Revistas médicas não seguem suas próprias regras ao relatar testes clínicos

Publicados em 5 dos principais periódicos de medicina, só 9 artigos de 67 avaliados reportaram conclusões corretamente, segundo estudo.

 

FÁBIO DE CASTRO

Algumas das principais revistas científicas da área médica não seguem suas próprias regras para divulgar resultados de testes clínicos, de acordo com um novo estudo realizado por pesquisadores britânicos.

Após analisar 67 artigos que descreviam resultados de testes clínicos, publicados em cinco tradicionais revistas científicas durante seis semanas no final de 2015, os pesquisadores concluíram que apenas nove deles reportavam as conclusões de maneira correta, segundo o estudo, publicado no dia 14 no periódico Trials.

A pesquisa britânica faz parte de um projeto cujo objetivo é descobrir se os principais periódicos da área médica estão cumprindo suas próprias regras para garantir que os resultados sejam divulgados de maneira correta. Segundo reportagem da Science, várias dessas publicações estão fracassando nessa tarefa e “tanto as revistas como os autores estão cheios de desculpas”.

O estudo foi liderado pelo médico Ben Goldacre, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. No ano passado ele coordenou também outra pesquisa, segundo a qual cerca de nove de cada 10 estudos clínicos feitos em universidades não cumprem o prazo de um ano estabelecido pela União Europeia para publicar essas mesmas informações (“Universidades demoram mais que empresas para reportar resultados clínicos”, Direto da Ciência, 15/set/2018).

Sob a liderança de Goldacre, o Projeto Centro de Monitoramento de Resultados para Medicina Baseada em Evidências (COMPare, na sigla em inglês) teve início há quatro anos e examinou todos os ensaios clínicos publicados ao longo de seis semanas entre outubro e novembro de 2015 em cinco revistas: Annals of Internal Medicine, British Medical Journal (BMJ), Journal of the American Medical Association (Jama), Lancet e New England Journal of Medicine (NEJM).

 

Resultados mal explicados

Um dos problemas recorrentes com testes clínicos, segundo a Science, é que os pesquisadores começam dizendo que irão procurar por um resultado específico – ataques cardíacos, por exemplo –, mas acabam relatando alguma outra coisa quando publicam os resultados. “Isso pode fazer com que uma droga ou tratamento pareça mais segura ou mais eficaz que é na realidade”, diz a revista.

As cinco revistas analisadas endossaram as diretrizes dos Padrões Consolidados de Relatório de Testes (Consort, na sigla em inglês). Segundo essas diretrizes, os autores devem descrever os resultados que planejam estudar antes do início dos testes e que se atenham a essa lista quando publicarem os resultados.

Os artigos analisados na pesquisa cobriam temas variados, segundo a Science, que iam de efeitos do álcool sobre a saúde de diabéticos à comparação entre dois medicamentos para câncer de rim.

Dos 67 testes clínicos publicados nas cinco revistas, apenas nove relatavam os resultados dentro dessas diretrizes. Em um quarto dos casos, o autor do artigo não relatou corretamente o resultado primário que havia se preparado para medir. Em 45% dos casos, não foram relatados todos os resultados secundários. Alguns adicionaram ainda resultados novos.

 

Críticas ignoradas

A equipe do COMPare enviou 58 cartas para as revistas, sobre os artigos problemáticos, mas apenas 23 delas foram publicadas. As revistas Annals e BMJ publicaram todas e a Lancet publicou 80%, enquanto a NEJM e a Jama não publicaram nenhuma até agora.

Os editores da NEJM explicaram que seus editores e revisores decidem quais resultados serão reportados. Segundo eles, ainda que algumas regras da Consort sejam “úteis”, os autores não são obrigados a segui-las. A Jama e a NEJM disseram que nem sempre têm espaço para publicar todos os resultados.

Segundo o estudo de Goldacre, nos casos em que os autores que publicaram os testes clínicos responderam às cartas publicadas, os comentários estavam cheios de “declarações imprecisas ou problemáticas, além de mal-entendidos”. De acordo com a equipe do COMPare, alguns dos autores não parecem ter entendido as regras da Consort e outros atacaram o projetoc omo “algo externo à comunidade de pesquisa”. Outros, ainda, “ignoraram as críticas, reclamando sobre quão difícil era o trabalho deles”.

Em entrevista à revista Vox, Goldacre afirmou não acreditar que todos os pesquisadores e revistas que foram flagrados modificando seus resultados tenham feito isso deliberadamente. “Muitas vezes trata-se de descuido ou de uma falha em levar a questão suficientemente a sério. Mas esses relatos desleixados encobrem os pesquisadores que estão deliberadamente alterando seus resultados. Por isso é tão importante se manter na linha e se esforçar para reportar de forma correta”, disse o cientista.

Na imagem acima, Faculdade de Medicina da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Foto: Jason Tong, sob licença Creative Commons.

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