Alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050 exigirá transformar produção e consumo

Produção terá de crescer 50% sem elevar emissões de carbono, segundo relatório apresentado na Conferência do Clima

FÁBIO DE CASTRO

O mundo terá 10 bilhões de pessoas em 2050, estima-se, e alimentá-las sem destruir o planeta é um desafio maior do que se pensava. Segundo um novo estudo, a tarefa é possível, mas em apenas três décadas será preciso transformar profundamente todo o sistema global de alimentos, com mudanças que envolvem produtores, empresários, consumidores e governos.

O estudo, realizado por pesquisadores do World Resources Institute (WRI) ao longo de vários anos, foi sintetizado no relatório “Criando um Futuro Alimentar Sustentável”, de 96 páginas, apresentado ontem, quarta-feira (5), na 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Katowice, na Polônia.

Para alimentar o mundo em 2050, será preciso atacar simultaneamente problemas da produção de alimentos, do uso da terra e das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com o relatório, que também teve participação do Banco Mundial, da ONU Meio Ambiente, do PNUD e de dois grupos agropecuários da França.

 

Cinco estratégias

Ressaltando que “não há uma bala de prata: o sucesso depende de uma abordagem sistêmica e global”, o relatório propõe cinco estratégias para reduzir as emissões de gás carbônico (CO2) e, ao mesmo tempo, aumentar a produção mundial de comida de forma intensa nas áreas produtivas já existentes. São as seguintes:

  1. reduzir o crescimento da demanda por alimentos e outros produtos agrícolas, o que envolve diminuir o consumo de carne e o desperdício de comida;
  2. aumentar a produção de alimentos sem expandir a terra agrícola, o que exige desenvolvimento e aplicação de tecnologias de ampliação da produtividade, principalmente em áreas da pecuária;
  3. proteger e restaurar ecossistemas naturais e limitar a mudança do uso da terra, que é o grande desafio para países como o Brasil, o que significa conter o desmatamento;
  4. aumentar o suprimento de peixe como alimento, o que exige aperfeiçoar o manejo da pesca selvagem e ampliar a produtividade da aquicultura; e
  5. reduzir as emissões de gases de efeito estufa da produção agrícola, o que envolve melhorias no manejo de dejetos em pastos e na digestão do gado, especialmente o bovino.

 

Uso da terra

“A comida é a mãe de todos os desafios da sustentabilidade. Nós temos que mudar como produzimos e como consumimos os alimentos, não apenas por razões ambientais, mas porque essa é uma questão existencial para os humanos”, disse uma das autoras do relatório, Janet Ranganathan, vice-presidente de Ciência e Pesquisa do WRI. “O desafio é muito maior do que pensávamos, mas as soluções são factíveis.”

Com 10 bilhões de habitantes no planeta em 2050, será preciso aumentar a produção de alimentos em pelo menos 50% na mesma área já utilizada hoje – e ao mesmo tempo reduzir a emissão de gases de efeito estufa, de acordo com o autor principal do relatório, Tim Searchinger, diretor técnico do WRI e professor da Universidade Princeton.

 

Reduzir desperdício e demanda

Segundo ele “não há uma solução única e será preciso produzir mais plantações, carne e leite na mesma terra, reduzindo o desperdício de comida e a demanda por carne bovina e caprina, além do uso de tecnologias de redução de emissões”.

“O mundo precisa conseguir progressos substanciais em cada uma delas”, afirmou. Será preciso ainda aumentar a eficiência do uso de animais e de insumos de fertilizantes e melhorar a produtividade dos pequenos agricultores nos países em desenvolvimento.”

Se não houver um profundo esforço de adaptação na produção agropecuária, segundo o documento, as emissões da agricultura e do uso da terra passarão de 25% de todas as emissões globais para 70% de todo o orçamento de carbono do mundo.

O relatório também destaca que a supressão de florestas para abrir mais áreas de plantio “não é uma solução”. Para garantir que os ganhos de produtividade não levem a mais desmatamento local, de acordo com o documento, os governos precisam vincular explicitamente ganhos de rendimento à proteção de florestas e outras terras naturais.

 

Reduzir consumo de carne

Os consumidores também precisarão fazer a sua parte. O relatório recomenda que os 20% de indivíduos que mais consomem carne bovina, ovina e caprina nos EUA, Europa, Rússia e Brasil limitem seu consumo a 1,5 porções por pessoa por semana em 2050 – uma redução média de 40%.

Segundo os autores do relatório, buscar a redução entre os que mais consomem é um objetivo mais realista do que esperar grandes declínios em todo o consumo global de carne e leite.

Na imagem acima, área de colheita de trigo. Foto: Wikimedia Commons.

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