EUA rompem bloqueio de recursos para estudos sobre armas de fogo e violência

Há mais de 20 anos emenda do Congresso proibia investimentos em pesquisas ‘para defender ou promover o controle de armas’

FÁBIO DE CASTRO

O financiamento de estudos científicos sobre armas de fogo e violência nos Estados Unidos estava praticamente congelado há mais de 20 anos, em parte por ação dos lobbies contrários ao desarmamento. Mas, em 2018 começaram a aparecer os primeiros indícios de mudança nesse quadro, segundo reportagem da revista Science.

As armas de fogo são a segunda principal causa de mortes de crianças e adolescentes no país, depois dos acidentes de carros, informa a Science. As estatísticas mais recentes, de 2016, mostram que naquele ano 3.150 crianças e jovens de 1 a 19 anos foram mortas por armas de fogo, segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC).

Um projeto, já em sua primeira fase de execução, corresponde ao maior investimento dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) nos últimos 30 anos para estudos sobre armas de fogo. Aprovado antes do início da gestão Donald Trump – cuja campanha eleitoral recebeu US$ 30 milhões da Associação Nacional do Rifle (NRA) – , o projeto receberá US$ 4,9 milhões de recursos públicos.

 

Lobby contra a pesquisa

A escassez de estudos sobre armas de fogo gerou inúmeras interrogações sobre o tema. “Há uma miríade de questões sobre armas de fogo e violência que permanece sem repostas, em grande parte por causa da escassez de financiamento para explorá-las”, diz a Science. Segundo a revista, a principal causa da falta de recursos para estudos sobre violência com armas de fogo é que os recursos para elas foram congelados há duas décadas.

Em 1996, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma emenda – batizada com o nome de seu autor, o republicano Jay Dickey, do Arkansas – que proibiu os CDC de investir recursos “para defender ou promover o controle de armas”. Segundo a Science, essa lei foi amplamente interpretada como uma forma de banir quaisquer estudos do CDC que tenham foco na violência com armas de fogo ou sua prevenção.

A lei não apenas zerou rapidamente o financiamento dos CDC a esse tipo de estudos, mas também deixou outras agências de fomento à pesquisa em saúde cautelosas. Os poucos trabalhos sobre o tema, a partir de então, foram feitos com parcos recursos de agências menores, ou financiadores privados.

 

Reação a chacinas

Em março, após uma chacina em uma escola de Parkland, na Flórida, o Congresso determinou expressamente que o CDC está livre para estudar as causas da violência com armas de fogo, apesar da emenda Dickey. Na semana passada, um grupo de cirurgiões publicou na revista JAMA Surgery um apelo para que o CDC retome suas próprias pesquisas sobre violência com armas.

Antes disso, em 2013, uma norma presidencial já havia triplicado o financiamento dos NIH para as pesquisas relacionadas a armas de fogo, segundo a Science. A decisão veio logo após a chacina da Escola Elementar Sandy Hook, em Newtown, no estado de Connecticut. Depois disso, a agência também começou a lançar chamadas específicas para financiamento a pesquisas sobre violência com armas de fogo.

Uma dessas chamadas, lançada em 2014, selecionou o projeto da médica e pesquisadora Rebecca Cunningham, da Universidade de Michigan, que recebeu os citados US$ 4,9 milhões para o Instituto Nacional da Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano Eunice Kennedy Shriver, uma das instituições dos NIH.

 

‘Fim do silenciamento’

Rebecca e o especialista Marc Zimmerman serão responsáveis por um projeto de cinco anos que formará uma base para a pesquisa sobre crianças vitimadas por armas de fogo. A equipe de 27 cientistas envolve uma dezena de instituições. O projeto não tem o objetivo de responder a alguma questão específica, mas de determinar quais questões precisam de respostas mais urgentemente.

O financiamento público para pesquisas sobre armas de fogo ainda é pequeno diante da dimensão do problema e, com a forte polarização política no país, a equipe de Rebecca enfrentará o desafio de investigar a questão da violência com armas de fogo sem parecer que está fazendo uma defesa do controle de armas.

A pesquisadora, porém, aposta que o congelamento dos recursos para esses estudos está em seus últimos dias. Ela afirma que o financiamento da NIH não é “só mais uma bolsa, é o fim do silenciamento de uma geração”. No projeto, os pesquisadores estão reunindo dados para construir um arquivo amigável para o usuário e lançando estudos-piloto. Enquanto isso, treinam jovens cientistas para dar continuidade à linha de estudos.

 

Sem agenda política

Para Garen Wintemute, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, que pesquisa sobre violência com armas, o projeto de Rebecca é “único”. “Nos últimos 20 anos é a primeira vez que um financiamento é feito não apenas para realizar um projeto, mas para construir a infraestrutura que viabilizará toda uma linha de pesquisas”, disse.

Rebecca afirma que o tema da violência com armas, como qualquer outro problema de saúde pública, pode ser encarado cientificamente, sem envolvimento com nenhuma agenda política. “Há uma ciência para a prevenção de danos”, diz.

A equipe já discutiu 10 projetos-piloto e ainda decidirá quais serão levados adiante. Um deles tem foco em grupos de pessoas que possuem armas e o objetivo de criar mensagens eficazes para reduzir o suicídio de adolescentes na Península Superior de Michigan, onde as taxas são o dobro das áreas urbanas nos EUA.

Outra das propostas é um levantamento com adolescentes com pais que possuem armas, com o objetivo de avaliar até que ponto essas armas estão acessíveis de fato, em contraste com o que os pais imaginam.

Uma outra proposta investiga a possibilidade de novas chacinas em escolas do país. A médica Megan Ranney, da emergência do hospital da Universidade Brown, estudará o uso de mídias sociais por jovens para caracterizar o estresse pós-traumático, a ansiedade e a resiliência.

Na imagem acima, moradores de Charleston, na Carolina do Sul (EUA), em cerimônia pelas vítimas de tiroteio em escola da cidade em junho de 2015. Foto: Wikimedia Commons, sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported.

 

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2 Comentários

  1. Marcos Barbosa de Oliveira said:

    Neste parágrafo — “As armas de fogo são a segunda principal causa de mortes no país, depois dos acidentes de carros, informa a Science. As estatísticas mais recentes, de 2016, mostram que naquele ano 3.150 crianças e jovens de 1 a 19 anos foram mortas por armas de fogo, … ” — a primeira frase dá margem a ser mal interpretada, apesar do que diz a segunda. Seria mais claro dizer: “a segunda principal causa de mortes de crianças e adolescentes ..”

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