Estudo mostra como o Brasil pode ‘descarbonizar’ sua economia até 2060

Drástica redução das emissões relacionadas a desmatamento é fundamental, indica estudo apresentado na COP-24


FÁBIO DE CASTRO

Um estudo apresentado na 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima mostra que o Brasil pode até 2060 “descarbonizar” sua economia – isto é, zerar suas emissões líquidas de gases efeito estufa. Segundo a pesquisa, o país deve focar na drástica redução das emissões relacionadas às mudanças de uso da terra.

Realizado pelo Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), o estudo “Brasil Carbono Zero em 2060” foi apresentado na terça-feira (11) durante a COP-24, em Katowice, na Polônia. A pesquisa foi coordenada por Emílio La Rovere, do Centro do Clima do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O relatório indica que para descarbonizar sua economia e contribuir para a contenção do aquecimento global, o Brasil precisará priorizar o combate ao desmatamento ilegal, o reflorestamento de áreas degradadas pelo pasto, a agricultura de baixo carbono e a redução drástica da queima de combustíveis fósseis, especialmente no setor dos transportes.

Mudança do uso da terra

Segundo o secretário-executivo do FBMC, Alfredo Sirkis, o relatório foi desenvolvido a pedido do Governo Federal em agosto de 2018, quando o Fórum apresentou sua proposta para a implementação da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil para o Acordo de Paris. Na ocasião, o presidente Michel Temer (PMDB) solicitou uma avaliação do que seria necessário para o Brasil zerar suas emissões líquidas até 2060.  

“A estratégia proposta para 2060 não só permite ao Brasil cumprir sua parte em relação à contenção das mudanças climáticas em um nível não-catastrófico como sugere oportunidades econômicas importantes na medida em que nosso país está singularmente bem posicionado para enfrentar, com vantagens competitivas, o desafio da descarbonização das economias no âmbito global”, escreveu Sirkis na apresentação do relatório.A

De acordo com as estimativas realizadas pelos pesquisadores, a descarbonização da economia em 2060 deverá se basear na redução drástica das emissões de mudanças de uso da terra – associadas especialmente ao desmatamento florestal –, que passariam a ser negativas já em 2030. Para isso, será preciso reduzir esse tipo de emissão em 153% até 2060, em relação aos níveis registrados em 2005.

“Nesse período, as emissões se reduzem em 26% no setor de transportes e aumentam 50% no setor de indústria, 17% no setor de oferta de energia, 10% no setor de resíduos e 9% no setor de Agricultura. Nos demais setores – Residencial, Comercial e Agrícola, as emissões crescem 13%”, diz o estudo.

Oportunidade para o Brasil

O relatório destaca que o enorme potencial de recursos naturais renováveis do Brasil transformam a transição para uma economia de baixo de carbono em uma oportunidade, permitindo ao mesmo tempo que o país contribua com o esforço mundial para alcançar os objetivos de longo prazo do Acordo de Paris.

“Uma estratégia de desenvolvimento do Brasil no longo prazo compatível com a limitação do aumento da temperatura global a 1,5ºC não implicaria necessariamente consequências econômicas e sociais significativamente negativas para o país, se implantada através de políticas públicas apropriadas”, diz o texto.

A pesquisa aponta que os impactos macroeconômicos e sociais da descarbonização dependem não só dos custos das opções de mitigação, mas também dos instrumentos econômicos, financeiros e de comando e controle usados para viabilizar sua adoção.

“Para viabilizar o ambicioso cenário aqui desenhado, é crucial adotar uma precificação das emissões de gases de efeito estufa, sinalizando para os agentes econômicos o valor da redução de suas emissões, através de uma taxa de carbono, ou de outros instrumentos, como um mercado de cotas comercializáveis de emissões, e condições favorecidas de crédito para os projetos de mitigação”, conclui o relatório.

Na imagem acima, Alfredo Sirkis, Coordenador Executivo do FBMC, fala na coletiva de imprensa na COP-24 organizada pelo Observatório do Clima. Foto: Reprodução.

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