Plataforma recebe apoio para impulsionar divulgação da ciência brasileira

Instituto Serrapilheira financiará também outros 13 projetos de difusão científica, selecionados entre cerca de 900 propostas


FÁBIO DE CASTRO

Uma nova plataforma idealizada por duas jornalistas brasileiras reunirá estudos científicos nacionais inéditos, que receberão tratamento jornalístico profissional para impulsionar sua divulgação na imprensa. A iniciativa pioneira no Brasil é inspirada no modelo da plataforma Eurekalert!, dos Estados Unidos, um serviço utilizado diariamente por repórteres de ciência em todo o mundo.

A nova plataforma, que está sendo desenvolvida pela empresa Data14, foi um dos 14 projetos inovadores de divulgação científica escolhidos pelo Instituto Serrapilheira para financiamento de até R$ 100 mil, em seleção cujo resultado foi divulgado nesta quarta-feira (12).

O objetivo do projeto é aumentar a presença da ciência brasileira de ponta na imprensa, de acordo com suas idealizadoras, a jornalista Sabine Righetti, que atua há cerca de 15 anos na cobertura científica, e a biomédica Ana Paula Morales, também jornalista de ciência.

Informações antecipadas

De acordo com Sabine, o modelo será mesmo semelhante ao do Eurekalert!, que foi lançado em 1996 pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), a organização que edita a revista Science. Nessa plataforma, os jornalistas cadastrados encontram antecipadamente press releases, fotos, vídeos e contatos de autores de estudos que serão publicados em periódicos conceituados. 

O conteúdo fica sob embargo, isto é, os usuários só podem publicar suas reportagens após uma data e horário previamente definidos. Com o embargo, os repórteres têm tempo para preparar seu material e as revistas científicas têm o compromisso deles de que não noticiarão o estudo .

“Desde que comecei no jornalismo científico, em 2003, o Eurekalert! faz parte da minha rotina. Sempre consultei diariamente o serviço e desde o início me perguntava por que não temos algo parecido no Brasil”, disse Sabine a Direto da Ciência.

“Esse tipo de sistema, além de ser útil e eficiente, é bastante justo, porque oferece a todos os veículos a oportunidade de divulgar um estudo científico importante ao mesmo tempo, sem privilegiar ninguém. Exatamente por saber que os concorrentes também têm acesso, todos acabam divulgado, o que potencializa o impacto”, explicou.

Empreendedorismo

Sabine conta que decidiu investir na ideia no fim de 2014, depois de cursar um programa de empreendedorismo oferecido com bolsa da Fundação Eisenhower, com sede na Filadélfia, Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil, Sabine decidiu pedir demissão da Folha de S.Paulo, onde trabalhava havia cinco anos, para se tornar empreendedora.

Não foi fácil. A jornalista passou o ano de 2015 tentando mapear possíveis financiadores. Em 2016, Sabine e Ana Paula fundaram a empresa e apresentaram um projeto para conseguir recursos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

“Em abril, nosso projeto foi aprovado no Pipe, e conseguimos R$ 163 mil para realizar o desenvolvimento tecnológico da plataforma – um processo complexo, que envolve linguagem, armazenamento de dados em grande escala em nuvem, um sistema para regular o sigilo da informação do cadastro dos jornalistas e assim por diante”, explicou Sabine.

Os recursos do Instituto Serrapilheira servirão para a produção do conteúdo para a plataforma e operação. A principal diferença em relação ao Eurekalert!, segundo Sabine, é que a plataforma dos EUA, já consagrada, recebe de forma colaborativa o conteúdo enviado pelos setores de comunicação de universidades, institutos e grupos de pesquisa. O sistema brasileiro irá bem além – será preciso produzir tudo.

“Vamos usar os recursos do Serrapilheira para divulgar a ideia junto às instituições e para montar a equipe de editores e repórteres que produzirá o conteúdo. A ideia é que esses profissionais entrevistem os autores dos estudos e façam toda a prospecção e tratamento da informação”, disse Sabine. Após o financiamento inicial, a ideia é que o projeto se torne sustentável a partir da cobrança de uma taxa das instituições interessadas em divulgar a ciência produzida por seus pesquisadores. 

Iniciativas selecionadas

Os 14 projetos aprovados pelo Instituto Serrapilheira foram selecionados entre mais de 870 propostas. Os 50 finalistas foram apresentados no Camp Serrapilheira, o programa de apoio à divulgação científica lançado pelo instituto em 2018.

O projeto Gênero e Número, de Giuliana Bianconi, fará um levantamento para criar um atlas da produção científica de mulheres. O Nexo Jornal, de José Orenstein, fará uma série de reportagens e vídeos sobre cientistas brasileiros do passado e do presente. O projeto Sonora, de Luisa Puterman, produzirá imersões artísticas sonoras para temas científicos.

Yuri Castelfranchi, do Departamento de Divulgação Científica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teve um projeto aprovado para a formação transversal em divulgação científica na universidade. O projeto Computação sem Caô, de Ana Carolina da Hora, será um canal do Youtube dedicado a explicar computação para públicos jovens.

O biólogo Hugo Fernandes, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), produzirá um programa na TV aberta cearense, batizado de “Zoa”, e lançará outra atração na Band News. O projeto De Olho nos Corais, de Guilherme Longo, uma iniciativa de ciência cidadã para monitoramento de corais.

Sarah Azoubel teve aprovado seu projeto 37 Graus, um podcast de ciência. O projeto Silo, de Cinthia Mendonça, realizará atividades transdisciplinares misturando arte, cultura, ciência e tecnologia na zona rural do Rio de Janeiro.

O Projeto Cosmos, de Carlla Vicna, divulgará astronomia em escolas públicas de Manaus. O Numinalabs, de Rafael Bento, será uma start-up profissionalizante de youtubers de ciência. Iniciação científica no Ensino Médio será o tema do projeto Cientista Beta, de Kawoana Viana. O Biblioscópio, de Fernanda Diamant, consistirá em uma cobertura multiplataforma de livros de divulgação científica pela Revista 451, de resenha literária.

Sediado no Rio de Janeiro, o Instituto Serrapilheira é uma instituição privada de apoio à pesquisa e à divulgação científicas criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles, herdeiro do banco Itaú, e sua mulher, a linguista Branca Vianna.

Na imagem acima, participantes do evento do Camp Serrapilheira realizado em setembro de 2018 no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. Foto: Filipe Costa/ Agência Rastro/Divulgação.

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Um comentários;

  1. Roberto Berlinck said:

    Sensacional, Tuffani. Com tantas iniciativas boas, vai ser difícil consumir tanta informação.

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