Animais polinizadores prestam serviço de R$ 43 bilhões por ano à agricultura

Relatório de 12 especialistas com base em 400 estudos alerta para importância da diversidade para a produção de alimentos.

FÁBIO DE CASTRO

Fundamentais para a produção de alimentos no Brasil, os animais polinizadores prestaram serviços ecossistêmicos estimados em R$ 43 bilhões em 2018. A conclusão é de um novo relatório realizado por 12 especialistas brasileiros após a avaliação de mais de 400 publicações científicas sobre polinização e produção de alimentos.

O relatório “Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos” foi lançado nesta quarta-feira (6) pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e pela Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP).

Em sua maior parte, os animais polinizadores são insetos, como abelhas, moscas, borboletas, mariposas, vespas e besouros. Existem também vertebrados, inclusive morcegos, mamíferos não voadores e lagartos. Mas o grupo mais importante para a agricultura, segundo o relatório, é mesmo o das abelhas, que elas prestam serviços de polinização em mais de 90% das culturas já estudadas no mundo.

 

Serviços ecossistêmicos

Os cientistas destacam que 76% das plantas utilizadas para a produção de alimentos no Brasil é dependente do serviço ecossistêmico de polinização realizado por animais. Algumas culturas são totalmente dependentes e não existiriam sem os polinizadores, como é o caso da produção de castanha-do-brasil, caju, maçã, maracujá, melão, melancia e pinhas.

Além do relatório de 47 páginas, os pesquisadores lançaram um Sumário para Tomadores de Decisão, que apresenta aos gestores públicos os principais pontos do documento.

De acordo o coordenador do BPBES, Carlos Alfredo Joly, um dos principais objetivos do relatório é chamar a atenção para a extrema importância da dinâmica ecológica dos polinizadores, cujo desconhecimento pode colocar em risco a produção agrícola do país.

“A polinização é um serviço importantíssimo, especialmente no Brasil, que tem como commodity a exportação de alimentos. A ideia central do relatório é mostrar o imenso peso econômico desses serviços”, disse Joly a Direto da Ciência.

 

Agrotóxicos e desmatamento

Segundo Joly, que é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pela falta de conhecimento, os próprios produtores muitas vezes colocam em risco a diversidade de polinizadores, pelo uso excessivo de agrotóxicos e por não manterem áreas de vegetação nativa próximas às plantações.

“Não há uma só espécie responsável pela polinização. A diversidade de polinizadores é fundamental para a prestação do serviço. Esses animais precisam ter alimentos durante todo o ano e não apenas na florada do produto agrícola. Isso não acontece quando há uma área extensa de culturas sem vegetação nativa próxima. O relatório mostra ao produtor como manter o habitat para os polinizadores ao longo do ano”, explicou.

Outra razão para a publicação do relatório, segundo Joly, foi a grande disponibilidade de estudos, que permitiram produzir um diagnóstico completo do problema da polinização. De acordo com ele, estudos nessa área são feitos no Brasil há cerca de 60 anos e há um grande acúmulo de conhecimento no meio acadêmico. “Achamos importante sintetizar esse conhecimento em um diagnóstico que cobre todo o território nacional.”

 

Importância econômica

Os cientistas estimam que os polinizadores geram US$ 12 bilhões ao ano, segundo Joly. A valoração monetária do serviço ecossistêmico de polinização considerou o valor da produção e o incremento da produtividade associado aos animais polinizadores. Cerca de 80% desta quantia está associada a quatro cultivos de grande importância agrícola no país: soja, café, laranja e maçã.

“O valor de US$ 12 é algo muito significativo na nossa balança comercial, mas possivelmente o impacto econômico dos polinizadores é muito maior, porque a ausência desses serviços teria um efeito em cascata que produziria perdas importantes”, disse Joly.

O mesmo cálculo, feito em escala global, sugere que os polinizadores prestam um serviço de US$ 250 bilhões por ano à agricultura mundial, de acordo com outra das coordenadoras do relatório, Kayna Agostini, que é membro da REBIPP, uma rede de cerca de 60 pesquisadores de todo o Brasil que estuda as diversas dimensões das interações entre plantas e polinizadores.

“O impacto econômico é imenso em todo o mundo e, por isso, queremos alertar e chamar a atenção da governança e dos tomadores de decisão para que comecemos a aprovar legislações de preservação da diversidade dos polinizadores” disse Kayna.

Segundo ela, a produção de relatórios regionais e locais para diagnosticar a situação dos polinizadores e propor ações em sua defesa foi uma diretriz estabelecida pela Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

 

Pioneirismo  brasileiro

Conhecida como “IPCC da Biodiversidade”, em referência ao painel intergovernamental do clima, a IPBES, da qual o Brasil é signatário desde 2012, tem o objetivo de fazer a interface entre a ciência e a tomada de decisão para conservação da biodiversidade. “O Brasil foi o primeiro país a desenvolver esse relatório nacional indicado pela IPBES, disse Kayna.

“Muitas culturas altamente dependentes dos polinizadores. O maracujá, por exemplo, é altamente dependente da abelha mamangava. Se ela não entrar em contato com os elementos reprodutivos das flores, o fruto não se forma. Essa abelha geralmente faz ninhos em troncos podres. Se não houver um fragmento de floresta nas proximidades, a mamangava vai embora e o produtor precisa contratar pessoas para esfregar as mãos nas flores, uma por uma, gerando um custo”, explicou.

Outro exemplo é a soja, que depende medianamente do polinizador. “A planta até consegue formar sozinha o fruto e o grão que são comercializados. Mas os estudos mostraram que, com o polinizador, o grão se torna mais robusto, o que aumenta a produção em 30%”, disse Kayna.

Algo parecido ocorre com a berinjela. Quando o polinizador é a abelha europeia, um inseto exótico no país, os frutos formados são de 180 a 200 gramas mais leves, com impacto importante na produção. “A polinização da berinjela é feita por abelhas nativas que vibram na hora de pegar o pólen. As abelhas europeias não têm esse comportamento e a polinização é menos eficaz”, afirmou Kayna.

Na imagem acima, abelha doméstica (Apis mellifera). Foto: Ivar Leidus, sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International.

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