Fontes de energia renováveis avançam, mas 2018 terá recorde de emissões

Estudo divulgado na Conferência do Clima mostra aumento do uso de carvão e petróleo, mesmo com esforços para descarbonizar economia

FÁBIO DE CASTRO

Mesmo com o crescimento significativo do uso de fontes renováveis de energia no mundo – 15% ao ano na última década –, as emissões globais de carbono em 2018 subirão pelo segundo ano consecutivo, e terão a maior alta já registrada, segundo o novo relatório anual do Global Carbon Project, divulgado ontem, quarta-feira (5), durante a 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Katowice, na Polônia.

Em 2017, o aumento já havia sido de 1,6%, após três anos de estabilidade de 2014 a 2016, com crescimento próximo de zero. De acordo com os autores da pesquisa, o pico de emissões do último biênio foi impulsionado por um “sólido aumento no uso de carvão” e um “aumento sustentado do uso de petróleo e gás na maioria dos países.”

A previsão do aumento de emissões de carbono para 2018 é de 2,7% em comparação ao ano passado, segundo o relatório. Realizado por 54 pesquisadores de dez países e do Global Carbon Project, o estudo também foi publicado no periódico Earth System Science Data e foi comentado nas revistas Nature e Environmental Research Letters.

 

Maiores emissores

Segundo o estudo, o país que mais emitiu em 2018 foi a China, seguida por Estados Unidos, Índia, Rússia, Japão, Alemanha, Irã, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Canadá. A União Europeia, se considerada como um país, está no terceiro lugar da lista.

O Brasil, que tem ficado em sétimo lugar, não aparece na lista porque os dados sobre a quantidade de emissões não incluem as que foram produzidas pelo desmatamento, que contribuíram com aproximadamente 5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Considerando essas emissões, os pesquisadores acreditam que o total poderia chegar a mais de 41,5 bilhões de toneladas de CO2 em 2018. Eles alegam, porém, que há grande incerteza sobre os dados relacionados às emissões de desmatamento.

Por outro lado, 19 países tiveram reduções nas emissões, mesmo com crescimento econômico na última década: Aruba, Barbados, República Tcheca, Dinamarca, França, Groenlândia, Islândia, Irlanda, Malta, Holanda, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Suécia, Suíça, Trinidad e Tobago, Reino Unido, Uzbequistão e Estados Unidos.

Segundo os autores, o aumento das emissões é preocupante, considerando que será preciso reduzi-las em 50% até 2030 e zerá-las em 2050 para que seja possível limitar o aquecimento global à meta de 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris.

Apesar disso, eles afirmam que o aumento do uso de energias renováveis revela uma mudança de tendências – e que ainda há tempo para combater as mudanças climáticas, caso os esforços para reduzir emissões sejam feitos rapidamente em todos os setores da economia.

 

Pico máximo em 2020

De acordo com a autora principal do estudo, Corinne Le Quéré, da Universidade East Anglia, no Reino Unido, para que seja possível cumprir as metas do Acordo de Paris, será preciso que a curva das emissões chegue a seu pico no máximo em 2020. Segundo ela,

Estamos testemunhando um forte aumento das emissões de CO2 mais uma vez. As emissões precisam chegar ao pico e entrar em rápida queda para que seja possível combater as mudanças climáticas. Com o aumento de emissões deste ano, parece que esse pico ainda não está à vista.

O estudo mostrou uma intensificação crescente da adoção de combustíveis renováveis, mas ela ainda não é suficiente para alcançar o ritmo de crescimento das energias “sujas”, disse a pesquisadora, que acrescentou:

O crescimento da demanda global por energia está ocorrendo em ritmo mais acelerado do que a descarbonização. Isso precisa mudar. Precisamos de políticas fortes e apoio econômico para uma instalação mais tecnologias de baixo carbono para cortar emissões, especialmente nos setores de energia e transportes. As energias renováveis estão ganhando espaço rapidamente, mas isso ainda não é suficiente para reverter as tendências nas emissões.

 

Avanço do carvão e petróleo

A pesquisadora explicou também que o aumento das emissões registrado em 2017 e o projetado para 2018 são decorrentes de um grande avanço do uso de carvão, embora essa fonte de energia esteja em declínio em diversos países. Se a tendência detectada no estudo continuar, o crescimento do carvão deverá em breve superar sua alta histórica, registrada em 2013.

O uso de derivados de petróleo também está aumentando fortemente na maioria das regiões do planeta e com uma elevação das emissões produzidas por automóveis. As viagens de avião também contribuíram para o maior consumo de petróleo.

Outro autor do estudo, Glen Peters, diretor do Centro Internacional de Pesquisa sobre o Clima de Oslo, na Noruega, comentou:

O aumento das emissões em 2017 podia ser visto como um ponto fora da curva, mas a taxa de crescimento em 2018 é ainda mais alta. Está ficando claro que o mundo está falhando em sua tarefa de nos colocar em um curso coerente com as metas do Acordo de Paris.

 

Efeito ‘bola de neve’

Especialistas comentaram na revista Nature o novo estudo. O artigo “Emissions are still rising: ramp up the cuts”, que teve como primeira autora Christiana Figueres, ex-líder da área de clima da ONU e mentora da ação global Missão 2020, afirmou que o aumento das emissões “é uma grave preocupação”, mas que a transição para uma economia de baixo carbono já começa a produzir um efeito de “bola de neve”. E acrescentou:

A tarefa dos ministros e governos reunidos no encontro em Katowice é acelerar esse processo e colocar todos a bordo. Isso inclui a conclusão do manual de regras para a implementação do acordo de Paris, de modo que haja um caminho claro adiante.

De acordo com os autores na Nature, todos os esforços devem se esforçar para manter o aquecimento global a 1,5 °C. “Agora que entendemos os diferentes impactos de um aumento de 1,5 ° C e 2 °C, não podemos, em boa consciência, provocar riscos desnecessários para os mais vulneráveis e para a economia global.”

 

China e Índia

Segundo o estudo, a China, que responde por 27% das emissões globais, teve um aumento recorde de 4,7% de suas emissões em 2018. Esse crescimento está ligado ao crescimento econômico e à construção civil. As energias renováveis estão crescendo no incrível ritmo de 25% ao ano, mas, segundo os autores, a partir de uma base que era baixa demais.

Nos Estados Unidos, responsável por 15% das emissões globais, houve um aumento 2,5% em 2018, após vários anos de queda. Segundo o estudo, a nova tendência de crescimento está ligada a um aumento robusto de 1,4% no uso de petróleo, associado a um aumento de 7,6% das viagens de automóveis. As emissões por uso de carvão foram reduzidas em 2,1% em 2018.

A União Europeia, que produz 10% das emissões globais teve uma redução de 0,7% em 2018 – o que não é boa notícia, já que a região teve reduções de emissões de 2% por ano, em média, na década anterior a 2014. “As reduções no uso de carvão e gás, decorrentes do avanço das energias renováveis, foram parcialmente eclipsadas por um aumento no uso do petróleo”, diz o estudo. O combustível utilizado na Europa para transporte rodoviário e aéreo teve um aumento de 4%.

A Índia, que responde por 7% das emissões globais, teve o maior aumento, de 6,3%, motivado por um intenso crescimento econômico em 2018. No país asiático, as matrizes de energia solar e eólica estão crescendo rapidamente, mas a partir de uma base demasiadamente baixa.

Os demais países respondem por 42% das emissões globais e tiveram um aumento de 1,8% em 2018. Segundo o estudo, entre esses países, os que mais contribuíram para o aumento das emissões na última década foram a Arábia Saudita, o Irã, a Turquia, o Iraque e a Coreia do Sul.

Na imagem acima, Emissões de fumaça industrial em New Brunswick, no Canadá. Foto: Tony Webster/Flickr.com.

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