Agro verdadeiramente ‘tech’ e ‘pop’ quer Acordo de Paris e desmatamento zero

Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura defende eliminar devastação nas próximas décadas para aumentar produtividade.

FÁBIO DE CASTRO

Para algumas das principais instituições do agronegócio no Brasil, o país pode zerar o desmatamento legal e ilegal em todos os seus biomas dentro de algumas décadas e uma eventual saída do Acordo de Paris é considerada “impensável”.

A posição foi sustentada pela Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que reúne 181 entidades ligadas ao agronegócio, à indústria, à academia e ao ativismo ambiental, no relatório “Visão 2030-2050 – O Futuro das Florestas e da Agricultura no Brasil”, lançado nesta segunda-feira (3).

De acordo com o relatório, zerar o desmatamento não apenas é possível, mas é fundamental para que a agricultura brasileira seja mais produtiva e lucrativa. O documento também destaca a importância do Acordo de Paris para o setor do agronegócio como forma de garantir a inserção brasileira nos mercados internacionais mais exigentes.

“O relatório que apresentamos é uma visão de longo prazo para um processo que, acreditamos, deverá conduzir o Brasil a um futuro sem desmatamento, com uma agricultura mais pujante que essa que temos hoje”, disse a Direto da Ciência o facilitador da Coalizão Brasil, André Guimarães.

A Coalizão Brasil inclui entidades como a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a Sociedade Rural Brasileira (SRB) e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), grupos empresariais como Klabin, Gerdau, Cargill, Unilever, Eucatex, Natura e Boticário, além de ONGs como Observatório do Clima, WWF Brasil e The Nature Conservancy.

O relatório diverge com a posição de entidades como a União Democrática Ruralista (UDR), cujo presidente, Luiz Antônio Nabhan Garcia, antes do segundo turno das eleições, afirmou que a base dos produtores rurais aliada ao então candidato Jair Bolsonaro (PSL) “não aceita intervenções do Acordo de Paris”. Nas palavras do relatório,

(…) somos o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, com grande parte dessas emissões decorrentes direta e indiretamente das atividades relacionadas à produção agropecuária, especialmente desmatamento.

 

Evitar prejuízo

Caso o Brasil não consiga zerar seu desmatamento, segundo o relatório, outros países – e outros setores da economia brasileira, como a indústria – precisarão desembolsar US$ 5,2 trilhões para que seja possível cumprir as metas climáticas globais de redução de emissões.

Segundo Guimarães, o país ainda tem um enorme potencial para gerar prosperidade com a agricultura, mas isso não pode ser feito às custas dos recursos naturais.

É preciso interromper esse processo que leva ao desmatamento. Em primeiro lugar, por uma questão de reputação: os consumidores dos produtos brasileiros estão cada vez mais intransigentes com o desmatamento.
Em segundo lugar, porque o avanço do desmatamento modifica o regime de chuvas, algo que é confirmado pela ciência. Não há a menor dúvida de que o desmatamento prejudica a agricultura, agregando riscos.

Zerar o desmatamento, segundo ele, é perfeitamente possível, embora o desafio seja grande. “Podemos mostrar ao mundo que é possível continuar crescendo sem causar danos ao ambiente natural.”

 

Usar áreas já desmatadas

De acordo com Ciniro Costa Júnior, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), diversos estudos mostram que o desmatamento gera prejuízos para o agronegócio. “As pesquisas mostram que, se usarmos melhor as áreas já desmatadas, podemos melhorar a produtividade de forma muito mais expressiva do que derrubando mais árvores”, disse.

Segundo Costa Júnior, a melhor forma de zerar o desmatamento é reaproveitar as pastagens degradadas. “A chave para isso é a melhor utilização das áreas de pastagens, que só aproveitam 30% de seu potencial. O desmatamento não encontra nenhuma justificativa na falta de espaço. Temos muito espaço, mas ele é mal organizado”, afirmou.

O Imaflora é uma das mais de 30 ONGs que compõem o Observatório do Clima que, por sua vez, é um dos membros da Coalizão Brasil. Segundo Costa Júnior,

Acredito que o relatório pode ser de grande ajuda neste momento em que temos um novo governo notoriamente alinhado à grande bancada ruralista, que nem sempre é a favor das pautas ambientais no que tange ao agronegócio. Porém, é importante lembrar que a Coalizão é bastante diversa e trabalha em um regime de consenso e, por isso, nem sempre suas posições refletem necessariamente a de todas as instituições que a compõem.

O desmatamento e a má gestão, segundo o relatório, produziram no Brasil um enorme passivo em áreas degradadas, que podem ser restauradas, com efeitos positivos sobre a produção agropecuária, que incluem conservação da água e do solo, regulação do clima e manutenção de serviços dos ecossistemas. O documento ressalta:

A agropecuária precisa ser intensificada nessas áreas, viabilizando o aumento da produtividade do setor sem a demanda por novas áreas de floresta.

De acordo com o relatório, estima-se que hoje o Brasil tenha cerca de 50 milhões de hectares de pastagens com aptidão agrícola muito baixa, mas que poderiam ser utilizadas para cumprir papel de conservação, por meio de incentivos que viabilizem a restauração da vegetação nativa. “Além disso, dos quase 20% da Amazônia que já foram desmatados, mais de 20 milhões de hectares são áreas em processo de regeneração natural.”

 

Fiscalizar, autuar e punir

O relatório mostra ainda que a área total ocupada pela agropecuária no Brasil está entre 240 milhões e 280 milhões de hectares, incluindo campos nativos que servem como pastagens. Há ainda outros 7,8 milhões de hectares ocupados pelas florestas plantadas. Mas enfatiza:

No entanto, há 178 milhões de hectares de pastagens com grande proporção de áreas degradadas ou longe de seu potencial produtivo. A produtividade média de carne em 2015 foi de 45 quilos por hectare, mas pode ultrapassar 200 quilos por hectare em pastagens bem manejadas.

Segundo Guimarães, o Brasil precisará incrementar a fiscalização para acabar com o desmatamento ilegal, além de criar mecanismos para compensar os proprietários e incentivá-los a abrir mão do desmatamento legal. Para isso, diz ele,

O desmatamento ilegal não tem outra solução além de fiscalizar, autuar e punir. Por outro lado, muitos proprietários com excedente na reserva legal têm o direito de desmatar. Nesse caso, a estratégia muda: a sociedade precisa dar incentivos para que esse proprietário abra mão de seu direito e não desmate. Há mecanismos previstos no próprio código florestal para esse tipo de compensação.

 

Cenário imprevisível

Para Guimarães, apesar da desconfiança gerada entre ambientalistas pelo discurso predominante na equipe do próximo governo Federal, considerado hostil à agenda ambiental, ainda não é possível saber como a futura gestão se comportará.

Tentamos apresentar propostas concretas para contribuir com o país, independentemente de quem esteja no governo. O objetivo é mostrar que o uso da terra é nossa ‘galinha dos ovos de ouro’. Mas o governo eleito ainda está em fase de configuração e é difícil saber qual será sua conduta, mesmo porque já houve recuo sobre diversas propostas, incluindo a eventual saída do Acordo de Paris.

Segundo Guimarães, para a Coalizão, o Acordo de Paris é um elemento fundamental para que o Brasil fique bem posicionado no cenário internacional.

Sair do Acordo de Paris é impensável. O acordo é um grande incentivador de uma economia de baixo carbono e temos um potencial fantástico de agregar valor para produtos sustentáveis. Vemos o Acordo de Paris não como um ônus, mas como uma oportunidade de gestão para o país, especialmente no uso da terra.

Na imagem acima, parte superior da capa do relatório “Visão 2030-2050 – O Futuro das Florestas e da Agricultura no Brasil”, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura. Imagem: reprodução.

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