Barragem dá sinais antes de romper, diz presidente da Federação Brasileira de Geólogos

Centro de Monitoramento da Samarco, no escritório da empresa em Germano (MG), onde são monitorados em tempo real as barragens e diques da companhia. Foto: Leo Drumond/NITRO.

Falha no sistema de monitoramento e alerta é causa do elevado número de mortes no desastre de Brumadinho.

PHILLIPE PESSOA
MIRNA DE MOURA
Colaboração para Direto da Ciência, de Belo Horizonte.

A alta mortandade do desastre em Brumadinho (MG) resultou de erros no monitoramento da Barragem I da mina do Córrego do Feijão, que rompeu na última sexta-feira (25), segundo Fábio Augusto Reis, professor do Departamento de Geologia Aplicada do câmpus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo). Suas afirmações se contrapõem à alegação do presidente da Vale do Rio Doce, Fabio Schvartsman, em entrevista coletiva no sábado (26), de que o rompimento teria sido rápido demais para permitir o acionamento do alarme sonoro de alerta para os funcionários da empresa e a população da cidade.

De acordo com Reis, as tecnologias de monitoramento preditivo da instalação são capazes de detectar anomalias e riscos em barragens meses antes de rupturas em suas estruturas. A categoria de risco alto, que indica início do processo de rompimento, quando as sirenes devem ser acionadas, pode durar horas ou dias até o colapso, segundo o professor.

 

Monitoramento

Entre as várias tecnologias de monitoramento utilizadas, a Vale informou, em nota, no dia 25, o emprego de 94 piezômetros e 41 medidores de nível d’água na barragem, que é feita de argila (“Esclarecimentos sobre a Barragem I da Mina de Córrego do Feijão”).

Os medidores de nível d’água são usados para aferir sua quantidade no corpo do maciço. Se houver problema na drenagem, por exemplo, ocorrerá acúmulo de líquido no interstício argiloso, indicando entupimento dos filtros. O nível d’água é usado para calcular um Fator de Segurança (FS) relacionado à pressão sobre a estrutura, descreveu Reis. Há uma folga de 50% entre o nível mínimo exigido pela legislação (FS acima de 1,5) e o nível próximo ou na ruptura (FS abaixo de 1). Essa é uma das principais informações sobre a estabilidade da estrutura de contenção.

Além disso, é feita a inspeção de campo, que identifica outros sinais visíveis, como umidade nas paredes, aspectos da vegetação, afundamentos e trincas. Tomados em conjunto, esses dados permitem prever com antecedência riscos de segurança. “Um plano de monitoramento bem feito consegue saber o que está acontecendo dentro da barragem. (…) Uma barragem dá sinais antes de romper. Em geral, os grandes rompimentos de barragem são causados por erosão interna”, afirmou o professor.

Desse modo, segundo Reis, entende-se que na Barragem I do Córrego do Feijão havia condições de previsibilidade suficientes para o acionamento do alarme e a evacuação completa da mina e dos bairros do entorno, o que poderia minimizar o número de mortes. De fato, a categoria de risco da barragem rompida era “baixo”. O agravamento dos danos para que categoria fosse elevada para risco alto poderia demorar meses. Ou seja, o sistema falhou em identificar a ruptura iminente, de acordo com o professor da Unesp.

 

Sistema de alerta

Vista aérea da região afetada pelo rompimento da barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), captada durante sobrevôo em helicóptero do presidente Jair Bolsonaro em 26 de janeiro. Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República.

Vista aérea da região afetada pelo rompimento da barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), captada durante sobrevôo em helicóptero do presidente Jair Bolsonaro em 26 de janeiro. Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República.

O alarme sonoro de evacuação, que não existia na barragem do Fundão da Samarco, em Mariana (MG), também pode alertar outros tipos de emergência na mina. As torres são alimentadas por energia solar funcionando mesmo quando há interrupção da rede elétrica.

Há relatos de episódios anteriores em que o alarme soou e os funcionários saíram da mina em segurança. “A sirene já tocou antes, mas naquele dia não” disse à reportagem Cláudio Oliveira, porteiro do centro administrativo, que conseguiu escapar da avalanche de lama pulando a janela e correndo para um ponto mais elevado.

No domingo (27), moradores foram acordados pelo estrondo das sirenes quando a barragem VI, de água, atingiu a categoria de risco médio. A portaria nº 70.389/2017 do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) determina que ao “atingir uma emergência de nível 3 (risco alto), o empreendedor é obrigado e responsável por alertar ou avisar a população potencialmente afetada”.

Sobre essa operação, o Reis opinou: “Quando a sirene toca, a população tem que sair. O alerta fora das situações de risco de ruptura iminente deve ser evitado, pois pode causar pânico desnecessário. E, se tocada por qualquer problema, a população não vai mais acreditar na sirene”.

O alerta no domingo demonstrou que o equipamento sonoro estava em plena condição de operação. E, diferentemente do que declarou Schvartsman, ainda que o alarme fosse acionado somente no instante da ruptura, haveria tempo para que as pessoas em pontos mais distantes fossem alertadas.

 

Protocolos científicos

A procuradora geral da República, Raquel Dodge, sinalizou, em entrevista coletiva em Brumadinho também no sábado (26), que os protocolos científicos para a segurança de barragens precisam ser revistos, pois teriam falhado. Uma ordem de evacuação de regiões vizinhas a outras instalações, como a barragem Casa de Pedra, em Congonhas (MG), da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), não foi descartada.

Sobre mudanças de posicionamento da comunidade científica, o presidente da Febrageo afirmou que os métodos de monitoramento existentes para vigilância das barragens são avançados e consagrados mundialmente e que pode ter havido problema na gestão e execução do monitoramento. Ele admitiu, por outro lado, que está havendo discussões na comunidade sobre o método de construção empregado na barragem do Córrego do Feijão, alteamento a montante, cuja segurança seria controversa pela dificuldade de avaliar a estabilidade da base de cada camada da construção.

 

Sem respostas

Questionada sobre a frequência do monitoramento preventivo e sobre quem eram os responsáveis pela a análise dos dados e elaboração dos relatórios que permitem decidir sobre o acionamento do alarme sonoro, a Vale não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

No domingo (27), a reportagem solicitou à Agência Nacional de Mineração (ANM) acesso ao relatório da inspeção que a Vale alegou ter cadastrado no Sistema Integrado de Gestão e Segurança de Barragens de Mineração (SIGBM) em 21 de dezembro. No mesmo dia, a reportagem também solicitou à empresa acesso aos relatórios internos produzidos pelas inspeções dos dias 8 e 22 de janeiro. Até o momento, a agência e a mineradora não deram respostas.

Na imagem no alto, Centro de Monitoramento da Samarco, no escritório da empresa em Germano (MG), onde são monitorados em tempo real as barragens e diques da companhia. Foto: Leo Drumond/NITRO.

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