Na sociedade polarizada, até a ciência vira campo de batalha, diz estudo

Estudo analisou controvérsia sobre doença para entender como discordâncias simples se transformam em divergências inconciliáveis.

FÁBIO DE CASTRO

Uma controvérsia científica relacionada à doença de Lyme – um tipo de infecção bacteriana transmitida por carrapatos – serviu para dois cientistas mostrarem como o fenômeno da polarização não se restringe a temas políticos ou ideológicos. De acordo com o novo estudo, o fenômeno também pode ocorrer mesmo quando se trata de conhecimento científico.

Cada vez mais acirrada nas sociedades contemporâneas, a polarização é o fenômeno que começa com divergências fundamentais e acaba gerando argumentos antagônicos e formando dois grupos cujas ideias são aparentemente inconciliáveis. Eventualmente, pode-se pensar que um dos lados vive em uma “realidade paralela” e utiliza argumentos inválidos.

Mas, de acordo com o estudo “Scientific polarization”,  publicado no European Journal for Philosophy of Science, mesmo no processo de produção científica, a polarização é um resultado inevitável quando há uma discordância inicial, inclusive quando os dois lados agem de boa fé na interpretação das evidências.

 

Viés inicial

Os autores Cailin O’Connor e James Owen Weatherall, ambos do Departamento de Lógica e Filosofia da Ciência da Universidade da Califórnia em Irvine (Estados Unidos), usaram modelos matemáticos para descobrir qual é o mecanismo por trás da polarização: um viés inicial leva a uma divergência radical quando cada grupo começa a tratar as evidências geradas pelo grupo alternativo como incertas.

Segundo o estudo, a doença de Lyme, quando não tem tratamento adequado, pode causar artrite, dor, fadiga e outros problemas. Alguns pacientes, porém, têm esses sintomas sem nenhum sinal de infecção ativa – o que os faz pensar que sofrem de “doença de Lyme crônica”.

É aí que começa a controvérsia. Enquanto parte dos médicos nega a existência da “Lyme crônica”, muitos estão convencidos de que a doença é real e receitam terapias de longo prazo com antibióticos aos pacientes.

 

Ameaças de morte

Em artigo sobre o novo estudo publicado no site do Conselho Americano de Ciência e Saúde – uma ONG com sede em Nova York – o médico Alex Berezow afirma que seja qual for o lado do cientista na “Batalha de Lyme”, há um conjunto de fatos que é consenso: ninguém quer o sofrimento do paciente, todos querem a cura e todos acreditam que há uma verdade objetiva a ser descoberta – se existe “Lyme crônica” ou não.

“Levando em conta essa dedicação à saúde pública e ao bem-estar, é difícil entender como a comunidade biológica pode estar polarizada. Mas, sim, ela está”, diz Berezow no artigo “The Polarization of Society: Even Scientists Become Tribal”.

Segundo Berezow, a polarização nesse caso é tão acirrada que o cientista responsável pela descoberta da doença, Allen Steere, após manifestar ceticismo sobre o diagnóstico da “Lyme crônica” e sobre o uso de antibióticos por longos períodos, começou a receber “ameaças de morte de pacientes que estavam convencidos de que ele está errado”.

 

Falta de confiança

De acordo com os autores do novo estudo, não há nada que se possa fazer para contornar o problema porque a polarização surge de uma quebra subjetiva da confiança.

Na pesquisa, eles mostram que, quando um cientista acredita inicialmente que uma hipótese A é provavelmente mais correta que uma hipótese B, eventualmente ele passa a acreditar também que outros cientistas que aceitam a hipótese A são mais confiáveis que aqueles que aceitam a hipótese B.

“Ao longo do tempo, esse leve viés contra os dados fornecidos pelos cientistas que aceitam a hipótese B pode se transformar em completa desconfiança e até rejeição. Uma vez que isso ocorre, um estado estável de polarização se desenvolve, no qual nenhum dos dois lados pode ‘vencer’ o debate, mesmo se os fatos sustentarem claramente uma hipótese em detrimento da outra”, diz o estudo. Os autores afirma também:

Nós não precisamos supor que ninguém seja mau pesquisador – em nosso modelo todos os agentes são idênticos – ou que alguém tenha sido comprado pela indústria para que a polarização científica estável apareça. Tudo o que é preciso para ter a polarização científica é alguma falta de confiança nos dados daqueles que sustentam crenças diferentes.

 

‘Síndrome pós-tratamento’

A polarização em torno da doença de Lyme é antiga. Em 2007, uma das editoras da revista British Medical Journal (BMJ), Alison Tonks, alertou para a questão no artigo “Lyme Wars”. De acordo com Alison, nos Estados Unidos, a doença de Lyme já estava então “no centro de uma longa e amarga controvérsia”. Segundo ela,

Não é mais uma doença, mas um campo de batalha legal e político. No coração da discórdia está a possibilidade de que a bactéria Lyme possa sobreviver ao tratamento inicial, fugir da detecção e causar sintomas incapacitantes por meses ou anos. Um crescente, paciente e vociferante lobby acredita que pode. A opinião médica convencional acredita que não.

Em 2017, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) declararam que a condição conhecida como “Lyme crônica” corresponde à “síndrome de pós-tratamento da doença de Lyme, cuja etiologia não está clara”. Como a causa da síndrome não é conhecida, o uso de antibióticos em longo prazo pode não ser o tratamento correto, segundo os CDC
.

Na imagem acima, microfotografia de exemplares da bactéria “em forma de saca-rolhas” Borrelia burgdorferi, que é o patógeno causador da doença de Lyme. Foto: CDC/Wikimedia Commons.

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