Militantes antivacina atacam comitê de cientistas nos Estados Unidos

Manifestantes transformam reuniões dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças em novo front de combate à vacinação.

FÁBIO DE CASTRO

Desde meados de 2018, os militantes do movimento antivacina passaram a adotar uma nova estratégia para atacar cientistas, informa reportagem da revista Science. Eles estão comparecendo em grande número às reuniões do Comitê Consultivo de Práticas de Imunização (Acip, na sigla em inglês), para pressionar o painel de 15 especialistas encarregados de definir as recomendações de vacinação no país.

O comitê se reúne três vezes por ano na sede dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês), sediado em Atlanta, na Geórgia. Segundo a Science, os manifestantes têm aproveitado as sessões de comentários abertas ao público durante as reuniões para “despejar sua raiva” sobre os especialistas e “para ridicularizar a vacinação em geral.”

“Eu não consinto em entregar minhas crianças dadas por Deus ao governo dos Estados Unidos da América”, disse Sandy Spaetti, de Rockport, em Indiana, durante o encontro da Acip em 27 de fevereiro, sob os aplausos estridentes de dezenas de ativistas, segundo a revista.

“Como pode ser segura uma vacina que fez com que os intestinos do meu filho se dobrassem e que quase o matou?”, perguntou Nicole Mason, uma fotógrafa de Jacksonville, na Flórida. Ela disse “ter perdido a fé em todas as vacinas quando seu filho de quatro meses desenvolveu uma obstrução intestinal após receber a vacina contra rotavírus no verão passado. O bloqueio tem ocorrido com frequência de um a cinco em cada 100 mil bebês vacinados, e pode ser causado pela própria infecção viral, explica a reportagem.

 

Presença crescente

O presidente da Acip, José Romero, disse à Science que o aumento da presença de ativistas anti-vacinas nas reuniões é perceptível. “Esse pode ser o ‘novo normal’, não sabemos. Mas é certamente muito mais do que temos visto no passado”, afirmou Romero, que é pesquisador da Universidade de Arkansas e participa do painel há quatro anos.

Em sua maioria médicos, os membros do Acip revisam grandes quantidades de dados de saúde pública, desenvolvem e determinam – por votação – as recomendações para imunização de todos os tipos. No fim de cada apresentação técnica, há uma sessão de comentários aberta ao público durante uma hora e 15 minutos.

“Esse é um tipo de nível zero das decisões que estão sendo tomadas”, disse à Science a militante Lynette Barron para justificar a presença dos ativistas no painel.

Apresentadora de um programa de rádio em Pell City, no Alabama, Lynette alega que suas filhas de três e cinco anos de idade foram prejudicadas por vacinas e, por isso, ela participa das reuniões da Acip desde o início de 2017. No ano passado, ela lançou a página de Facebook “Inundar os encontros do Acip-CDC”.

Segundo a Science, cerca de 20 militantes contrários à vacinação estiveram presentes no encontro do Acip em junho de 2018. Em outubro, o número de ativistas já chegava a 50. No evento realizado em janeiro, o CDC lançou novas regras de conduta e exigiu que os participantes passassem por um detector de metais. Os participantes também receberam o aviso de que seriam retirados do local em caso de perturbação.

Na reunião em fevereiro, segundo a Science, a polícia fez um cordão de isolamento nas portas do auditório do CDC, lotado por 165 pessoas, das quais pelo menos 80 eram militantes anti-vacina de diversos estados.

Na imagem acima, edifício-sede dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em Atlanta, Geórgia. Foto: James Gathany/Centers for Disease Control and Prevention/Wikimedia Commons.

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