Após quase 2 anos, Trump finalmente tem assessor de ciência e tecnologia

Aprovada pelo Senado na quarta-feira, nomeação do meteorologista Kevin Droegemeier foi elogiada por boa parte da comunidade científica.

FÁBIO DE CASTRO

Quase dois anos após a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, a Casa Branca finalmente tem um assessor de ciência e tecnologia, o cargo mais importante do país nessa área. Indicado em setembro de 2018, o meteorologista Kelvin Droegemeier, de 59 anos, foi confirmado no cargo pelo Senado na quarta-feira (2).

A partir de agora, Droegemeier será responsável por informar o presidente sobre assuntos científicos e por chefiar o Departamento de Políticas de Ciência e Tecnologia da Casa Branca (OSTP). Considerado fundamental para a comunidade científica, embora não garanta poderes executivos como os de um ministro, o cargo permanecia vago desde o início do mandato de Trump, cujas decisões na área científica foram tomadas até agora sem assessoria especializada.

Trump é o presidente que permaneceu por mais tempo sem um assessor de ciência desde a década de 1950. Ele indicou Droegemeier no fim de julho de 2018 e o Senado aceitou a indicação em setembro, mas só agora a aprovação da casa legislativa foi confirmada.

Especialista em eventos meteorológicos extremos, Droegemeier é o primeiro não-físico a assumir o cargo desde a criação do OSTP em 1976. A escolha do meteorologista gerou reação positiva da comunidade científica, de acordo com reportagem da revista Nature.

 

Nomeação tardia

Droegemeier foi pró-reitor de pesquisa da Universidade de Oklahoma, em Norman, de 2009 até agosto de 2018. Por um breve período, foi secretário de Ciência e Tecnologia do governo de Oklahoma. Durante as administrações de George W. Bush e Barack Obama, ele foi também membro do Painel Nacional de Ciência, que supervisiona as atividades da Fundação Nacional de Ciência.

De acordo com a revista Science, com o atraso para a nomeação, algumas questões importantes relacionadas à ciência podem já ter ficado definidas sem nenhuma orientação de uma assessoria científica, como o abandono do Acordo de Paris e do acordo nuclear com o Irã. Mas, segundo a revista, Droegemeier ainda terá tempo de influenciar o executivo em outras questões ainda em aberto, incluindo estratégias para lidar com a espionagem da China em universidades americanas sem sufocar a cooperação científica global.

“A questão é o que sua chegada significará para o tratamento que a administração dará a um conjunto de desafios técnicos, que vão desde a regulação da engenharia de embriões humanos e de carros autônomos, até o combate ao cyberterrorismo e o estímulo a uma mão-de-obra mais treinada em tecnologia”, comentou a Science.

 

Enxugamento de funcionários

Em reportagem publicada em julho, a revista Nature informou que o OSTP foi um dos vários órgãos federais afetados pelo fechamento parcial no governo Trump e mantém apenas um punhado de funcionários essenciais em atividade.

“O presidente reduziu a cerca de 50 o número de funcionários fixos do departamento, que contava com 130 funcionários na administração Obama. A equipe de Trump também deu mais ênfase às questões tecnológicas e, repetidamente, tentou cortar ou eliminar programas científicos de alto nível – incluindo um fundo de preparação para a Saúde Pública nos Centros de Prevenção e Controle de Doenças, programas de mudanças climáticas da Agência de Proteção Ambiental e o Telescópio de Pesquisa em Infravermelho de Campo Vasto, da Nasa”, disse a Nature.

Segundo a revista, Droegemeier “parece ser um forte apoiador do financiamento federal de pesquisas”. Em artigo de opinião publicado em 2017 no jornal Des Moines Register, o meteorologista fez um apelo à Casa Branca e ao Congresso pelo aumento do financiamento federal de pesquisa.

“Embora os benefícios da economia de curto-prazo nos orçamentos federais anuais possa ser atraente, o resultado é insidioso, com consequências de longo prazo. Por causa do financiamento insuficiente, corremos o risco de perder uma geração inteira de pesquisadores”, disse Droegemeier.

 

Reação positiva

De um modo geral, as reações ao nome de Droegemeier para o OSTP já haviam sido positivas após sua indicação em julho. “Acho que é uma escolha muito sólida. Ele é um cientista sênior respeitado e tem experiência em estabelecer o diálogo entre a ciência e o poder”, disse John Holdren, que dirigiu o OSTP durante seus oito anos como assessor científico de Barack Obama.

Holdren elogiou a indicação em reportagem de agosto da Science. “Ele é uma opção muito boa. Espero que ele seja muito enfático na defesa do orçamento de Pesquisa e Desenvolvimento e da pesquisa sobre mudanças climáticas, especialmente”, afirmou.

“Minha reação inicial foi: uau, eles encontraram alguém”, disse à Nature, referindo-se à nomeação de Droegemeier, Kei Koizumi, pesquisadora visitante da Associação Americana para o Avanço da Ciência e ex-diretora assistente do OSTP na gestão Obama.

Para Koizumi, porém, o talento do meteorologista não é garantia de sucesso em seu cargo de assessor de ciência. “Kelvin será um ótimo assessor científico, mas muito do que faz um assessor científico não depende da pessoa no cargo e sim do presidente que está na Casa Branca”, disse Koizumi.

Como membro do Painel Nacional de Ciência nas gestões Obama e Bush, Droegemeier liderou os comitês de “ciência de furacões” e de administração de pesquisa, entre outros. “Ele combina muitas qualidades que você gostaria de ver em alguém que está no serviço público”, disse à Nature Roger Pielke Jr, cientista político da Universidade de Colorado em Boulder, que trabalhou com o meteorologista entre 1990 e 2000.

 

Meteorologista nerd

“Ele é, no sentido mais positivo, um meteorologista nerd que amava trabalhar com tecnologia climática. Ele também tem aptidão para administração e facilidade para trabalhar da sua própria maneira dentro dos sistemas”, disse Pielke Jr.

Pielke Jr também manifestou preocupação com a pressão que será exercida sobre o cientista principal de uma administração que tem sido criticada por suas políticas científicas. “Droegemeier terá que enfrentar todo tipo de questão. Haverá uma pressão tremenda”, afirmou Pielke Jr. Ele prevê que o meteorologista terá problemas semelhantes aos enfrentados pelo físico John Marburger, que foi assessor científico de George W. Bush.

Marburger foi amplamente criticado por apoiar políticas federais impopulares na comunidade científica, como as decisões de Bush de não ratificar o Protocolo de Quioto sobre mudanças climáticas e de restringir o financiamento federal para pesquisas sobre células-tronco embrionárias. “A coisa vai ficar difícil bem rapidamente para Droegemeier”, disse.

 

Avesso a confrontos

Para o assessor científico da gestão de Bill Clinton, Neal Lane, assumir o cargo de assessor científico sempre foi e sempre será uma tarefa dura. “Dadas as circunstâncias, não consigo pensar em ninguém que pudesse fazer um trabalho melhor”, disse Lane à Nature.

Para Rosina Bierbaum, especialista em políticas ambientais da Universidade de Michigan em Ann Arbor, Droegemeier pode contribuir para uma guinada na administração Trump em questões relacionadas a mudanças climáticas.

“Tenho certeza de que ele acredita na corrente principal da ciência climática. Ele é um excelente comunicador e é realmente bom em destrinchar questões complexas”, disse Rosina à Nature.

“Kelvin é um cientista sólido, excelente com as pessoas e com uma profunda experiência com grandes sistemas burocráticos. É uma voz moderada que não irá politizar a ciência”, disse Cliff Mass, cientista atmosférico da Universidade de Washington, em Seattle.

A geofísica Maria Zuber, pró-reitora de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), acredita que Droegemeier de fato lutará pela ciência climática. “Ele sempre fez isso. Eu não vejo nenhuma razão para que não o fizesse agora”, disse à Science no fim de julho.

Mas ela acrescenta que o estilo do meteorologista é avesso a confrontos. “Ele é um velho bom menino. É um cara com muita personalidade. Ele usa botas de cowboy e tem sólidas credenciais conservadoras”, afirmou.

 

Evitou discutir clima

Como pesquisador, Droegemeier tem foco em previsão digital do tempo, incluindo estudos sobre dinâmica de tempestades. Ele ajudou a desenvolver o uso de supercomputadores para a aplicação de modelos atmosféricos. O cientista também ajudou a fundar e dirigir dois centros de pesquisa financiados pela Fundação Nacional de Ciência: um deles tinha foco na análise e previsão de tempestades e o outro era uma central para “sensoriamento adaptativo colaborativo da atmosfera”.

Apesar da experiência em meteorologia e eventos extremos, Droegemeier se esquivou de perguntas sobre controvérsias relacionadas ao “ceticismo climático”, em agosto, quando seu nome foi indicado ao Senado, de acordo com a revista The Scientist. “O especialista em eventos meteorológicos extremos contornou as questões relacionadas às mudanças climáticas dizendo que não estuda clima”, disse a revista.

Segundo a The Scientist, apesar da boa impressão causada entre parte dos colegas, a indicação de Droegemeier não é unanimidade na comunidade científica. Andy Dressler, climatologista da Universidade Texas A&M ficou desapontado com a escolha, embora não tenha ficado surpreso.

“Essa administração jamais escolheria alguém como John Holdren, que falava a realidade sobre mudanças climáticas, para ser assessor científico. Eles querem alguém que vá andar na linha (em políticas climáticas)”, disse Dressler.

Na imagem acima, o meteorologista Kelvin K. Droegemeier, novo assessor de Ciência e Tecnologia da Casa Branca, em foto de abril de 2014, cumprimentando France A. Córdova ao assumir o cargo de diretora da Fundação Nacional da Ciência dos EUA (NSF). Foto: NSF/Divulgação/Wikimedia Commons.

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