Brexit sem acordo será ‘catastrófico’ para a pesquisa, afirmam cientistas

Sem planejamento, saída do Reino Unido poderá desencadear ruptura de colaborações e isolamento da ciência do pais, dizem pesquisadores.

 

FÁBIO DE CASTRO

Cientistas britânicos estão preocupados com os impactos “catastróficos” que a saída do Reino Unido da União Europeia sem um acordo poderá provocar na pesquisa britânica e nas colaborações científicas com outros países europeus, informa reportagem publicada na revista Science na quarta-feira (16).

Na terça-feira (15), o Parlamento rejeitou um acordo proposto pela primeira-ministra Theresa May para uma saída planejada. Segundo a revista, com a derrota de May, o Brexit poderá ocorrer já em março, com grande impacto negativo para a economia – que poderá ficar estagnada por anos – e para o financiamento da pesquisa científica.

Após a derrota, a primeira-ministra enfrentou uma ‘moção de desconfiança’ por não ter conseguido elaborar uma proposta boa o suficiente para aprovação. A moção poderia tirá-la do cargo, mas ela obteve uma apertada vitória na votação, realizada na tarde desta quinta-feira (17) no Parlamento, com 325 votos a favor e 306 contra sua permanência na liderança do governo.

De acordo com a Science, as consequências de uma saída da União Europeia sem um acordo – o que poderá ocorrer no fim de março – poderão ser severas para a ciência britânica. “Sem preparações adequadas nas fronteiras, as importações poderiam minguar. Alguns cientistas temem que isso poderá desencadear a escassez de reagentes cruciais ou de outros suprimentos para laboratórios”, diz a Science.

Além disso, com uma saída sem acordo, “a capacidade dos pesquisadores britânicos para conseguirem financiamentos da União Europeia cessaria imediatamente” e as colaborações em testes clíncios internacionais e outros projetos de pesquisa também seriam afetadas.

 

Alertas

Em nota oficial na quarta-feira (16), o presidente da Royal Society em Londres, Venki Ramakrishnan, afirmou que a derrota sem precedentes no parlamento torna mais provável a perspectiva de deixar a União Europeia sem um acordo.

“Um Brexit sem acordo seria um desastre para a ciência e para a inovação no Reino Unido. Eu conclamo nossos representantes eleitos a colocarem os interesses do país em primeiro lugar e a conseguirem um novo plano para evitar esse resultado catastrófico”, disse Ramakrishnan.

Em agosto do ano passado, em artigo publicado no jornal The Independent sobre os possíveis impactos do Brexit na ciência, Ramakrishnan afirmou que sete dos 10 maiores parceiros do Reino Unido em pesquisa científica são nações da Europa e, atualmente, 60% dos artigos científicos britânicos em colaboração internacional são produzidos com parceiros europeus.

“Sem um acordo nos poderemos perder um bilhão de libras por ano em financiamentos de pesquisa da União Europeia, ou cerca de um décimo do orçamento público do Reino Unido em ciência, escreveu Ramakrishnan.

O presidente da Royal Society acrescentou que a retirada sem acordo também criará incertezas graves sobre a regulação científica. “Por exemplo, a Regulação de Testes Clínicos da União Europeia entrará em vigência em maio de 2020. Sem um alinhamento regulatório, o Reino Unido será excluído dos testes clínicos com parceiros europeus”, declarou.

 

‘Inaceitável’

De acordo com Aisling Burnand, diretora-executiva da Associação de Instituições de Pesquisa Médica, um Brexit sem acordo “é inaceitável” e colocaria em risco a segurança de pacientes, além de “comprometer a ciência médica pioneira no Reino Unido.”

“Com o parlamento tendo rejeitado o acordo da primeira-ministra, o Reino Unido está ficando mais perto de deixar a União Europeia sem um acordo. Em nome das instituições de pesquisa médica e dos pacientes que elas representam, eu devo reiterar as graves preocupações do setor sobre o impacto danoso de um Brexit sem acordo sobre os pacientes e sobre a pesquisa médica”, disse Aisling em nota divulgada pelo Centro de Divulgação Cientifica do Parlamento Britânico.

Segundo ela, com uma retirada sem acordo, o acesso dos pacientes a novos medicamentos ficaria em risco, assim com as oportunidades para tomar parte em testes clínicos inovadores. “A partir do primeiro dia após um Brexit sem acordo, os atrasos nas fronteiras teriam impactos nos suprimentos de medicamentos”, disse.

Também em nota divulgada na terça-feira (15), o diretor da Academia de Ciências Médicas do Reino Unido, Sir Robert Lechler, afirmou que a retirada sem acordo é uma grave ameaça à pesquisa biomédica do Reino Unido, que se apoia atualmente em projetos colaborativos de ciência de classe mundial.

“Isso não é especulação, a falta de um acordo trará sérios impactos negativos para a pesquisa médica, incluindo a ruptura de colaborações produtivas, perda de acesso a financiamento, barreiras para testes clínicos e pesquisas sobre doenças raras, além da redução da nossa capacidade de atrair pesquisadores para o Reino Unido”, disse Lechler.

 

Ameaça à liderança britânica

Os cientistas “concordam de forma unânime que uma saída sem acordo seria um desastre”, segundo Paul Nurse, diretor do Instituto Francis Crick. “A colaboração internacional é crucial para a ciência moderna e o Reino Unido tem laços particularmente estreitos com a União Europeia”, disse.

Segundo Nurse, para que a ciência britânica se mantenha em sua posição de liderança mundial depois do Brexit, os pesquisadores precisarão ser capazes de se mover facilamente pela Europa e participar integralmente de programas europeus de pesquisa. “A melhor maneira de fazer isso seria permanecer na União Europeia. Mas, se nós queremos sair, precisamos urgentemente de um acordo que forneça algumas certezas nessas áreas”, afirmou.

De acordo com Nurse, o Francis Crick já está preparado para os impactos de curto prazo de uma saída sem acordo. “No entanto, os impactos de longo prazo de uma saída sem acordo sobre a ciência e a sociedade causariam um retrocesso considerável no progresso científico.”

Em reportagem publicada em setembro de 2018, a revista Nature afirmava que, seis meses antes da data prevista para o Brexit sem acordo, a saída da União Europeia já estava causando danos à ciência britânica, com efeitos sobre o financiamento de pesquisa, sobre o acesso a sistemas de navegação por satélite e sobre os alertas a respeito de detritos espaciais perigosos.

Segundo a Nature, sem um acordo, a ciência britânica perderá instantâneamente o acesso a pelo menos três das maiores fontes de financiamento ligadas ao programa Horizonte 2020 da União europeia. “Essas fontes sozinhas forneceram cerca de 2 bilhões de euros dos cerca de 4,8 bilhões de euros que o Reino Unido obteve do programa desde 2014.”

Na imagem acima, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May. Foto: Gabinete da Primeira Ministra/Flickr.

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