Pseudociência também é problema da direita, Graziano!

A polarização política se tornou uma ameaça a qualquer possibilidade de debate racional.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Não tenho procuração para falar em nome do recém-fundado Instituto Questão de Ciência, mas se há algo que o combate à pseudociência não precisa é a associação à polarização entre direita e esquerda, como fez ontem agrônomo Xico Graziano em seu artigo “Como se relacionam a pseudociência e a esquerda caviar”, publicado no site Poder 360.

Cotado como um dos ministeriáveis do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) para o Ministério do Meio Ambiente (MMA), Graziano foi deputado federal por São Paulo (PSDB), secretário estadual da Agricultura no governo de Mário Covas (1996-1998) e do Meio Ambiente na gestão de José Serra (2007-2010) e chefe de gabinete de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República (1995).

Em seu artigo de ontem, Graziano elogiou, e com razão, a criação do Instituto Questão de Ciência (IQC), que define como sua função primordial “trazer a ciência para os grandes diálogos nacionais e globais em torno da formulação de políticas públicas”. Em outras palavras, a mola-mestra dessa iniciativa é a “’política pública baseada em evidências’, ou seja, o fim da era da intuição no gasto de dinheiro público”, como ressaltou a diretora-presidente do IQC, a bióloga Natália Pasternak, em seu artigo “Por que Brasília precisa de cientistas”, publicado também no Poder 360.

 

Movimento antivacina

Ao seu apoio ao IQC, Graziano, no entanto, acrescentou seus próprios pressupostos ideológicos, expressando-os nos seguintes termos.

Simpatias e crendices, rezas e tabus teimosamente resistem ao iluminismo trazido pelo saber. Pior, porém, que as antigas ideias e receitas religiosas, aceitáveis por serem inofensivas, são algumas pajelanças modernas inventadas pela contestação ideológica.

Mais adiante, após se referir à “pregação contra as vacinas humanas, por serem desenvolvidas em laboratório com cobaias” como exemplo “de novas manias, anticientíficas, surgidas recentemente”, Graziano acrescenta.

Com uma diferença: ao contrário das pessoas mais simples, que desde seus tataravôs colocam folhas de arruda atrás da orelha, agora é gente sofisticada que inventa modos elitistas de vida, longe da correria do cotidiano ou distante da “opressão capitalista”.
Virou chique ser “alternativo”. Esquerda caviar.

É interessante que o agrônomo tenha se referido justamente ao movimento antivacina e o associado à esquerda. Na verdade, grande parte dos adeptos dessa pregação não são esquerdistas nem de longe. Pelo contrário, são extremamente conservadores, a exemplo da comunidade religiosa envolvida no recente surto de catapora na Carolina do Norte, o maior do estado em décadas.

 

Guru de Bolsonaro

O próprio Olavo de Carvalho, escritor e ideólogo de direita – que indicou para Bolsonaro os ministros da Educação e das Relações Exteriores –, é um exemplo da pregação antivacina, como lembrou nesta semana o site Catraca Livre com o artigo “Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, é contra vacinação infantil”. Sem falar em sua esdrúxula “explicação” de que “fumar não faz mal à saúde”.

Outra pseudociência que nada tem a ver com o pensamento de esquerda é o criacionismo e sua versão acadêmica, a chamada Teoria do Design Inteligente, que nega a evolução das espécies por meio da seleção natural e também é expressiva em comunidades religiosas dos Estados Unidos.

Vale lembrar também dos negacionistas do aquecimento global antropogênico. É cada vez mais evidente a associação entre entre eles e os lobbies da indústria do petróleo, da geração de energia por carvão e dos setores mais retrógrados do agronegócio.

No final das contas, a impressão que Graziano passa é a de somente ter escrito seu artigo para dar uma cutucada na esquerda. E, ainda por cima, apelando para o pejorativo “esquerda caviar”, expressão originária da França dos anos 1980 para designar uma parte da esquerda e que virou um cacoete de ideólogos direitistas.

Não ficou claro ainda, principalmente após  as eleições deste ano, que a polarização política se tornou uma ameaça a qualquer possibilidade de debate racional?

 

Graziano responde*

No final da tarde desta quinta-feira, poucas horas após a publicação deste artigo, Xico Graziano enviou por e-mail resposta que segue transcrita integralmente a seguir.

Caro Maurício, li e gostei muito de seu artigo. Eu aceito sua crítica, e concordo com seu ponto de vista de que a pseudociência ultrapassa os limites da esquerda. Eu apenas fiz, conforme você mesmo notou, uma provocação à “esquerda caviar” que ataca o agronegócio, condena a produção e o consumo de carne, julga todos os alimentos contaminados por agrotóxicos e depois vai se refestelar num restaurante refinado cuja conta um pobre operário gasta no mês inteiro com arroz, feijão, batata e carne moída!

* Atualização às 20h22.

Na imagem acima, o agrônomo Xico Graziano em Taubaté, em agosto de 2009, quando era secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Foto: Sheik/SMA/Divulgação.

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4 Comentários

  1. Mariana Caldas said:

    Está claro que o artigo de Graziano se presta a agradar com um verniz de cientificidade o direitismo de Bolsonaro. Quer saber? Menos pior ele do que Ricardo Salles!

  2. Roger Guimarães said:

    Ótima análise como sempre. Mas estou estarrecido com as informações desse texto sobre Olavo de Carvalho. Como pode um obscurantista como ele conseguir indicar dois ministros?

  3. Filipe Saraiva said:

    O Xico Graziano está só ladeira abaixo desde que saiu do PSDB para apoiar o Bolsonaro. Já se ofereceu para cargos de ministério e tudo mais. O artigo dele cheira a aquela matéria para se “cacifar” a ocupar algo.

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