Países ‘petroleiros’ tentam impedir apoio a relatório do IPCC

Arábia Saudita, EUA, Kwait e Rússia polemizaram sobre expressão em relatório que aponta necessidade de limitar aquecimento a 1,5 °C.

FÁBIO DE CASTRO

Especialistas em bloquear negociações climáticas, países líderes na produção de petróleo criaram controvérsia no final da semana passada torno de um único termo em um dos relatórios técnicos discutidos na 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que está sendo realizada em Katowice, na Polônia.

A COP-24 entrou nesta terça-feira (11) em sua fase decisiva, quando os ministros de meio ambiente chegaram ao evento, para pactuar decisões políticas e costurar acordos que podem resultar, no fim da semana, no Programa de Trabalho do Acordo de Paris, uma espécie de “manual de instruções” que viabilizará sua aplicação.

No sábado (8), porém, durante as discussões na COP-24, a Arábia Saudita, os Estados Unidos, a Rússia e o Kwait se aliaram contra as demais 192 nações com o objetivo de amenizar a linguagem utilizada para se referir ao histórico Relatório Especial sobre Impactos do Aquecimento Global de 1,5°C (SR15), publicado em outubro pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC).

Rejeição a apoio

Os quatro países, que estão entre os maiores produtores de petróleo do mundo, querem que o relatório técnico da COP-24 faça a referência ao SR15 dizendo que os países “tomam nota” do relatório do IPCC. Todas as demais nações querem utilizar o termo “acolhem favoravelmente” o relatório do IPCC.

De acordo com o think-tank Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD, na sigla em inglês), por conta da batalha travada em torno de um único termo, os delegados já começam a se preparar para uma semana potencialmente dramática pela frente.

“Se tudo isso foi por causa de uma única palavra, imagine o que vai acontecer com o Programa de Trabalho do Acordo de Paris”, segundo o boletim do IISD. Um outro delegado aplaudiu a decisão provisória de manter a versão rejeitada pelos países petroleiros, dizendo que seria “ridículo” não acolher favoravelmente o relatório do IPCC.

Menor comprometimento

Para o jornal francês Le Monde, “é um combate em torno de uma só palavra, mas que ilustra até que ponto as negociações climáticas são às vezes delicadas”. Segundo o jornal, a mudança de linguagem pleiteada pelos países petroleiros é “uma forma de ficarem menos comprometidos” com as conclusões do relatório do IPCC e “eventualmente ignorar seu teor”.

Embora a modificação sugerida pelos quatro países não tenha sido acatada por falta de consenso – os países europeus, africanos, latino-americanos e as nações insulares a rejeitaram –, para alguns delegados a discussão em si foi motivo de desânimo.

“O resultado final é decepcionante, porque há uma cisão profunda entre a vontade da maioria esmagadora dos países de reconhecer claramente as mensagens do IPCC e a recusa de um grupo muito pequeno”, disse um especialista em negociações climáticas ao Le Monde.

Em outubro, porém, os representantes dos governos de todo o mundo – inclusive os quatro grandes produtores de petróleo – haviam chegado ao um consenso sobre o relatório do IPCC. O SR15 destacou “a necessidade de produzir transformações rápidas e sem precedentes” para limitar o aquecimento global em 1,5°C, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2030.
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Na imagem acima, foto: Prefeitura de Katowice/Divulgação.

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