Nature faz retrospectiva das principais notícias da ciência em 2018

Seleção inclui incêndios provocados por mudanças climáticas, assédio moral entre cientistas e experimentos genéticos controversos.

FÁBIO DE CASTRO

A edição desta semana da revista Nature faz uma retrospectiva das principais notícias relacionadas à ciência em 2018. A seleção inclui incêndios violentos provocados por mudanças climáticas, assédio moral entre cientistas, ascensão mundial do populismo de extrema direita, experimentos genéticos controversos, insurgência contra o “paywall” nas revistas científicas e importantes descobertas na astronomia, paleontologia e física de materiais.

 

Incêndios

A evidência de mudanças climáticas só aumentou em 2018, com mais de 50 incêndios de grandes proporções na Suécia, em julho, um recorde de devastação pelo fogo no Canadá, em agosto e o maior incêndio da história da Califórnia, nos EUA, que matou pelo menos 85 pessoas.

Segundo a Nature, a situação provavelmente ficará pior, já que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) previu em um relatório especial, lançado em outubro, que em menos de uma década as temperatura globais médias aumentarão 1,5 °C em relação à era pré-industrial – e “há escassa evidência de que os governos estão tomando ações mais agressivas para combater o aquecimento global”.

 

Populismo

A Nature destaca que o Brasil elegeu, em outubro, o candidato de direita Jair Bolsonaro, que “prometeu reprimir a corrupção do governo – mas também reverter as regulamentações ambientais”. Segundo a revista, como deputado federal, “Bolsonaro frequentemente votou com a bancada ruralista, que procurava abrir áreas na Amazônia para atividades agrícolas.”

A revista também comenta a ascensão do populismo na Europa. Na Itália, uma coalizão populista chegou ao poder em junho e nomeou para o Ministério da Saúde a médica Giulia Grillo, que no ano passado fez campanha para reverter um decreto que tornava obrigatória a vacinação em escolas. Na Hungria, o governo populista de Viktor Orbán anunciou que controlará o orçamento da Academia Húngara de Ciências a partir de 2019.

 

Grafeno

Uma inesperada propriedade do grafeno, uma forma do carbono, foi uma das notícias sobre descobertas científicas destacadas pela Nature em 2018. Em março, foi demonstrados que duas camadas de grafeno com a espessura de um só átomo, quando intercaladas em um ângulo de 1,1°, podem imitar o comportamento supercondutor de alguns materiais baseados em cobre. A descoberta pode ajudar a desvendar porque alguns supercondutores não precisam de temperaturas próximas ao zero absoluto para funcionarem.

Outra notícia boa para a física, segundo a revista, é que em outubro a Comissão Europeia anunciou os primeiros vencedores de uma chamada de financiamento para pesquisas em tecnologias quânticas, que receberão cerca de US$ 1,1 bilhão ao longo de 10 anos. Os 20 projetos aprovados incluem o desenvolvimento de relógios atômicos e comunicações mais seguras. A pesquisa quântica também recebe 235 milhões de libras no Reino Unido e 650 milhões de euros na Alemanha pelos próximos quatro anos.

 

Edição de embriões

Algumas das notícias mais controversas do ano estão no campo da genética, segundo a Nature. Em novembro, o cientista chinês He Jiankui anunciou que teriam nascido os primeiros bebês “geneticamente editados”. Ele afirmou que sua equipe utilizou a ferramenta de edição genética CRISPR-Cas9 para alterar um gene que codifica a proteína utilizada pelo vírus HIV para entrar nas células.

Os dois embriões editados teriam produzido duas meninas gêmeas, mas não está claro se a intervenção dará a elas resistência ao HIV. Cientistas de todo o mundo criticaram o trabalho, alertando que a técnica não está pronta para a aplicação em humanos.

 

Genética pré-histórica

Em agosto, cientistas revelaram que uma jovem que viveu há 90 mil anos herdou seus cromossomos de pais que pertenciam a espécies diferentes de hominídeos  –  metade de uma mãe Neanderthal e a outra metade de um pai Denisovan  –  uma descoberta inédita até agora.

Outras notícias do campo da genética também tiveram destaque em 2018. Em agosto, foi aprovada a primeira terapia com base na técnica de interferência de RNA, utilizada para silenciar um gene específico. Em setembro, terminou uma batalha jurídica em torno de patentes da ferramenta de edição CRISPR-Cas9, envolvendo o Instituto MIT e Harvard – que ganhou a causa – e um grupo de instituições que inclui a Universidade da Califórnia em Berkeley. Em julho, a Europa colocou as variedades alimentares com edição de genes na mesma regulação dos alimentos transgênicos.

 

Assédio moral

No Reino Unido, pesquisadores de vários institutos consagrados estiveram envolvidos em casos de assédio moral. Em maio, a agência financiadora de pesquisas Wellcome Trust, em Londres, introduziu uma política pioneira sobre o tema e, três meses depois, revogou um financiamento de 3,5 milhões de libras dado à geneticista Nazneen Rahman, que foi acusada de assédio moral.

Em agosto, o diretor do Instituto Wellcome Sanger, financiado pela Wellcome Trust, Michael Stratton, foi acusado de assédio à sua equipe e de mau uso de fundos. Em outubro, uma sindicância concluiu que houve falhas na gestão de pessoas, mas inocentou Stratton. Na Universidade Bath, o paleontólogo Nicholas Longrich também foi acusado de assédio e perdeu financiamento de 1 milhão de libras recebido em 2016.

 

Guerra ao ‘paywall’

Em setembro, uma coalizão de agências financiadoras de ciência de 11 países europeus anunciou a decisão de acelerar a implementação do Plano S, que prevê a proibição de financiamento público, a partir de 2020, para pesquisas que não sejam publicadas em acesso aberto. O objetivo é acabar com o “paywall” das revistas científicas.

Em novembro, após o lançamento da coalizão – que inclui países como a França, Reino Unido, Noruega, Áustria e Holanda – teve adesão da Finlândia e de parceiros institucionais privados, como a Wellcome Trust, no Reino Unido, e a Fundação Bill & Melinda Gates, em Seattle, nos Estados Unidos. A China aderiu em dezembro.

 

Missões espaciais

Em 2018, a Nasa começou a desenvolver conceitos para uma estação espacial próxima à Lua e passou a trabalhar em parceria com agências menores para desenvolver módulos de pouso lunares. Em dezembro, a China lançou seu jipe Chang’e-4, que tentará o primeiro pouso no lado oposto da Lua.

Em outubro, a Agência Espacial Europeia lançou a missão BepiColombo, que deverá fazer pesquisas em Mercúrio. Em agosto, a Nasa lançou a sonda Solar Parker, que deverá ser o primeiro objeto feito por humanos a penetrar na atmosfera do Sol. A nave Hayabusa 2, da Agência Espacial do Japão, colocou dois pequenos robôs na superfície do asteroide Ryugu. Em dezembro, a nave Osiris-Rex, da Nasa, chegou ao asteroide Bennu.

 

Astrofísica

Descobertas na astronomia também ganharam destaque no noticiário de 2018. Em fevereiro, dois radiotelescópios no interior da Austrália encontraram pistas indiretas das primeiras estrelas que brilharam no Universo, apenas 180 milhões de anos após o Big Bang. A sonda Gaia, da Agência Espacial Europeia, apresentou em abril o mapa 3D mais detalhado já feito da Via Láctea. O mapa, que já gerou 400 artigos científicos, mostra com precisão sem precedentes as posições, distâncias, cores, velocidades e direções de movimento de 1,3 bilhão de estrelas.

Outra descoberta em destaque chegou ao noticiário em julho: pela primeira vez astrofísicos rastrearam a origem de um neutrino de alta energia, que vinha de um buraco negro gigante localizado no centro de uma galáxia distante. A descoberta poderá ajudar a ciência a desvendar qual é a fonte dos raios cósmicos, que são as partículas de mais alta energia da natureza.

Na imagem acima, ilustração artística, capturada de vídeo da Nasa, da sonda Solar Parker, que deverá ser o primeiro objeto feito por humanos a penetrar na atmosfera do Sol. Imagem: Nasa/reprodução.

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