China quer todas as suas pesquisas científicas publicadas em acesso aberto

Agências chinesas de fomento divulgaram intenção de apoiar o Plano S, principal iniciativa europeia contra o paywall em revistas científicas.

 

FÁBIO DE CASTRO

O movimento mundial pelo acesso aberto às publicações científicas acaba de ganhar um aliado de peso. Representantes de agências de fomento à pesquisa da China anunciaram que pretendem exigir que todos os artigos produzidos a partir de estudos financiados com recursos públicos fiquem imediatamente disponíveis para leitura gratuita.

O anúncio, divulgado em reportagem da revista Nature, foi feito pelas organizações chinesas na Alemanha, no início desta semana, durante a 14ª Conferência de Acesso Aberto de Berlim, convocada pela Sociedade Max Planck. A penúltima edição da conferência, em 2015, marcou o lançamento da Iniciativa Open Access 2020 (OA 2020), que reúne atualmente os líderes do movimento global pelo acesso aberto.

Segundo a revista, os chineses prometeram apoiar a OA 2020 e a iniciativa europeia do Plano S, que tem o objetivo de acabar com o “paywall” de publicações científicas até 2020.

 

Iniciativa europeia

No início de setembro, agências de financiamento à pesquisa de 11 países da Europa lançaram uma força-tarefa para garantir a implementação do Plano S, que exigirá o modelo Open Access – no qual não há cobrança elo acesso aos conteúdos de periódicos acadêmicos – para todas as publicações financiadas por recursos públicos.

O mentor do Plano S, Robert-Jan Smits, disse à Nature que o posicionamento dos chineses é um “sonoro endosso” à iniciativa europeia, embora não tenha ficado claro se as organizações da China vão começar a implementar suas próprias novas políticas de publicação, ou se querem adotar integralmente o Plano S.

“Esse é um passo à frente crucial para o movimento global pelo acesso aberto. Nós sabíamos que a China estava pensando em se juntar a nós, mas o fato do país ter aderido tão cedo e de forma tão inequívoca é uma enorme surpresa”, disse Smits.

 

Cartas de intenção

Durante o evento em Berlim, três cartas de intenções foram divulgadas, segundo a Nature, pela Biblioteca Nacional de Ciência da China, pela Biblioteca Nacional de Ciência e Tecnologia e pela Fundação de Ciência Natural da China – uma das principais financiadoras chinesas de pesquisas.

“Apoiamos o pedido da Iniciativa OA 2020 e do Plano S para transformar, o quanto antes, os artigos científicos provenientes de projetos financiados publicamente em modelo de acesso aberto imediatamente após a publicação e apoiamos uma ampla gama de medidas flexíveis e inclusivas para cumprir esse objetivo”, dizem as cartas.

O presidente do Comitê Estratégico de Planejamento da Biblioteca Nacional de Ciência e Tecnologia, Xiaolin Zhang, disse à Nature que o governo chinês agora irá estimular os financiadores, instituições de pesquisa e bibliotecas acadêmicas do país a deixar os resultados de pesquisa com financiamento público livre para consulta e compartilhamento o quanto antes.

 

‘Politicamente errado’

Segundo Zhang, qualquer noção de que o modelo de acesso aberto tem pouco apelo na China é equivocada. Segundo ele, os financiadores e instituições de pesquisa da China estão desde 2014 incentivando e fornecendo recursos para que cientistas publiquem seus artigos em formatos de acesso aberto e para que arquivem seus manuscritos abertamente na internet.

Zhang afirma, porém, que a maior parte dos resultados científicos da China ainda está bloqueada por “paywalls”. “A Fundação de Ciência Natural da China financia cerca de 70% da pesquisa chinesa publicada em revistas internacionais, mas a China tem de comprar de volta esses artigos com preços cheios e altos. Isso é simplesmente errado – economicamente e politicamente”, disse Zhang.

Smits, que é emissário de Acesso Aberto da Comissão Europeia em Bruxelas, na Bélgica, disse à Nature que, depois da China, dois outros países não-europeus deverão aderir ao Plano S nas próximas semanas. Ele também busca apoio entre órgãos públicos financiadores de ciência nos Estados Unidos, onde atualmente a única organização de fomento à pesquisa a aderir ao Plano S é privada: a Fundação Bill e Melinda Gates.

Mais de 120 instituições de pesquisa e agências de financiamento de diversos países assinaram uma manifestação de interesse na implementação de larga escala do acesso aberto em revistas acadêmicas, inclusive a brasileira Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Na imagem acima, a Universidade de Ciência e Tecnologia da China, em Hefei. Foto sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported.

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3 Comentários

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  2. Luis Braga said:

    Se é bom para a China é ruim para o ocidente.
    O movimento para o acesso aberto além de quebrar o sistema editorial privado
    coloca toda a divulgação científica nas mãos do estado.

  3. Josue Ramos - CTI Renato Archer said:

    Caros
    Entre outros aspectos envolvidos nesse tema estão desde quem tem interesse em publicar e quem não tem e quem pode pagar por uma publicação para disponibilizar livre acesso.
    Por exemplo o google não interesse em publicar segredos associados ao seu mecanismo de busca e quem precisa obter financiamento de pesquisa publica no Brasil precisa publicar em conferencias com Qualis alto.
    De outro lado um pesquisador brasileiro, prever recursos para publicação de alto nivel qualis com livre acesso custa acima de mil dólares, difícil e as vezes trabalhoso para ser obtido, e alem de tudo, é significativo nos parcos recursos que temos para uma pesquisa.

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