do Clima (OC), que reúne mais de 40 ONGs, o aumento do desmatamento não é surpresa. De acordo com a entidade,

Quem acompanha os dados mensais, divulgados governo federal e pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), sabia que uma elevação estava a caminho. Ela acontece apesar dos esforços do Ministério do Meio Ambiente de intensificar o combate aos crimes ambientais na Amazônia. É provavelmente fruto de uma série de circunstâncias climáticas e cambiais – o dólar alto eleva os preços dos produtos agrícolas e estimula a devastação. Mas é inegável o peso do fator político no resultado colhido pelo governo Temer em sua despedida.

A nota do Observatório do Clima destacou também que em 2018 o Palácio do Planalto e governos estaduais “fizeram uma série de acenos à bancada ruralista, como a anistia à grilagem de terras, assinada pelo Presidente da República em julho de 2017 (pouco antes de começar a contagem dos dados de 2018)”. E acrescentou:

Neste ano de eleição, alguns Estados passaram a cooperar menos com o Ibama na fiscalização, inclusive perdoando garimpeiros após um ataque a uma base do Ibama no Amazonas. A expectativa de anistia é o quanto basta para que as quadrilhas que atuam na extração de madeira e na grilagem de terras acelerarem a predação sobre a floresta, e foi isso o que se verificou.

Para o Observatório do Clima, esse quadro tende a ser o novo normal nos próximos anos com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), que prometeu durante a campanha desmontar os controles ambientais no Brasil.

 

O que disse o governo

Em vez de divulgar os dados por meio de entrevistas coletivas, como tem ocorrido nos últimos anos, desta vez o Ministério do Meio Ambiente (MMA) limitou-se a emitir uma nota oficial no final da tarde da sexta-feira (23).

A nota oficial afirmou que o MMA tem envidado esforços para combater o desmatamento na Amazônia, seja por meio das suas ações diretas, por meio das instituições vinculadas ou em articulação com outras instituições públicas.

Ainda segundo a nota oficial, foram intensificadas fiscalização ambiental no período 2017/2018 pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), “que aumentou o número de autuações em 6%, de áreas embargadas em 56%, de madeira apreendida em 131% e de equipamentos apreendidos 183%, em operações voltadas a ilícitos contra a flora, em relação ao período anterior”.

A nota oficial acrescentou que “da mesma forma, aumentaram em 40% as autuações, 20% as áreas embargadas e 40% as apreensões de madeira e equipamentos, como resultado das ações de fiscalização em unidades de conservação federais realizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Além disso, foram criadas mais 2 unidades de conservação de uso sustentável, que totalizam mais 600 mil hectares”.

A nota do governo disse também que “o desmatamento ilegal muitas vezes está associado a outros crimes, como lavagem de dinheiro, tráfico de armas, drogas e animais e trabalho escravo”, e que a Polícia Federal instaurou 823 procedimentos criminais no período do ciclo anual do monitoramento do desmatamento.

 

Na imagem acima, área queimada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraiso de Goiás. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

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